Não seremos éticos se a sociedade não estabelecer um consenso sobre o ética. Estou alinhado com os que acreditam ser a ética um padrão único de conduta, sem estabelecer distinção: ética na política, na ciência, na medicina e outros. Claro que cada atividade tem especificidades, mas em princípio a ética deve ser igual para todos. Não teremos cidadãos éticos se não ensinarmos ética nas escolas. Tal qual português e matemática, em todos os anos escolares devemos ter conteúdos e disciplinas sobre ética. Que aumente-se a com-plexidadea cada ano escolar, mas desde muito cedo devemos estabelecer na personalidade, na mentalidade e na conduta de nossas crianças e adolescentes os conceitossobre ética. Devemos formalizar eexplicitar os conceitos sem esta ideia de que o que vale é a prática e o exemplo. Nem todos tem esta sensibilidade e a desculpa de adultos que fazem coisas anti-éticas quase sempre é a mesma: - eu não sabia que isto era anti-ético.
No setor de recursos humanos temos os analfabetos que não sabem ler, analfabetos di-gitais e analfabetos funcionais: será que teremos que criar a expressão analfabetos éticos! Durante muitas décadas nas escolas brasileiras falar de ética e filosofia, correntes de pensamentos e expressar sua opinião era terminantemente proibido. Os professores e alunos que teimaram em violar as regras implícitas foram apontados como comunistas, subversivos e até, pasmem, terroristas. Várias gerações brasileiras, as que nasceram entre 60 e 80, foram submetidas a este tipo de formação restrita e tiveram sua capacidade de abstração e devaneios, de raciocínio e expressão subjetiva, cassadas pela ditadura militar. Ao expressar-me desta forma corro o risco de jovens com menos de 30 afirmarem: - isto não é verdade, esse cara é um exagerado... Mas, infelizmente, era assim, sem qualquer exagero. Ninguém gosta que se mexa em seus con-ceitos, visões e propriedades intelectuais. Ninguém gosta de sair da zona de conforto, uma frase muita usada pelos conquistadores baratos de mulheres alheias, mas é verdadeira! Imaginemos: como iremos convencer alguém que piratear programas de computador, CDs, DVDs, filmes, imagens e músicas são atitudes anti-éticas? Se mudarmos este tipo de condutas teremos que mudar a prática doméstica, corrigir condutas de nossos filhos, irmãos, primos, netos, avós e tios. Como se comportará um pai sendo corrigido pelo filho ao observá-lo pirateando músicas e filmes? Como ficará o pai que na frente do filho não devolve o troco que veio a mais? Ou quando o caixa de supermercado não cobrou uma caixa de chocolate que passou sem pagar, mas o filho percebe que a mãe não voltou para corrigir o erro?
Temos que educar as crianças e futuros cidadãos sobre o que é acordo, rompimento de acordo, individualismo, coletividade, diferença entre privado e público. Devemos incutir nas pessoas que invadir a privacidade das pessoas é anti-ético, que fazer fofocas e soltar boatos também é, mas estou correndo o risco de alguém ao meu lado falar: ah! sem fofocas, boatos e coisas picantes da vida alheia o cotidiano não tem graça!
A conduta anti-ética tem sempre “explicação”: o produto original é caro demais, ou não se encontra disponível no mercado, ou ainda,vai ser apenas para uso pessoal! Quantas vezes escutei justificativas como: eu pirateio CDs e DVDs porque são caros demais! Por isto justifica-se roubar um carro um ou tênis, apenas por que são caros demais!? O princípio ético não é econômico, mas sim moral.
Automaticamente devemos saber cantar o hino nacional, responder quais são os continentes, quem foi herói da independência, que região geográfica está inserido São Paulo. Nossas crianças também devem aprender automaticamente analisar o que é ético e anti-ético. Mentir para a mãe e pai é anti-ético? Trair é ético? Declarações falsas ao telefone é anti-ético? Atestados médicos falsos são anti-éticos? Justificar faltas na escola com motivos que não são verdadeiros é ético? Coerência, oh! santa coerência. Se pretendemos ter políticos éticos, devemos formar cidadãos éticos e isto se faz em casa e na escola, desde os primeiros momentos da vida biológica e mental. Não nos enganemos: ética não é coisa de intelectual. Ética tem a ver com postura e visão de mundo, ou como se gosta de dizer por aí: é filosofia de vida!
O autor, Alberto Consolaro, é professor titular da USP em Bauru e colunista de Ciências do JC