08 de julho de 2026
Geral

Anúncio de refrigerante é alvo do MP

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 8 min

Retratos de um mundo maravilhoso e encantado, as propagandas de bebidas gaseificadas e carregadas de açúcares fogem da realidade ao mostrar gente saudável e, principalmente, esbelta, em pleno movimento. E é contra essa ilusão e a favor da saúde, principalmente das crianças, que o Ministério Público Paulista encampa ações civis públicas contra fabricantes da bebida, a fim de estipular novas regras para os anúncios.

O principal objetivo da Promotoria é acabar com o foco publicitário diretamente voltado ao público infantil, ainda mais vulnerável aos apelos da propaganda e, consequentemente, com maior exposição aos efeitos nocivos que o consumo desenfreado de bebidas altamente calóricas podem desencadear com o tempo, como a obesidade e o diabetes.

“O pedido foi para que os fabricantes de bebidas ricas em açúcar não dirigissem nenhum tipo de publicidade ou ação de marketing ao público infantil”, detalha João Lopes Guimarães Júnior, procurador do Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP).

Um dos alvos da promotoria também é uma fabricante que incentiva as crianças a beber um guaraná por meio de um personagem, também em forma de refrigerante. Além disso, as ações também exigem a inserção de avisos nos rótulos sobre os riscos do consumo desenfreado da bebida.

Defesa do consumidor

Os chamados produtos “light” ou “zero” não estão encampados pelas ações. Independentemente de serem refrigerantes ou não, podem ser sucos, outras bebidas açucaradas também estão na mira, comenta o promotor.

“O fundamento vem do Código de Defesa do Consumidor e visa o banimento da publicidade voltada ao público infantil”, reitera. Após consultar especialistas em saúde, a Promotoria argumenta que os refrigerantes com açúcar agem como alteradores da sensação de saciedade, ou seja, “enganam” o organismo com as chamadas calorias vazias.

Mesmo em meio às comprovações sobre o risco oferecido diariamente aos pequenos, a Justiça, ao menos provisoriamente, pende às corporações. Duas das três ações foram julgadas improcedentes, uma em primeira e outra em segunda instância.

A terceira, encaminhada pela promotora Dora Castelo, é voltada especificamente a uma empresa nacional que criou um personagem em desenho animado que incentiva as crianças a “beber e brincar”. A ação ainda aguarda julgamento, informa a assessoria de imprensa do Ministério Público Estadual.

Ciente de que a briga pelo bem-estar das crianças é de gente grande, o promotor, que iniciou os processos em 2003, reconhece o poder das corporações nos tribunais. Procurados pela reportagem do JC durante a última semana, representantes da Associação Brasileira das Indústrias de Refrigerantes e de Bebidas Não Alcoólicas (Abir), sediada em Brasília (DF), não retornaram as ligações.

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Jovem abusa e ‘ganha’ pedra nos rins

Durante quatro anos, Paula Cecília de Miranda Marques literalmente substituiu a água pelo refrigerante de cola mais famoso no mundo. Os “brindes” que ela ganhou? Uma infecção urinária seguida de pedra nos rins.

“Hoje eu dei uma maneirada. Tomo no máximo uma ou duas vezes por semana”, contabiliza a radialista, de 24 anos. Ela admite o que seria um “vício” nesse refrigerante, que, segundo ela, foi a única maneira de matar a sede durante quatro anos. “Todo dia eu tomava pelo menos uma latinha na escola. Com o passar do tempo, deixei de tomar água”, relata.

Quando morava com os pais, a relação de Paula e o “refri” era mais regrada, com ela e as irmãs podendo beber somente aos finais de semana. A situação desandou mesmo quando ela veio para Bauru cursar faculdade. “Eu sentia sede e preferia o refrigerante gelado do que a água. Fiz isso durante uns três anos até que no terceiro ano de faculdade começaram a aparecer as complicações”, relaciona. “Tive infecção urinária por falta de tomar água, até que esse ano surgiu uma pedra no rim consequente disso”, acentua.

Paula ainda se considera com sorte. Mesmo com litros e litros de refrigerante de cola por anos, ao menos não contabiliza pontos a mais na balança. “Meu metabolismo sempre ajudou e ando muito a pé. Felizmente, essa consequência não tive”, comemora.

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‘Viciados’ na bebida sabem dos riscos que correm

“Sei que não faz bem. Mas é um dos poucos prazeres que tenho”. A frase é do advogado Edison Bastos Gasparini Júnior, de 47 anos e, desde os 15, “viciado” assumido no refrigerante de cola mais vendido no planeta.

Quatro litros por dia. Essa é a quantidade mínima do refrigerante ingerido por ele. No carro, no escritório, em casa na frente da TV. Todo lugar é bom e toda hora é hora, seja para um copo ou uma latinha emergencial. “Carrego no carro, não fico sem”, comenta Gasparini, que leva uma bolsa térmica no carro.

Exageros à parte, o advogado diz que, por outro lado, evita bebidas alcoólicas. “Tem gente que sai do trabalho e toma uma cerveja. Eu abro meu refrigerante”, compara.

Porém, o consumo em demasia já criou problemas até em casa. Gasparini conta que a esposa, descontente com o excesso, exigiu que ele maneirasse. Porém, o desejo de sentir a refrescância do gás descer pela garganta com o líquido trincando de gelado foi maior e ele deu um “jeitinho”.

Para agradar a “gregos e troianos”, escondeu alguns fardos na despensa, que serviam de alento noturno para saciar a vontade que sentia de tomar o refrigerante.

O plano, no entanto, foi pelo ralo quando a esposa o surpreendeu, na calada da noite, com a boca na botija, ou melhor, na garrafa. “Já saí no meio da madrugada para comprar o refrigerante. Entrei em casa noturna só para conseguir comprar, numa época em que não havia lojas de conveniência”, recorda.

Ciente de que tudo em excesso cobra uma conta pesada para o organismo, ele admite que um dia vai ter que mudar os hábitos, nem que seja no momento em que o sinal ficar amarelo. “Nunca me aconteceu nada, exceto estar pesado. Me sinto bem, mas sei que, continuando com a compulsão, estou ‘do jeito que o diabo gosta’”, admite.

O caso de amor com o refrigerante rende fama a ele, que é presenteado pelos amigos com souvenirs alusivos à marca. Garrafas estilizadas, algumas importadas e raras, adornam o escritório de Gasparini e adoçam também os olhos do advogado.

Há dúvida de que olhar para os enfeites com o nome da bebida lhe dão vontade de abrir mais uma? Ele responde: “Só de falarmos agora, vou abrir uma lata”, disse, ao final da entrevista.

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Dentista diz: é hora de abandonar o refrigerante

Hipoglicemia, diabetes, fome compulsiva, gastrite, azia, queimação, sobrepeso, colesterol, triglicérides. Esses são alguns dos prejuízos sofridos pelo organismo com o consumo desenfreado do refrescante líquido, elenca a dentista Alba Maria Negrisoli Ribas.

Especialista em Odontopediatria pela Universidade de São Paulo (USP), antes mesmo de listar os problemas diretamente relacionados aos dentes, ela faz questão de alertar sobre os danos em todo o organismo. “Doses diárias de refrigerantes à base de cola fazem os músculos “murcharem”, dizem pesquisas publicadas no Reino Unido. Médicos afirmam que há muita eliminação de potássio”, detalha.

Grande vilão causador de cárie, que atinge todas as idades através da desmineralização do esmalte dental, o refrigerante em excesso, enfatiza a especialista, ainda é agente da erosão ácida, quando o esmalte amolece temporariamente durante exposição aos ácidos alimentares, de bebidas ou do próprio estômago, perdendo parte da proteção temporariamente.

“Entretanto, se o ataque ácido ocorrer com frequência, o dente não tem tempo de se recuperar”, alerta Alba. “A erosão ácida quando combinada com o atrito constante pode gerar desgaste na superfície. Exemplo é a escovação, que associada à erosão, pode causar desgaste, redução da espessura do esmalte até alteração na textura, forma e aparência do dente, que fica amarelado, além da sensibilidade e fraturas.”

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Crianças começam a consumir cada vez mais cedo

Segundo a nutricionista Patrícia Marques, da Universidade Sagrado Coração (USC), há mães que, desde muito cedo, incentivam os filhos a beber refrigerante. Esse tipo de substância é caracterizada pela existência exclusiva de calorias, sem qualquer forma nutricional compensatória, ou seja: só traz os malefícios do excesso de açúcar.

A ingestão desse tipo de calorias engana o organismo ao provocar uma falsa sensação de saciedade. “São calorias vazias, uma água gaseificada com apenas o líquido, sem ingestão de nutrientes. Isso não acontece na ingestão de suco, com a vitamina do suco”, compara. “Dá a saciedade porque tem a quantidade calórica. Mas não agrega qualquer valor nutricional.”

Assim, o organismo só absorve outros componentes, também nocivos em excesso, entre eles o sódio. Comum em embutidos ou no próprio sal, em demasia pode se tornar um grande vilão para a pressão arterial, uma bomba relógio para hipertensos. “Pode haver retenção de líquido e aumento da pressão arterial”, adverte.

Patrícia se diz favorável às ações voltadas à proibição de propaganda para as crianças. Entretanto, a orientação ainda vale mais do que medidas proibitivas. “A criança é voltada à alimentação errada, muito refrigerante e salgadinho, que também tem muito sódio. O grande problema é a obesidade infantil e crianças com problemas cardiovasculares e diabetes”, destaca.

Levantamento da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) aponta que 67% dos bebês com menos de 2 anos já haviam experimentado refrigerante. Os dados foram compilados após entrevistas com 67 famílias.

Mas também há quem dê o exemplo em casa. Apesar de reprovar o consumo, a bancária Katiuscia Narjara Repiso Dorta Bittencourt permite que os filhos, de 1, 3 e 7 anos, bebam refrigerante em festinhas ou eventos familiares. “Raramente em casa, os médicos falam que não é bom. Substituo por suco natural”, diz. “Criança tem vontade também, por isso não proíbo totalmente”, pondera.