08 de julho de 2026
Bairros

Papai Noel existe, sim!

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 13 min

Todos os anos, assim que os calendários anunciam a chegada do mês de dezembro, o cotidiano dos bairros de Bauru se altera de um jeito todo especial: as fachadas das casas, outrora sérias e cinzentas, são ornamentadas com luzes coloridas e vibrantes; as praças, igrejas e outros espaços públicos, antes vazios, são tomados por uma multidão de gente; ações solidárias e fraternais, escassas durante ou outros 11 meses do ano, ganham vida e fazem a diferença na vida de quem precisa.

E mesmo em meio a este cenário todo característico, um personagem sempre se destaca: o Papai Noel. Mais popular que jogadores de futebol e astros da TV, o velhinho simpático e bonachão tornou-se uma espécie de personificação do Natal e atrai a atenção de crianças, jovens e adultos.

Em Bauru, dá para perder as contas de quantos estabelecimentos e bairros a figura já marcou – e ainda vai marcar - presença. E não poderia ser diferente, afinal, Natal sem Papai Noel não é Natal.

Porém, sempre que se invoca a figura do Bom Velhinho, uma antiga polêmica entra em questão: afinal, Papai Noel existe? E se não existir, é certo deixar as crianças acreditarem em sua existência?

Sinceramente, há muito tempo eu havia deixado de acreditar na magia e no carisma inerentes ao Bom Velhinho. O desencantamento aconteceu quando eu tinha 6 ou 7 anos de idade e descobri que quem colocava os presentes debaixo da árvore de Natal eram meus pais.

Foi uma coleguinha vizinha de minha casa quem me contou a verdade. Me lembro como se fosse hoje... minha mãe implorou para que não disséssemos nada ao meu irmão, três anos mais novo que eu.

A partir deste dia, e por toda a minha adolescência, passei a evitar todo e qualquer lugar onde o tal Noel estivesse presente. Corava só de pensar em ter de tirar uma foto com o figurão só para não decepcionar minha mãe nem desiludir meu irmão.

Magia

Cerca de 15 anos se passaram e, como ainda não tenho filhos, a reaproximação da figura do velhinho bonachão ainda não havia acontecido. Até que, na semana passada, recebi de minha editora a proposta de conversar com os Noéis da cidade e mergulhar no envolvente mundo da imaginação que tanto encanta as crianças e alguns adultos felizardos.

Para cumprir a pauta, resolvi visitar a Casinha do Papai Noel, na Praça Portugal. Lá fui recebida pelo Bom Velhinho e seus ajudantes, que animaram o fim de tarde com canções natalinas, balas e pirulitos.

Depois de muita conversa e boas histórias, finalmente o espaço foi aberto à visitação do público. As primeiras a entrarem na residência do ilustre Noel foram as irmãs Bianca e Gabriela Berriel, de 3 anos e 8 anos, respectivamente, que estavam acompanhadas da avó Léa. Empolgadas, as meninas se apressaram em pedir uma bicicleta como presente e logo fizeram o pagamento com a melhor moeda dispunham: um grande e largo sorriso e um apertado abraço.

A exemplo delas, todos os outros visitantes do bom velhinho deixavam transparecer nos olhos o encantamento pelo contato com um ser tão especial, que dá o ar da graça apenas uma vez ao ano.

No mesmo dia fui ao encontro do Papai Noel do Bauru Shopping. Novamente, uma surpresa: sentado em sua cadeira no pátio central do estabelecimento, o Bom Velhinho atendia, com muita ternura e carinho, a cada uma das crianças que faziam fila para vê-lo.

O pequeno Luiz Gustavo Gomes dos Santos, de 5 anos, chegou a chorar porque se assustou com a risada estridente do Papai Noel. Mas bastou um pouco de conversa e algumas balas para que o encantamento voltasse a predominar.

No final do dia duas certezas: Papai Noel existe, sim, e na, presença dele, minha semana seria bem melhor do que eu imaginava. Nos outros dias visitei outros três Papais Noéis, cada qual com suas particularidades e experiências para contar.

Em comum, além da alegria e da magia que transmitem, todos me perguntaram o que eu gostaria de ganhar de Natal. Nas ocasiões, como não sabia o que responder, prometi pensar. Hoje, refletindo sobre a experiência, decidi: meu desejo de Natal é que os Noéis permaneçam na cidade por mais tempo.

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Ho! Ho! Ho!

Todo mês de dezembro, árvores enfeitadas com luzes de Natal e pequenos pedaços de papéis coloridos misturados em meio à grama dão um toque especial à Praça Portugal. Quando isso acontece, até mesmo os observadores menos atentos logo notam: é sinal de que Bauru está em festa com a visita de seu mais ilustre hóspede, o Papai Noel.

Vindo do Polo Norte especialmente para a ocasião, o Bom Velhinho está instalado em uma aconchegante casa, com direito a escritório, sala, quarto, cozinha e banheiro. No local, objetos personalizados estão por todo canto e dão um charme especial ao ambiente.

“Sabe como é, né?! Vim do Polo Norte para passar uma temporada aqui e trouxe comigo todas as minhas coisas. É para que meus visitantes possam ver alguns de meus objetos preferidos”, justifica, exibindo garfos, facas e até mesmo um papel higiênico personalizado.

A equipe do JC conversou com o Papai Noel minutos antes dele abrir sua residência para acolher as visitas. Bem disposto, ele nos apresentou sua casa e seus ajudantes, posou para fotos, cantou e dançou muito. Além disso, se emocionou ao confessar que passa o ano todo esperando por este momento.

Entre uma boa conversa e altas gargalhadas, o Bom Velhinho bobeou e deixou escapar o lugar onde guarda os sacos de balas e pirulitos que distribui às crianças que o visitam durante a noite: debaixo da cama.

No dia que a equipe do JC estava no local, um dos primeiros grupos a chegar foi o das irmãs Bianca e Gabriela Berriel, respectivamente com 3 e 8 anos, que visitaram o Bom Velhinho acompanhadas pela avó Léa. Com olhinhos curiosos e um grande sorriso nos lábios, elas mal acreditavam no que estavam vendo.

“Olha, vó... a cozinha dele! Nossa! Que linda a caminha dele! Como a árvore de Natal dele é bonita, não é, vó?”, comentavam as pequenas, deixando transparecer o encantamento.

Por dia, cerca de 400 pessoas passam pela Praça Portugal com a intenção de dar um abraço e fazer seu pedido ao Papai Noel. Para receber todas as visitas a que tem direito, ele ficará hospedado na praça até o dia 27 e atenderá diariamente, das 18h às 22h. Mas no dia 24 e 25 nem adianta bater às portas da morada do Noel, afinal, ele estará muito ocupado distribuindo presentes pelos bairros da cidade. A entrada para a casinha do Papai Noel é um quilo de alimento não perecível (menos sal e açucar).

Antenado nas tendências

Modernidade e bom humor são as marcas registradas do Papai Noel do Bauru Shopping. Basta visitar o pátio central do estabelecimento para perceber que o Bom Velhinho é antenado nas tendências. Isto porque, além do tradicional cenário composto por uma enorme árvore de Natal, renas e muitos bonecos de neve, o Noel fez questão de incorporar ao ambiente um patinete motorizado e um ar-condicionado portátil.

“Ho!Ho!Ho! Você reparou, é? Vou te explicar: estou acostumado com o clima frio do Polo Norte e por isso preciso do ar-condicionado. Sem ele eu passaria muito calor aqui... minha roupa é muito quente. Já o patinete, é necessário porque o shopping está ficando muito grande. Pobre de mim se eu tivesse de andar por tudo isso aqui a pé”, justifica, rindo.

Quem passa pelo local logo nota sua presença. Com vozeirão ímpar e muita animação, ele faz questão de chamar a atenção de todos que passam por perto, independente da idade.

Em uma destas ocasiões, o Noel soltou uma estridente gargalhada e, sem querer, assustou Luiz Gustavo Gomes dos Santos, de 5 anos, que começou a chorar. Sem hesitar, o Bom Velhinho foi ao encontro do pequeno, colocou-o em seu colo e, após algumas balinhas, já eram novamente bons amigos.

“Eu queria muito falar com ele, fazer meu pedido e dizer o quanto gosto dele, mas acabei me assustando... Depois ele me chamou, conversou comigo e deu tudo certo”, suspirou aliviado, enxugando as lágrimas e abrindo um grande sorriso.

Além de crianças assustadas, o Bom Velhinho garante que está preparado para lidar com eventuais confusões que possam ocorrer. “Minha voz é bem potente e diferente, mas acredita que muitas crianças já me confundiram um professor daqui da cidade que se chama Fernando? Ho! Ho! Ho... Imagine!”, diverte-se com a semelhança.

Durante a visita, o Papai Noel contou à reportagem que itens como celulares, videogames e notebooks figuram na lista dos presentes que mais pesam no saco do Bom Velhinho. Porém ele deixa claro que existem coisas mais importantes a serem conquistadas, como, por exemplo, saúde, amor e paz.

Para mostrar o quanto é importante se preocupar com os sentimentos e bens não materiais ele faz questão de dar o exemplo. “Quando estou no Polo Norte gosto muito de pescar. Aliás, amo comer peixe e salada, que fazem muito bem à saúde. Quer saber... não sei porque sou tão barrigudo, já que me alimento tão bem”, reflete.

O Papai Noel fica no Bauru Shopping até o próximo dia 24. Os horários de atendimento variam de acordo com a data e podem ser conferidos no site www.baurushopping.com.br.

Roqueiros do bem

Era uma vez um grupo de jovens roqueiros, barbudos e com o corpo coberto por tatuagens, que resolveram utilizar seu talento musical para arrecadar brinquedos e doá-los às comunidades carentes. Como parte do plano, estava a ideia de darem vida a um dos personagens mais famosos da história: o Papai Noel.

Munidos de muita disposição e despidos de qualquer preconceito, este grupo de jovens criou a Sociedade do Rock e passou a organizar o Rock do Bem, que consiste em uma série de shows realizados no mês de dezembro que trocam o valor da portaria por brinquedos. Mas, espera aí... Papai Noel roqueiro?

“É isso mesmo! Nossa ideia era justamente levar alegria às crianças da periferia sem ter aquela preocupação em seguir o jeito certinho do Papai Noel, por isso criamos um Papai Noel do rock, cheio de atitude”, explica Rica Nogueira, um dos membros da Sociedade do Rock que incorporam o Bom Velhinho.

O projeto deu tão certo que está em sua sexta edição e tornou-se tradição na cidade. Atualmente, cerca de dez comunidades, entre bairros da periferia, assentamentos de sem-terras e aldeias, recebem a doação que soma, em média, 2 mil brinquedos. Segundo os integrantes do grupo, as crianças já esperam os Noéis roqueiros, que chegam montados em jipes, espalhando alegria e boas energias.

Apesar da aparência nada convencional para um Papai Noel, os membros da Sociedade do Rock se mostram tão sentimentais quanto o Bom Velhinho. Entre as memoráveis experiências vividas pelo grupo eles apontam o caso de uma senhora de cerca de 90 anos, que vivia em uma aldeia em Araribá.

“Era uma anciã. Eu estava fantasiado de Noel e ela pediu para falar comigo. Quando cheguei perto ela me abraçou tão forte e com tanto sentimento que comecei a chorar compulsivamente. Ela realmente acreditava que eu era o Papai Noel”, conta Márcio Lanzarini, um dos Noéis do rock.

“Nestas horas até o homem mais sério e duro do mundo se emociona. É de desmontar qualquer brutamontes”, completa Euler Silva, outro integrante do grupo.

Os brinquedos arrecadados este ano já foram entregues na data de ontem, porém quem quiser contribuir ainda dá tempo, basta entrar em contato pelo e-mail sociedadedorock@hotmail.com ou pelo site www.rockdobem.com.br.

Noel alegria

Isaias Manoel de Souza é funcionário público, trabalha no Instituto de Pesos e Medidas (Ipem) de Bauru há anos e vive em uma casa comum na Vila Paraíso. Além disso, mora com o filho, adora fazer um lanchinho no meio da tarde e sofre com o calor escaldante característico dos dias de verão.

Se considerarmos esta descrição, Isaias pode ser considerado um típico cidadão bauruense, que, assim como todo mundo, tem preocupações relacionadas à família e ao trabalho. Mas não é bem assim. Há cerca de seis anos, ele fez uma grande descoberta: dentro de seu coração e de sua alma mora o Papai Noel.

“Sou muito alegre e comunicativo e, por conta disso, sempre busquei dar vazão a este sentimento interpretando o palhaço Pingo D’Água. Porém, há cerca de seis anos, quando fui contratado por um amigo, descobri que dentro de mim mora o Papai Noel”, conta ele.

A transformação sempre acontece no mês de dezembro, quando o Noel Isaias faz sua primeira aparição na região central da cidade. O figurino, com direito a barba, bigode, bota preta e trajes vermelhos, funciona como uma poção mágica.

“Basta pegar a roupa do Noel na mão que meu coração dispara, fico emocionado. Conforme vou me vestindo, o Bom Velhinho vai aparecendo. Muda meu jeito de falar, de andar e até mesmo meu comportamento. É um sentimento que não tem explicação”, define ele, que chega a fazer, em média, oito entregas de presentes na noite de Natal.

Para mostrar que a transformação é real, Isaias vestiu o figurino e posou para fotos em uma praça em frente à sua casa. Tão logo saiu na rua, as crianças que estavam no local foram ao delírio. Em poucos minutos um coro clamando por um minuto da atenção do Noel havia se formado.

“Papai Noel! Papai Noel”, gritava, freneticamente, o pequeno Gabriel Peruzzo Camargo, de 1 ano e 6 meses, que não se conteve e correu abraçar o Bom Velhinho.

Já o seu vizinho, Caio Moraes de Camargo, de 4 anos, não acreditava em que seus olhos estavam vendo. “Meu Deus, não acredito que o Papai Noel veio aqui na praça”, admirava-se.

Com demonstrações como estas, fica fácil entender a paixão de Isaias pelo Bom Velhinho.

Semeador de sorrisos

A tarde da última terça-feira foi especial para os pacientes do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo (HRAC/USP), conhecido como Centrinho. Isto porque, para a surpresa e alegria de cerca de 250 crianças que estavam no local, o Papai Noel foi visitá-las, acompanhado de suas ajudantes e com vários sacos lotados de presentes.

Tão logo colocou os pés no ambulatório da entidade, o Bom Velhinho, interpretado pelo funcionário Nicodemo Borges de Morais, 47 anos, foi calorosamente recepcionado com muitos beijos e abraços e em instantes reuniu em seu entorno uma multidão de crianças.

Para o tímido Nicodemo, que vestiu a tradicional beca vermelha do Noel pela primeira vez, os sorrisos e os pedidos de foto foram o principal termômetro de que tudo estava correndo conforme o planejado.

Aliás, conseguir uma palavra do ilustre Papai Noel não foi missão das mais fáceis, mas como ele mesmo definiu, neste caso, palavras não são suficientes para traduzir olhares e sorrisos como os que ele viu.

“Eu fiquei extasiado, é uma sensação inexplicável. Foi a primeira vez que me vesti de Papai Noel e não tinha ideia de como é incrível sentir o carinho destas crianças”, descreve ele, que já adiantou que pretende repetir a experiência no próximo ano.

Acompanhando a movimentação estava Cleiton de Farias, 30 anos, também funcionário de Centrinho, que teve seu dia de Noel na penúltima quinta-feira, dia 9.

“Distribui os presentes para os pacientes internados e confesso que foi um dos dias mais emocionantes da minha vida. É neste momento que sentimos que é possível fazer a diferença na vida das pessoas e o quanto gestos de solidariedade e amor são importantes”, destacou.