09 de julho de 2026
Geral

Domar filhos é ‘arte’ e requer treino

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 6 min

Houve um tempo em que o apontar para o cinto ou um olhar torto eram sinônimos de choro engolido e paz dentro de casa. Mas medidas enérgicas tomadas pelos pais tornaram-se alvo de rebeldia juvenil e de recriminação pela sociedade politicamente correta e moralmente degradada. Atribulados pelo trabalho, muitos pais, quando não se curvam aos filhos simplesmente desistem, sem meios para mostrar-lhes o melhor caminho.

Mas a ausência de mecanismos para educar, somada à velocidade e quantidade de informações absorvidas pelos jovens, propicia desvios de comportamento que podem gerar problemas sérios, inclusive de esfera criminal.

Ângela Ferreira Domingues é psicóloga infantil e atesta: comportamento inadequado, quando ganha raízes dentro de casa, pode resultar em tristes episódios fora do lar. “Pode chegar ao delito sim”, confirma.

A sensação de poder dada a uma criança, ainda nos primeiros anos de vida, gera adolescentes que se acham donos absolutos do poder, seja em casa ou nas escolas, principalmente públicas, há tempos transformadas em campos de batalha enfrentados diariamente por professores que não conseguem impor autoridade.

“Muitas crianças não sabem o que é o certo e o errado. Os pais não impõem os limites, não dão a direção para a criança, que se acha capaz de tudo e que não há consequência negativa para ela”, complementa a psicóloga, que elenca a ausência entre os principais fatores que desencadeiam a falta de controle.

“Os pais trabalham cada vez mais para ter um padrão de vida razoável, sustentar a criança”, considera. “Então, tanto o pai quanto a mãe ficam muito fora, período em que a criança fica em mãos de outras pessoas, que também não conseguem impor limites”, exemplifica. Por outro lado, quando estão juntos, pais e filhos também passam, geralmente, longe do que se pode dizer educação. “Quando juntos, os pais sentem culpa, querem proporcionar momentos mais alegres e não conseguem utilizar o tempo para impor limites. Optam por presentes, passeios”, ilustra.

Desta forma, ao invés de ajudar, os pais acabam por alimentar o sentimento de onipotência do futuro adolescente batedor de portas, senão algo pior. Assim, a psicoterapeuta direciona aos pais para que sejam, sim, enérgicos quando necessário, mas obviamente dentro da lei, ou seja, sem agredir.

“Colocar limite não é agredir. Ser firme, falar o não, não é ofender, magoar ou machucar. Mas é necessário”, instrui a psicóloga, sem atribuir indisciplina juvenil a classe social. “O que as crianças dependem é do direcionamento que recebem dos pais. À medida em que cresce, a pessoa toma atitudes compatíveis com a educação que ela recebe. As crianças dependem disso. Os pais não podem se negar a isso”, afirma.

Sem pressão

Mostrar quem manda no pedaço não significa dar uma de sargentão em relação às crianças ou filhos adolescentes.

O respeito dos filhos, ensina a auxiliar de escritório Elaine Cristina do Alencar, é conquistado sem opressão. Mãe de três garotos, de 14, 11 e 5 anos, ela participou recentemente de um treinamento na Escola de Pais e aprova a iniciativa: “É preciso deixar claro que você é pai, mãe, não é amigo”, diferencia.

Contudo, apesar de deixar claro quem é quem na história, Elaine salienta que, na maioria das vezes, a atenção dispensada aos filhos é na base do carinho e valorização por pequenos gestos e, em minoria, por repreensão a erros. “Não é necessário autoritarismo, é tudo de forma didática”, detalha a mãe, afirmando que fez o curso não por necessidade, mas para aprimorar conhecimentos. “Meus filhos, graças a Deus, sempre foram tranquilos e respeitosos. Participei para aprender mais e dividir conhecimento”, justifica.

•Serviço

Mais informações sobre o programa Escola de Pais do Brasil (EPB) em Bauru pelo telefone (14) 3234-2293 ou e-mail salomao.blv@terra.com.br.

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Bauru tem Escola para Pais

Já para a aula. Desta vez a ordem não é para o seu filho. É para você mesmo. Se você quer tomar as rédeas e, para o bem de seu filho, mostrar quem dá as cartas dentro de casa, está na hora de voltar aos bancos da escola.

Estabelecida em Bauru há exatos 10 anos, mas segundo os próprios responsáveis, ainda desconhecida por muitos, a vertente local da Escola de Pais do Brasil (EPB) é uma instituição sem fins lucrativos que se apresenta como uma alternativa de recolocar a hierarquia doméstica nos eixos.

Presidida pela psicóloga Elisabeth Aparecida Biondo Salomão e pelo engenheiro Fernando Jorge Salomão, a seccional da EPB percorre escolas onde realiza treinamentos com duração aproximada de três meses, oportunidade em que pais, e até mesmo quem pretende ter filhos no futuro, passam por uma verdadeira “reciclagem”.

Eles recebem novos conceitos de responsabilidade e educação para os dias atuais repletos de estresse e com estrutura familiar diferente do padrão de outras épocas.

“Nosso maior objetivo é a prevenção. Obviamente que não existe uma receita pronta sobre como cuidar dos filhos. Contudo, mostramos caminhos para conciliar. Apesar das mudanças, o mundo familiar nunca vai acabar”, defende a psicóloga e presidente do grupo voluntário que, internacionalmente, existe desde 1963.

Aberta a todas as classes sociais e idades por meio de grupos fechados com 20 participantes, a iniciativa, destaca a psicóloga, já recolocou muitos pais perdidos nos trilhos e já salvou até casamento. “Um casal em beira de separação justamente por problemas com o filho nos procurou. O auxílio, no final, evitou o divórcio”, comemora a psicóloga.

“É um programa aberto a todos que se interessem, pode ser casal, pai, mãe, tio, avô, não importa. Nosso trabalho visa auxiliar todas as pessoas que se sentem perdidas nesse campo”, incentiva Elisabeth, que recentemente ministrou treinamento nas dependências do Colégio São José. “As atividades são itinerantes. Desde que haja estrutura mínima adequada, marcamos para diversos locais”, acentua.

Sem controle

Uma representante comercial, que pediu para ter sua identidade preservada, diz estar desnorteada com a filha de 19 anos, que não larga o computador para quase nada.

Ela diz que, ao invés de trocar algo que considera um “vício”, devido às horas desperdiçadas entre jogos eletrônicos e bate-papo online, a jovem preferiu largar o emprego de recepcionista.

“Ela me disse que não tinha tempo para estudar. Minha filha entra na faculdade às 7 (horas) da noite e saía do trabalho às 4 (horas). Agora não sai do computador para nada, não sei mais o que faço”, lamenta a mãe, alegando que não consegue tomar as rédeas da situação porque trabalha fora de casa o dia todo e não tem tempo para orientar integralmente a rotina da jovem.

“Quando eu era nova me desdobrava em trabalhos e estágios de final de semana, tudo isso para pagar faculdade. Hoje em dia parece que tudo está mais fácil e os jovens não dão valor”, analisa.

“Além do mais, eu também preciso usar o computador. É importante tê-lo dentro de casa”, pondera.

“Minha filha não bebe, nem usa drogas ou apresenta qualquer comportamento ruim além disso. O problema é ela gastar muito tempo na frente do computador”, reforça.

A mãe conta que já tentou tomar medidas com certa dose de energia, como desplugar e esconder os cabos do equipamento, mas a atitude foi inócua, diz ela.

“Voltei atrás porque não aguentava ver ela com a cara triste que ficava sem o computador. Não tenho como controlar”, admite.