08 de julho de 2026
Geral

Projeto aplica conhecimento e cidadania

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 4 min

Extrapolar os limites das salas de aula e colocar em prática os conhecimentos em prol da comunidade. Essa é uma das premissas de um programa, encabeçado pelo Observatório de Educação em Direitos Humanos, vinculado ao câmpus de Bauru da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em parceria com a Secretaria Municipal da Educação.

A iniciativa, de acordo com o professor Clodoaldo Meneguelo Cardoso, coordenador do Observatório e assessor do Núcleo Municipal de Educação em Direitos Humanos, estabelecido mediante a parceria com a prefeitura, prima por incentivar atividades lúdicas com crianças e adolescentes da rede pública municipal, para incentivar o bom convívio entre as diferenças.

“Não é uma questão intelectual apenas”, defende o coordenador do Observatório. Segundo ele, a principal ideia da iniciativa é o incentivo a relações sociais mais humanizadas entre os adultos de amanhã, com maior respeito às diferenças, independentemente em quais quesitos são observadas. “Visamos a construção do respeito ao outro no espaço público”, acentua.

Um dos estabelecimentos de ensino que aplicam o conceito entre crianças e adolescentes em Bauru é a escola municipal “Santa Maria”, na Vila Cardia. Recentemente, recorda Alexandra Lot, coordenadora da escola, alunos e alunas adolescentes foram às ruas fotografar flagrantes de desigualdade e desrespeito às diferenças.

Uma das cenas capturadas pelos estudantes foi a de um jovem, com aproximadamente 25 anos, portador de deficiência mental, praticamente ignorado numa fila de supermercado. Ao invés de ter a preferência, o rapaz, lembra a estudante Rute Bueno Jabur, de 12 anos, o rapaz permaneceu na fila atrás de muitas pessoas e carrinhos de compras. “Ele deixou que eu tirasse a foto, disse para ele sobre o que era o trabalho”, detalha a jovem, empolgada com a iniciativa do projeto e da escola.

“Ela quis ir sozinha fazer as fotos”, comenta o publicitário Fernando Caldeira de Oliveira Jabur, pai da estudante. Para ele, o modelo de escola proposto pelo projeto, independentemente ao teor do trabalho alternativo, é ideal. O principal, opina o pai da estudante, é a aplicação no dia a dia dos conhecimentos incentivados na escola.

“É importante. Os alunos, assim, aprendem que o respeito não deve ser colocado em prática apenas na escola ou em casa. Ele é aplicado no dia a dia, sempre, em todos os lugares”, enaltece o publicitário. “O principal dever da escola é dar aos estudantes uma visão do mundo real. Acho que ela está no caminho certo”, considera o pai de aluna, que ressalva a necessidade da escola ter mais autonomia perante a estatutos governamentais.

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Respeito às diferenças deve ser

refletido antes da adolescência

Para a coordenadora na escola da Vila Cardia, Alexandra Lot, os programas refletem diretamente na postura dos alunos durante as aulas. “Muda o comportamento. Entre eles há mais respeito. Os alunos passam a entender e respeitar os limites de cada um”, enfatiza.

Mas o respeito às diferenças não começa necessariamente na adolescência. Desde pequenos, e na escola, alunos do ensino infantil também aprendem noções de civilidade que influenciam diretamente no desempenho pedagógico. “Respeitadas as singularidades das crianças, logicamente, passamos noções de respeito ao próximo, ao ambiente físico de cada um”, destaca Márcia Barravieira, diretora da escola municipal de educação infantil Venâncio Ramalho Guedes de Azevedo, no Aimorés, onde as crianças são educadas por meio de atividades lúdicas como teatro de fantoches e pintura.

Desafio

Juntar conceitos pedagógicos às noções de convívio social - algo que poderia evitar, por exemplo, a episódios como o conhecido por “rodeio das gordas” ocorrido há algumas semanas entre universitários em evento festivo da própria Unesp, em Araraquara – é um desafio para os educadores, considera a jornalista Celma Tavares, doutora em Direitos Humanos, palestrante sobre Educação e Direitos Humanos no Sesc, em Bauru, durante a Semana da Educação. “Em primeiro lugar, o próprio educador precisa se convencer da importância de se educar em direitos humanos. O segundo grande desafio é fazer todos acreditarem ser imprescindível defender seus direitos, sair da situação de apatia, descrença, desmotivação em toda a sociedade”, clama Celma, consultora do Unicef na área de educação.

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Professor não deve exercer

só papel de ‘dono do saber’

Viviane Mosé, psicanalista, filósofa e escritora especializada em Educação Contemporânea, atesta que, exceto iniciativas que fogem do trivial, a escola vive imersa numa crise de valores e necessita de um modelo em que os alunos ganhem asas para buscar aperfeiçoamento, com os professores ao lado, mas sem exercer papel autoritário de “dono do saber”.

“A escola tem que mudar radicalmente. Não adianta pegar esse modelo e colocar dinheiro. É preciso valorizar o trabalho do professor, entender que ele não é o vilão da história. A culpa é da instituição. Ela é um fracasso”, atribui. “O professor não é mais aquele que sabe tudo e ensina, mas aquele que se interessa por tudo e estimula o aluno ao aprendizado”, aponta, receitando a fórmula do ensino em tempos de informação, nem sempre proveitosa, por todos os lados. “O aluno pode aprender na Internet, mas ele (professor) tem que descobrir novos métodos de filtragem”, acredita.