08 de julho de 2026
Geral

Educação deve incentivar o pensar

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 4 min

Existe luz no final do túnel. Para alguns especialistas, a ordem se faz a partir do caos, a mola propulsora de um lento processo de reconstrução para a formação intelectual dos jovens brasileiros. Viviane Mosé, filósofa e psicóloga, não pensa diferente.

Conhecida nacionalmente pelo grande público através da participação no quadro “Ser ou Não Ser”, exibido entre 2005 e 2006 pelo Fantástico, da Rede Globo, a estudiosa, também psicanalista e escritora, falou com exclusividade ao JC sobre degradação e esperança na reestruturação de um sistema educacional capaz de gerar, mais do que diplomas, pensamento.

Palestrante em Bauru durante a Semana da Educação, a filósofa defende que a formação intelectual de crianças e jovens no Brasil está longe do modelo considerado ideal por ela há muito mais tempo do que se imagina.

Para Viviane, até mesmo a escola que formou aqueles que hoje estão preocupados com a educação dos netos já estava inserida no padrão atual, comparado por ela a uma linha de produção industrial.

O sistema educacional, avalia a filósofa, desde a metade do século passado, ou até alguns anos antes, já era voltado mais aos interesses do capital do que ao desenvolvimento intelectual e humano do indivíduo.

“A escola sempre esteve obsoleta”, sentencia. “A educação é ampla somente quando há formação em todos os sentidos, não apenas voltada ao mercado”, diferencia Viviane, especializada em Educação Contemporânea.

O sistema educacional brasileiro, observa a estudiosa, pouco antes da metade do século passado, primava pelo incentivo ao pensamento e formação humanizada, preparando o aluno em diferenciados aspectos, não apenas mediante assimilação em vista a uma prova específica, no caso, o atual vestibular.

Porém, por exigência da revolução industrial, atribui Viviane, a escola se viu obrigada a integrar um processo de produção de material humano em massa, para atender a demanda do mercado.

“Existia uma formação muito boa. Eram as grandes escolas públicas federais que formavam, com Literatura, Filosofia. O Ensino Médio era clássico. Quem se formava poderia trabalhar em qualquer emprego. Claro que não poderia ser um médico, mas, fora especialidades, as pessoas saíam com uma cultura geral muito grande”, detalha a pesquisadora.

Porém, nem tudo eram flores, pondera Viviane. “Era uma escola elitista, excludente, voltada para a liderança, que acreditava que apenas uma porção muito pequena da população poderia estar nesse lugar”, contrapõe.

Com a tardia industrialização brasileira, o País tratou de preparar as massas para atender a então nova demanda. “Para trabalhar nas máquinas é preciso ter um proletariado que sabe ler, escrever e contar”, relaciona. Assim, acentua a estudiosa, as próprias disciplinas segmentaram-se, numa espécie de linha de montagem.

“O grande mau da escola brasileira é ter perdido a noção do todo. Você não sabe o que é Português ou Matemática e que ligação têm com Geografia ou História. Há um currículo fragmentado”, opina a escritora, atribuindo o prolongamento e acentuação do atual modelo ao regime militar (1964-1985). “O único objetivo não é pensar e sim disciplinar. Por isso o conteúdo é chamado disciplina”, relaciona.

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Perspectiva

Mais que preparar o jovem para encarar o mercado, a escola, sob a ótica de Viviane, precisa preparar o aluno para a convivência em sociedade, de modo a conjugar ensinamento provido do professor mas também assimilação de conteúdo advindo da tecnologia, cada vez mais acessível.

“Vivemos o futuro, as novas mídias, a crise ambiental. Há uma instabilidade muito grande e muito positiva, inclusive, para que o processo seja repensado”, considera. “O mundo nunca parou de mudar. Mas, nesse momento, juntamos uma crise ambienta com as crises social, moral e tecnológica, sobre a rapidez com que os meios mudam”, reforça.

Para a estudiosa, é no caos em que está emergido o sistema de ensino brasileiro que podem surgir alternativas que contribuam para que a escola volte aos trilhos do educar para a vida, nem que essas vias apareçam por meios independentes.

“Em função da situação hoje ser tão ruim, há iniciativas pontuais que tentam, por conta própria, construir novas possibilidades”, destaca a escritora, citando estabelecimentos educacionais particulares que primam por linhas alternativas, fora do lugar comum encontrado no ensino público ou privado, que, de forma geral, segundo ela, segue a mesma “esteira”. “Também é uma linha de montagem”, taxa.