09 de julho de 2026
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Parcerias

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

A agência de notícias Reuters tem uma longa tradição de seriedade e exação, de forma que estou tomando a liberdade de usar as informações que seus correspondentes Kevin Yao e Aileen Wang transmitiram de Pequim, para o jornal Valor Econômico desta quarta-feira, 17/11 sobre a escalada de preços de alimentos que está preocupando enormemente o governo chinês.

Há motivos para preocupação, pois a China é hoje o país que mais importa produtos agrícolas, cujos preços estão sendo alvo de movimentos especulativos no mercado financeiro internacional. Ela não tem autonomia alimentar e com o rápido aumento dos níveis de consumo devido ao crescimento da renda de sua população nos últimos 20 anos, a questão da importação para abastecer seu vasto mercado interno vem se revelando crítica, com repercussões políticas extremamente delicadas.

De acordo com o relato dos jornalistas da Reuters, a inflação dos preços ao consumidor atingiu em outubro o mais alto nível dos últimos 25 meses (4,4% de aumento, na comparação com o ano anterior). Os alimentos, que compõem aproximadamente um terço do índice de preços ao consumidor, tiveram alta de 10,1% no período, um pico de inflação que só se verificara no auge da crise financeira em 2007/2008.

Discute-se internamente as causas dessa aceleração recente e, como em toda a parte, florescem as divergências. As autoridades anunciam medidas para controle de preços de uma cesta de alimentos, com punição rigorosa para quem esconder estoques ou especular com milho ou algodão, matérias-primas essenciais dos óleos comestíveis, principalmente. O presidente do Banco Central, Zhou Xiaochuan, diz que vai manter a expansão monetária e do crédito “apropriada”, mas reclama que a pressão altista sobre os preços precisa ser “monitorada”.

A informação é que não houve este ano nenhuma seca ou epidemia importante em território chinês de modo a afetar a produção interna, o que parece dar razão ao porta-voz do Ministério do Comércio, Yao Jian que comentou, especificamente: “a pressão inflacionária importada contribuiu para o grande aumento dos preços de alimentos na China. Os preços dos grãos e óleos comestíveis nos mercados globais vêm aumentando perceptivelmente.” Ele acrescentou, como uma espécie de “aviso aos navegantes”, que “Pequim poderia descobrir qualquer afluência especulativa disfarçada de investimento direto estrangeiro”. Seja o que for, é uma fala que deve ser levada a sério, na medida em que se sabe que quando se fala em “punição rigorosa” naquele país é algo que tem a ver com o pescoço do traficante... 

A informação conclui que as autoridades têm alertado que políticas monetárias relaxadas nos países desenvolvidos e, em particular, a nova rodada de injeção de liquidez na economia americana poderão lançar ondas de dinheiro vivo rumo às fronteiras da China, agravando o seu problema inflacionário.

Se ocorrer a algum leitor se perguntar “o que é que tenho a ver com isso?”, é só lembrar que somos hoje importantes parceiros dos chineses no comércio de alimentos básicos. Acresce que para o Brasil será fundamental costurar parcerias para extrair conseqüências da continua desvalorização do dólar e seus efeitos sobre nossas exportações.

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA/USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Desenvolvimento. contatodelfimnetto@terra.com.br