A alta do preço da carne bovina, que sofreu uma variação elevadíssima – de 58% - nos últimos dois meses, deverá se manter pelo menos até o final deste ano. Como, a partir de dezembro, tem início o período de férias e festas, a demanda pelo produto aumenta e, por consequência, os valores ao consumidor final não devem apresentar redução.
Qualquer possibilidade de queda, se houver, será sinalizada somente a partir do ano que vem. Mas as perspectivas para o mercado, não são animadoras. Segundo especialistas consultados pelo JC, como a majoração é influenciada por fatores que não são apenas momentâneos, mas também históricos, a tendência é que a normalização de preços demande mais tempo do que o desejado pelos consumidores e pela cadeia produtiva - com exceção dos produtores, que são os únicos beneficiados neste momento.
De acordo com o sócio-proprietário de um supermercado de Bauru, Jair Barbosa de Lima, os preços começaram a subir em setembro deste ano, época em que o quilo dos cortes mais vendidos, como a alcatra e o contra-filé, custavam, em média, R$ 12,00. Atualmente, o mesmo tipo de carne não sai por menos de R$ 18,50. Já cortes mais nobres como a picanha, por exemplo, variaram de R$ 22,00 para R$ 34,90 no estabelecimento. Em alguns supermercados da cidade, no entanto, o quilo pode ser encontrado por até R$ 49,90.
“Nós já estamos enfrentado dificuldades para encontrar algumas peças, como o noix e a própria picanha. Os frigoríficos estão abatendo muito pouco e têm que distribuir o que conseguem para um grande número de compradores. Não há carne para todo mundo”, revela Lima.
E como, a despeito da alta, a demanda interna se mantém aquecida, os preços devem permanecer em ascensão ou, no máximo, estáveis, por tempo indeterminado.
Especialistas consultados pelo JC são categóricos ao afirmar que a alta desenfreada foi provocada por uma confluência de fatores que vão desde a estiagem prolongada, que deixou o pasto seco nos últimos meses, até o abate excessivo de fêmeas de 2007 para cá, cuja repercussão está sendo observada agora. “Ao eliminar as matrizes, não houve reposição de bezerros, que teriam de estar sendo abatidos agora. É um ciclo que vai demorar de dois a três anos para se recuperar e, por esse motivo, as perspectivas são pessimistas no curto prazo”, explica Maurício Lima Verde, presidente do Sindicato Rural de Bauru.
Em grande parte, o abate desenfreado de fêmeas, há três anos, foi motivado pelas desvantagens que a criação de gado apresentava na época. Como a oferta de animais era grande, o preço se tornou pouco convidativo aos produtores, que começaram a desistir do negócio e migrar para outras culturas, como o plantio de cana-de-açúcar e eucalipto.
Arroba recorde
O preço da arroba do boi gordo no Estado atingiu, na semana passada, o maior valor real já visto, segundo pesquisa do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), que levanta os preços desde 1997. Em Bauru, a maior média a prazo registrada foi de R$ 117,00, livre de impostos. Na região de Presidente Prudente, a arroba chegou a ser negociada a R$ 120,00 no último dia 9, mesmo valor atingido em São José do Rio Preto no dia 11.
Para o consumidor, esta variação de uma região para outra tem pouco significado, já que a margem de lucro dos frigoríficos e supermercados acaba sendo ajustada naturalmente pelas leis de mercado, segundo explica Sérgio de Zen, engenheiro agrônomo, mestre e doutor em economia aplicada pela Esalq-USP e coordenador das áreas de carnes e leite do Cepea.
“Nas grandes redes de supermercado, a população vai pagar o mesmo preço pago na região metropolitana. Talvez haja alguma variação em açougues, que acabam comprando em menor quantidade. As promoções também podem representar diferença de preço, porque há regiões que dispõem de maior volume de cortes específicos do que outras”, salienta.
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Falta de investimentos na pecuária também contribui para ‘salgar’ valor
Outro fator que contribui para que os preços de custo e, por consequência, de venda, se mantenham elevados é a falta de investimentos no setor, de acordo com avaliação de Sérgio de Zen, engenheiro agrônomo, mestre e doutor em economia aplicada pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP) e coordenador das áreas de carnes e leite no Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq).
“A pecuária perdeu atratividade porque os custos de produção subiram em ritmo mais acelerado que os preços. A demanda interna e externa cresceram sem que houvesse um investimento significativo”, frisa.
Por conta deste panorama, conforme destaca Lima Verde, até mesmo o gado confinado, que serve para abastecer o mercado em períodos de entressafra, como o de agora, também está se esgotando. “Pode ser que as condições do pasto melhorem um pouco a partir do ano que vem, quando as chuvas tiverem início e o gado voltar a engordar. Mas o problema é que há falta até mesmo de boi magro que possa ser engordado”, considera.
Diante da escassez de animais para aquisição, os frigoríficos tem trabalhado com pequena margem de lucro e escalas curtas para abate. A expectativa é de que a situação melhore discretamente no próximo mês, quando a economia receberá a injeção de recursos com o pagamento do 13º salário.
“O consumidor aceita pagar até determinado valor e, com o aumento de preços, a demanda reduziu, embora ainda se mantenha aquecida. Mas acreditamos que o ritmo de abate terá alguma recuperação a partir de dezembro, mesmo com esse valor mais elevado”, considera o diretor comercial de um frigorífico de Bauru, Roberval Neres dos Santos.