O prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB) disse ontem, ao falar da primeira metade de seu mandato, que não governa sob pressão, não atende aos pedidos de ninguém para mudar secretários ou cargos de confiança e que sugestões, críticas e denúncias da imprensa, de organizações sociais ou da população envolvendo setores de seu governo são bem-vindas para que possa avaliar e tomar as atitudes cabíveis para cada caso. Para isso, afirmou que não há secretários intocáveis e que não aceita apego ao cargo, mas competência na condução da coisa pública. A despeito de comentários e avaliações sobre sua forma de governar, ele analisa que por ser transparente e falar com muita gente, as pessoas se sentem no direito de opinar sobre o que ele deve ou não fazer, mas a decisão é dele na busca constante do interesse público.
Segundo o prefeito, é óbvio que o interesse público tem sempre que prevalecer, assim como a competência e a transparência. Se atitudes e mudanças forem necessárias, elas serão efetuadas a qualquer tempo e em qualquer escalão e setor da administração, garante. Sinalizando para mudanças pontuais e para uma reforma administrativa, Rodrigo reforça que pressões e apego não manterão ninguém no cargo. Veja detalhes na entrevista.
Jornal da Cidade - De tempos em tempos aumentam as pressões pelo poder junto ao prefeito. Como você encara isso?
Rodrigo Agostinho - O que a gente tem que deixar muito claro é que pressões existem em todos os momentos, em qualquer tipo de profissão, de qualquer natureza. Claro que existem pressões políticas, econômicas, sociais, culturais. Agora, eu decido por conta daquilo que eu aprendi na minha trajetória política. Decido com as minhas convicções. Não é por qualquer tipo de pressão que a gente decide o rumo da cidade. Decido pelo interesse coletivo e pelo zelo com a coisa pública, que está acima de qualquer interesse menor, pessoal ou de grupos. Fui eleito para isso.
JC - Nem trocas no primeiro escalão?
Rodrigo - Sou bem tranqüilo ao tomar as decisões que eu tomo. Em todos os momentos da administração, toda vez que precisa mudar o rumo de alguma coisa, a gente muda. E não é por conta de pressão, mas porque a gente sente a necessidade de mudar. Toda a vez que a gente sente que alguma coisa não está indo bem, é o momento de dar uma chacoalhada, de mudar, de repensar. A transparência é essencial num processo de tomada de decisão.
JC - Eventuais inseguranças por parte do secretariado podem resultar nesse tipo de interpretação, de que você é vulnerável a pressões?
Rodrigo - Ninguém pode usar esse tipo de desculpa. O que acontece é que num governo todo mundo está em constante avaliação. Vamos chegar agora em dois anos de governo. Um momento que nós estamos preparando, inclusive, uma avaliação geral. A reunião de secretariado (realizada na semana passada) foi justamente para cobrar relatórios, planejamento, tudo o que a gente precisar fazer em termos de licitações, concurso, de desapropriações, de projetos, enfim. A partir do momento que alguma coisa não está funcionando, não tem porque continuar do jeito que está.
JC - Mas tem quem leve para o lado pessoal?
Rodrigo - Mas não é uma coisa pessoal. O cargo de secretário não é um cargo concursado, é de comissão para, justamente, a qualquer momento, o prefeito ter condições de fazer mudanças na hora que precisar. Ele não vai colocar em risco o governo. Se perceber que alguma política pública não está andando bem, que alguma situação apresentada não é transparente, tem que mudar.
JC - Então não tem problemas com mudanças?
Rodrigo - É assim que eu tenho agido. Toda vez que precisa fazer alguma mudança, eu faço. Não tenho problema nenhum, nenhuma insegurança em fazer qualquer mudança. Se algum integrante de cargo em comissão não se sentir confortável com isso, então não queira ocupar o cargo. Quem está trabalhando direito, cumprindo com seu papel, não tem porque se preocupar.
JC - O governante tem que saber ouvir?
Rodrigo - Eu me preparei para ser candidato e para que eu pudesse ser prefeito. Eu tive experiência política na Câmara, formei um grupo político e decido de acordo com aquilo que eu planejei, com a minha proposta de governo, com meu programa de governo, com as minhas próprias convicções e, sempre que possível, ouvindo as outras pessoas. É importante que o governante hoje saiba ouvir. Aquela história de prefeito tirano, ditador, que dá ordens, manda e desmanda, já era.
JC - Mas essa postura não provoca estranhamento e confusões?
Rodrigo - As pessoas ainda não se acostumaram com o novo jeito de governar. Esse modelo está sendo construído em todo o País. As políticas públicas são todas elas participativas. São discutidas em conferências. Hoje existe uma supervalorização de conselhos. Os governantes estão ali para administrar uma série de situações e, em muitos casos, também saber ouvir. Democracia se faz no dia a dia. Eu escuto todo mundo, escuto os dois lados, escuto a oposição também.
JC - Por conta de uma postura pessoal?
Rodrigo -Eu vim do terceiro setor, fiz parte de vários conselhos. Não existe mais aquela coisa do prefeito decidir tudo sozinho. É claro que eu tenho minhas convicções, aquilo que eu entendo o que é certo, que é errado. É com base nisso que eu decido. Na medida do possível, sempre ouvindo, discutindo e trabalhando em equipe. Muitas vezes as pessoas dizem que o Rodrigo gosta muito de centralizar. Não é centralizar. É uma questão de saber o que está acontecendo no meu governo. Quero saber o que está acontecendo em cada secretaria, quero indicadores de eficiência, se aquilo está sendo alcançado.
JC - Essa proposta de indicadores de eficiência você tratou na campanha e comentou até no dia da posse, mas deve melindrar.
Rodrigo - A questão não é se melindra. É que a gente precisa ter números para avaliar se estamos cumprindo com aquilo que a gente prometeu. Por exemplo, a educação acabou de tirar um número que para mim é muito importante. 800 crianças que estavam na fila para creche antes do meu governo já estão freqüentando creche por conta das 15 escolas de educação infantil integrada que nós entregamos até agora. Não estamos ainda alcançando aquela meta que gostaríamos mas, para mim, esse já é um número muito positivo. O que eu quero é ter esses indicadores e cada secretaria está produzindo. A gente precisa de indicadores para que a gente possa avaliar o governo.
JC - Chegamos ao segundo ano do mandato. Qual área do governo teve o melhor desempenho e qual aspecto mais o preocupa?
Rodrigo - A gente vai fazer no final do ano uma coletiva apara apresentar nossos resultados de dois anos. Fiz isso com seis meses, com um ano e agora com dois. Têm coisas indo muito bem, têm coisas que dependem de melhorar a estrutura interna da prefeitura. Pegamos a prefeitura com maquinário todo sucateado. Não havia máquinas novas. Então, está sendo feita a aquisição de maquinário de forma gradativa. Não temos dinheiro para trocar a frota inteira da prefeitura de uma vez. Mas a gente já está conseguido conduzir obras com estrutura própria.
JC - O maquinário foi a principal vulnerabilidade?
Rodrigo - Não, só para pinçarmos um ponto. Na questão de pessoal, de recursos humanos da prefeitura, tivemos a coragem de apresentar os planos de cargos e salários que foram aprovados. Agora estamos trabalhando numa segunda fase, que é a implementação deles. Do ponto de vista de infraestrutura, conseguimos dar uma resposta interessante para a cidade. Das três mil quadras de Bauru que não eram asfaltadas, mil a gente já contratou. Para um terço de toda a demanda reprimida da cidade já demos uma resposta. Estamos agora trabalhando outros pontos da infraestrutura. Na iluminação pública, já trocamos quase toda a cidade. Faltam 20% da cidade para trocarmos a iluminação. Na área da educação estamos com uma meta de entregar 30 escolas até o fim do governo. Só para citar alguns pontos. Do ponto de vista da saúde, não dá para termos uma resposta imediata, mas já estamos com três Unidades de Pronto Atendimento (Upas) em fase final de conclusão. São três pronto-socorros nos bairros, isso é promessa de campanha. A quarta acabou de ser contratada.
JC - E como fica a situação do DAE? O que diz Rafael Ribeiro?
Rodrigo - É a situação do DAE. Foi apresentada uma série de situações. Estamos analisando, discutindo, cobrei respostas dele.
JC - Foi erro?
Rodrigo - De maneira muito clara, o que existe é que faltou uma normatização. Não era muito claro, com exatidão, como devem ser classificadas as despesas do ponto de vista do tratamento de esgoto. E aí acabaram praticando alguns abusos. Determinei ao Rafael que pudesse corrigir isso e é o que acabou sendo feito. O dinheiro que foi utilizado para as indenizações do Fundo de Tratamento de Esgoto (FTE) foi estornado inteiramente do ponto de vista contábil. A mesma coisa agora com relação àquela viatura. Não estava sendo utilizada integralmente para as obras de tratamento de esgoto. Então, realmente houve um erro na classificação de despesa. Não houve desvio de dinheiro, ninguém se locupletou de dinheiro público. A única questão é que utilizaram o dinheiro da conta errada. Determinei providências e essas acabaram sendo tomadas.
JC - Em princípio ele permanece.
Rodrigo - O que acontece é que está todo mundo sendo avaliado. Todos os secretários vão passar, no final desse ano, por um processo de avaliação, inclusive o Rafael. A hora que eu precisar fazer mudanças, vou mudar sem problema algum. Já fizemos várias mudanças que quase custaram o apoio e até a saída de partidos da base de sustentação. Não tenho medo de fazer mudanças e nem as pessoas devem ter apego ao cargo.
JC - É difícil governar Bauru?
Rodrigo - Basicamente, o que é importante deixar claro é que estou governando a cidade com muita tranqüilidade. A cidade de Bauru é um grande desafio. Não é novidade, não posso dizer que não sabia, mas a prefeitura de Bauru é ainda é muito endividada, tem problemas sérios do ponto de vista de lentidão, de burocracia. Estamos trabalhando para conseguir vencer tudo isso. Todos os dias, problemas surgem. E eu, como prefeito, tenho que tomar decisões em nome da cidade..
JC - Você acha que por você ser jovem as pessoas acreditam que você seja mais vulnerável a pressões?
Rodrigo - Não. Já dei provas o suficiente que tenho capacidade para estar onde estou e que tenho maturidade para estar à frente de uma prefeitura. Procuro conhecer ao máximo a máquina que estou administrando, procuro conhecer na ponta os problemas de cada secretaria. Juventude para mim nunca foi problema, pelo contrário. Quero deixar claro. Sou uma pessoa muito aberta, extremamente transparente. Até aquilo que sei que vai ser usado contra mim, que é ponto negativo do governo, a gente expõe. Aliás quero saber de tudo sobre a cidade, sobre meu governo, pessoalmente, pelos relatórios, pessoas e pela imprensa. Toda informação sobre a cidade é importante para a administração. Por isso também nunca me nego a prestar qualquer tipo de informação, mesmo que a informação seja negativa. A cidade inteira tem meu celular, as pessoas sabem onde eu moro, sabem da minha rotina.
JC - Mas são muitos pedidos e palpites.
Rodrigo - As pessoas, as vezes se arvoram no direito de dizer o que eu devo ou não fazer. Mas para mim não é problema. A decisão final é minha, eu que tomo, sempre na busca do interesse público. A mesma coisa em relação aos secretários. Tem que saber que ele está lá para cumprir uma função pública, sempre pelo interesse da cidade, do interesse coletivo, não por uma questão pessoal ou apego ao cargo. Se não estiver funcionando não pode ficar.