09 de julho de 2026
Articulistas

22 de novembro

Paulo César Razuk
| Tempo de leitura: 4 min

A primeira notícia a respeito dos árabes e da região da Arábia em particular remonta ao Antigo Testamento: o povoamento da terra se faz pela descendência de Noé através de seus três filhos: Sem, Cam e Jafé. Os árabes fazem parte do conjunto de povos que se formaram a partir da descendência de Sem e sua história começa com as lágrimas de Agar.

Em oposição à população sedentária das cidades, o termo “árabe” (aqueles que “passam” ou “atravessam”) se aplicou aos beduínos nômades do deserto da Arábia, que viviam do pastoreio e do comércio com as caravanas que se serviam dos oásis. Hoje, o termo “árabe” deve ser utilizado no sentido da língua, da cultura, da política ou da etnia e não no sentido religioso. O termo “islâmico” guarda o caráter da religião, mas também do Estado ou da cultura e não da etnia; o termo “muçulmano” aplica-se às pessoas adeptas da religião islâmica, mas que não são, necessariamente, árabes.

Do mesmo modo que os países da Europa vêem a si mesmos como uma unidade, os árabes são vistos como uma grande nação nos limites daqueles que falam a mesma língua e são sensíveis à memória da glória árabe passada, possuindo uma divisão apenas geográfica e política que teve, entre outras causas, o próprio colonialismo europeu.

Desde criança a língua árabe me impressiona pela beleza. Ela é áspera, forte, às vezes rude, parece constituída de adagas, mas seu amplo alfabeto permite uma riqueza de palavras capazes de realizar uma síntese poderosa em delicada fraseologia, como estrelas rasgando a escuridão da noite no deserto. A caligrafia é misteriosa e flexível, traçada por fios sensíveis, mostra um elegante desenho que se transforma em impressionante eufonia. Penso que hoje a língua árabe é daqueles que demandam por justiça, é a língua das lágrimas daqueles em busca de um endereço, de um destino.

Meu avô materno descrevia-me Damasco, na Síria, entusiasmado pelos seus perfumes e pelos seus mil aromas. Meu pai, de Marjeyoun, no Líbano, contava-me de seus passeios por Beirute, com suas lojas e tradições; dos labirintos por onde ecoava, do alto das almádenas, a voz do muezin. O Líbano, país dos cedros, levanta-se na costa leste do mar Mediterrâneo de forma súbita para fazer a ponte entre o Oriente e o Ocidente. Assim como geograficamente os árabes foram rotas de comércio, ao se destacarem com os números, com a criação do alfabeto e na filosofia (falsafa) foram pontes de saber. A força e a beleza da literatura e da poesia sufi, lapidada no deserto, levou os árabes a ter na manifestação linguística uma de suas mais puras e legítimas obras de arte. O Líbano foi conquistado pelos gregos, romanos, cruzados e, por último, aconteceu a dominação otomana até o final da Primeira Guerra Mundial. Nesta época iniciou-se a emigração de libaneses para o Brasil, principalmente em consequência da visita de D. Pedro II, fluente em árabe, ao Oriente Médio, em 1876. Com o final da guerra e a queda do Império Otomano, as províncias árabes foram divididas entre a França e a Inglaterra. O Líbano se tornou um protetorado francês; suas fronteiras foram redefinidas e a recém- criada República do Líbano se tornou independente em 1943, data comemorada neste próximo dia 22 de novembro. O cedro de sua bandeira, que com raízes profundas o fazem altivo e determinado, é o retrato de um povo curtido pelas guerras que travou, não para conquistar territórios ou riquezas, mas uma identidade, uma cultura e o respeito de todos.

Outras levas de emigrantes aconteceram: na década iniciada em 1920, um grande número de libaneses se instalou em São Paulo e no Rio de Janeiro; em 1960, em Foz do Iguaçu e em 1980 em Belém do Pará e Teófilo Otoni, em Minas Gerais.

Hoje, para os libaneses e seus descendentes valem os atos e o que trazem dentro de suas cabeças e de seus corações; sua língua é a consciência e sua religião, a prática do bem. Para um mundo que se embate com os diferentes, que esbarra no diverso e que se propõe global, os libaneses são exemplo de tolerância que deriva do conhecimento e do entendimento do outro. É de lá que ecoam vozes pela integração dos povos, sem que se percam suas particularidades. É de lá que se clama: conheça a si mesmo para abraçar a humanidade inteira. É de lá o desafio: cresça como o cedro do Líbano, pois é assim que crescem os justos (Salmos 92:12), com força para suportar as intempéries e fazer história, mas uma história frondosa, duradoura e plena de atos construtivos. Com meus agradecimentos à diretoria do Clube Monte Líbano de Bauru, presidida por Massad Kalim Massad, por tudo que tem feito pela preservação da cultura árabe em nossa região.

O autor, Paulo César Razuk, é professor titular do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru