09 de julho de 2026
Geral

Mulher acusa PS de omissão de socorro

Mariana Cerigatto
| Tempo de leitura: 4 min

Uma acusação de omissão de socorro pelo Pronto-Socorro (PS) Central de Bauru foi levada à polícia anteontem e à Defensoria Pública ontem. No boletim de ocorrência (BO) consta que Joana de Souza Silva, de 68 anos, teria permanecido por quatro dias nos corredores do posto de saúde após ser levada pela viatura do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).

Mesmo após ter sido detectado que a paciente sofreu derrame cerebral, ela aguardava, em estado gravíssimo no PS, uma vaga para o Hospital Estadual até a tarde de ontem. O prazo máximo de transferência é de 48 horas, sendo que pessoas que apresentam quadro grave devem ser levadas às unidades de internação imediatamente.

Quem faz a acusação de omissão de socorro é a balconista Cleusa Moreira de Souza Silva, de 43 anos. Joana é sua sogra. “Mesmo apresentando um estado grave de saúde, desde segunda-feira ela está no Pronto-Socorro. Ela vai morrer lá antes mesmo de receber tratamento adequado. Isso é um absurdo”, disse Cleusa.

Conforme relato da balconista, a vítima deu entrada no PS na segunda-feira, dia 8, por volta das 9h30. Ao chegar, recebeu os primeiros cuidados médicos, mas permanecia até ontem nos corredores do Pronto-Socorro sem atendimento adequado, devido à gravidade de seu estado de saúde.

Além de ter sido vitimada pelo acidente vascular cerebral (AVC), há aproximadamente 30 dias, Joana teria passado por procedimentos de cateterismo e angioplastia. A nora alega ainda que a vítima tem deficiência visual, é hipertensa, cardiopata e diabética.

Vaga

O Jornal da Cidade entrou em contato com o PS Central, que informou que a paciente, até a tarde de ontem, realmente aguardava no estabelecimento uma vaga para o Hospital Estadual. O PS confirmou que o diagnóstico de Joana é de AVC, conforme já suspeitava sua nora.

Membro do Conselho Gestor do Pronto-Socorro Central, Rose Lopes, explica que o tempo de espera para transferência de um paciente para unidades hospitalares é de, no máximo, 48 horas, ou seja, dois dias.

“O PS tem conseguido transferir a maioria dos pacientes dentro deste prazo ou até antes. No entanto, em alguns casos, ultrapassa-se algumas horas devido à dificuldade de conseguir vagas nos hospitais”, salienta Rose.

O paciente, antes de pleitear uma vaga nos hospitais públicos, precisa ser diagnosticado ainda nas unidades de socorro, o que explicaria o tempo que Joana teria ficado no PS até receber informações oficiais sobre seu quadro de saúde.

“No PS, é definido o quadro clínico do paciente, que precisa ficar sob observação e monitoramento durante um período, até realizar todos os exames necessários. Somente após detectar o diagnóstico é que ele será encaminhado para o hospital” explica a conselheira.

No entanto, o diagnóstico foi dado no último dia 9, sendo que ontem ela permanecia na unidade de emergência. Cleusa, nora da idosa, resolveu levar o caso até a Defensoria Pública, além de registrar o BO.

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‘Precisamos de unidades geriátricas

para acolher idosos’, diz conselheira

Membro do Conselho Gestor do Pronto-Socorro Central, Rose Lopes esclarece que o prazo de transferência para hospitais, em casos de gravidade, nem sempre é respeitado devido à ausência de leitos disponíveis nas unidades, muitas vezes ocupados por outros pacientes que não conseguem retornar às suas residências para receber os cuidados médicos.

“Nós temos muitos casos de pacientes, especialmente idosos, que não têm familiares preparados para dar continuidade ao tratamento em casa”, aponta Rose. “Esses acabam ficando na unidade hospitalar durante longos períodos, fator que dificulta a entrada de novos pacientes que precisam receber atendimento”, enfatiza.

Segundo ela, as doenças vasculares são as que mais atingem a população acima de 60 anos. “Um idoso com um problema vascular, por exemplo, às vezes precisa amputar uma parte do corpo, e muitos deles ficam no hospital por um período de 90 dias, sendo que poderia receber cuidados em casa por familiares ou cuidadores”, alega.

Nessas condições, as unidades hospitalares deixam de atender cerca de 18 pacientes enquanto outra pessoa fica aproximadamente 3 meses ocupando um leito no hospital. Esse paciente que fica retido, geralmente, não tem para onde ir e nem possui familiares que possam dedicar tempo para cuidar das enfermidades, conforme esclarece.

“Diante essa dificuldade de acolhimento nos hospitais gerais, é preciso cobrar dos governos estadual e municipal a construção de clínicas, unidades específicas e profissionais que cuidem dos idosos, ou até, programas que levem cuidadores até a casa do paciente”, ressalta Rose.