08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Censo 2010


| Tempo de leitura: 3 min

Tive o imenso prazer em trabalhar no Censo 2010. Descobri um montão de coisas, conheci pessoas de todos os tipos; algumas maravilhosas, outras detestáveis... Entrei em prédios que parecem saídos dos livros de Sartre ou dos contos de Kafka, viajei no tempo...

Visitei aproximadamente mil e quinhentas casas. Recenseei três setores e verifiquei oito. Ufa! Andei pra caramba!!! Constatei na prática o que já sabia por intuição: os menos favorecidos são mais humanizados, gentis, prestativos e atentos às necessidades alheias... Nas casas mais pobres fui acolhida com muito carinho.

A grande maioria da população não sabe o que é o censo, aliás nunca ouviram falar... Ei pessoal, Jesus nasceu em Belém por causa do censo (Lucas 2, 1-4)... Gostaria de desabafar aqui que a grande maioria da população “não colabora” com os recenseadores.

O recenseador é um funcionário federal (ainda que temporário) concursado; passa por um árduo treinamento de oito horas diárias. Após o treinamento é submetido a outra prova classificatória para só então ser contratado.

Cada recenseador pertence a um posto de coleta e é submetido a um fiscal e a um gerente do posto que o avaliam semanalmente. O recenseador tem que comparecer ao posto pelo menos duas vezes por semana e mostrar a sua produtividade, descarregar o computador, esclarecer dúvidas, dar satisfações. É um trabalho difícil e sério.

Triste é que as pessoas que supostamente são mais “esclarecidas” são as que mais atrapalham o andamento do censo. Não nos oferecem sequer um copo d’água, isso quando atendem a porta. Querem escolher as perguntas que irão responder, acham que o recenseador tem que adivinhar o horário que lhes convêm, querem discutir o governo... O tempo que perdemos com essa frescura toda dava pra fazer três questionários.

Li aqui no JC que a CPFL contabiliza 142 mil imóveis residenciais, até aí tudo bem. Mas quem sabe informar quantos desses imóveis são de uso ocasional???

Muitas casas mobiliadas permanecem sem morador. Exemplo bem comum são casas de idosos que foram viver com filhos ou faleceram e a casa fica montada e vez por outra alguém dorme lá. Recenseei dois apartamentos em prédios diferentes que são mantidos apenas para leitura de livros e jornais; todos os dias alguém passa algumas horas ali só para ler e ter um pouco de sossego. Muitas residências são usadas como depósitos.

Em um prédio o porteiro não queria me deixar trabalhar por ser domingo (melhor dia para encontrar as pessoas em casa), disse que a ordem era não atender nenhum serviço aos domingos. Em algumas casas tive que voltar cinco, seis, sete, oito vezes, pois não encontrava ninguém e meus recados por escrito (pedindo para alguém entrar em contato) eram simplesmente ignorados.

O mais difícil é que temos que seguir rigorosamente o mapa do nosso setor, não podemos pular casas e o que ninguém sabe é que não andamos em linha reta, andamos em caracol mantendo a área de trabalho sempre do nosso lado direito. Isso quer dizer que um recenseador fica responsável às vezes por apenas cinco ou seis casas de uma rua, mas + ou - 200 casas de um setor. Por isso, com certeza o recenseador que o seu Wilson Carlos de Oliveira avistou visitando poucas casas da sua rua estava trabalhando direito, pois não invadiu o setor de outro, evitando grandes problemas.

O censo é arquitetado com muito bom senso e inteligência. Nosso manual de instruções tem 331 páginas...

As pessoas é que deveriam reclamar menos e colaborar mais. Receber prontamente o recenseador, responder às perguntas com clareza e ter em mente que responder o questionário “nos prazos fixados” é obrigado por lei, é um dever de todo cidadão brasileiro.

“A conduta é um espelho no qual todos exibem sua imagem” (Johann Wolfgang Von Goethe).

Damaris do Padre Pio