‘Aprendi a celebrar a vida diariamente’
Palavras para descrever a entrevistada desta edição? Muitas vezes a vida traz surpresas desagradáveis que entristecem e que, para muitas pessoas, são difíceis de superar. Alguns não superam a perda de um filho, por exemplo. Já outros levantam a cabeça, olham para os lados, colocam um sorriso no rosto e seguem em frente iluminando os caminhos por onde passam. Sendo assim, superação, garra, força e alegria são as melhores palavras para adjetivar Laurita Fernandes Fassoni.
Neta de imigrantes e filha de uma Bauru onde se podia nadar nos rios e dormir com as janelas abertas, ela lembra da infância bonita que teve na chácara dos avós: “Ali eu nadei, brinquei, era um moleque e tive uma infância muito feliz”.
Professora doutora aposentada, seus dias são celebrados com bom humor, cuidados com a neta, animais e plantas e, é claro, com viagens. “Acredito que é através das pessoas que conhecemos verdadeiramente o lugar visitado, por isso gosto muito de conversar com as pessoas”, diz.
Amante do magistério, Laurita foi militante e presidente da Apeoesp durante anos. Ela também acredita que ensinar e transmitir conhecimento é um prazer inestimável e que a violência nas escolas é um reflexo da atual sociedade.
Bons e maus momentos vividos, família, amigos, a paixão pelos livros e artes também fazem parte da entrevista que ela concedeu ao Jornal da Cidade. Leia os principais trechos.
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Jornal da Cidade - Boas lembranças da infância?
Laurita Fernandes Fassoni - Nossa, tenho muita coisa para lembrar. Nasci em Bauru, meu pai também e meus avós estavam na primeira leva de imigrantes que vieram para cá. Eles se estabeleceram ao lado do ribeirão das Flores onde hoje é a Nações Unidas. Nadei muito naquele lugar, a Nações não era nem asfaltada. Viu? As poucos vou revelando a idade, não quis falar no perfil (risos), mas ela vai aparecendo. Meus avós se estabeleceram à margem do rio, como era comum no início das cidades por conta da água. Na chácara deles havia água mineral e eles engarrafavam e vendiam aquela água.
JC - Você chegou a trabalhar com eles?
Laurita - Era tudo artesanal e eu engarrafei muita água com eles. Meus avós vieram de Granada, na Espanha, e construíram a fonte para vender água em formato de castelo, como na região do Sul da Espanha. Mais tarde, o bairro onde moro ganhou o nome de Jardim Fonte do Castelo. Então, ali eu nadei, brinquei, era muito moleque e tive uma infância muito feliz. Lembro-me daquela água limpa e cristalina, cuja nascente ainda existe.
JC - Sempre gostou de leitura?
Laurita - Sempre, sempre, sempre. Meu pai foi um autodidata e estimulou muito a leitura nos filhos. Sempre quis ser professora de letras. Aí, a vida me levou para a militância no magistério.
JC - Como foi isso?
Laurita - Comecei a entender a dimensão política da minha função e o desprezo pela educação e me tornei uma militante. Minha história é de muitos anos como presidente da Apeoesp de Bauru. E quando eu vi que o Sindicato não dava mais conta dos problemas do magistério, eu fui fazer mestrado na área de Filosofia da Educação, escrevi uma tese sobre escola pública, uma das minhas grandes paixões. Lecionei por mais de 40 anos e, quando estava fora da militância, por questão de renovação - achei que era melhor sair por já ter feito a minha parte com muito amor -, voltei para os livros e fiz doutorado em Teoria Literária e Literatura Comparada. Nesse momento, também voltei para os livros, arte e poesia. Minha tese foi sobre Portinari, “Poemas e Telas”.
JC - Qual é o espaço que a arte tem em sua vida?
Laurita - Gosto de inúmeros pintores. Mas vou falar de um brasileiro que foi tema do meu doutorado, que é o Portinari. O que me levou para esse artista foi um episódio que aconteceu em uma das minhas aulas. Falando sobre as obras do pintor, um aluno me disse que tinha um livro com poesias dele. E eu não sabia que ele tinha sido poeta. Apaixonei-me pelos poemas dele, desisti do tema em que estava trabalhando e passei a me dedicar ao Portinari “Poemas e Telas”. O que me atraiu nele foi a busca pela justiça social. Tempos mais tarde, pude comprar reproduções da série de Dom Quixote com seus respectivos poemas de Carlos Drummond de Andrade. É uma das coisas que tenho e que mais gosto.
JC - Um sabor doce da profissão?
Laurita - Acho que você poder ensinar e transmitir alguma coisa a alguém é um prazer. A primeira vez que entrei em uma sala de aula eu estava no primeira ano da faculdade e tinha apenas 17 anos. Não tinha prática didática nenhuma. Quando dei minha primeira aula senti que tinha nascido. Eu era um peixe no mar e tinha nascido para aquilo. Vivi a profissão com paixão, meu filho seguiu meus passos e é professor universitário da PUC, fez mestrado e doutorado e também é um apaixonado pelo ensino. Já minha filha é veterinária e une as coisas que nós gostamos em casa, que são plantas e animais. Tenho muitos bichos e plantas e sou apaixonada por eles.
JC - E um sabor amargo?
Laurita - Todas as profissões têm. Acho que a falta de reconhecimento e o descaso das autoridades são os principais. Não vou dizer aqui da violência ou de coisas desse âmbito porque acredito que a escola está inserida em uma macroeconomia e faz parte dessa nossa realidade. As pessoas dizem que hoje os alunos não respeitam mais o professor, mas esses mesmos alunos também não respeitam os pais, avós... A violência, de modo especial por causa das drogas, faz parte da sociedade, infelizmente. E isso não é privilégio dos jovens, os adultos também estão violentos. Você encontra uma vaga de deficiente ou idoso e ela está ocupada. Hoje, a mãe não cuida mais dos filhos porque ela está inserida no mercado de trabalho, não é como antigamente. Acho que a escola pública de boa qualidade para a classe trabalhadora pode ser uma das soluções. A educação tem verba, mas há corrupção, desvio, falta estímulo... Outra coisa, o professor precisa ter competência e ser politicamente comprometido com a escola pública e ter a consciência de que precisa investir nele mesmo para dar conta dos resultados.
JC - Já aposentada, qual é o destino do seu tempo?
Laurita - Gosto muito de fazer atividades físicas, como ginástica e caminhada. Cuido muito dos meus animais e plantas, leio bastante e viajo. Ah, como eu viajo.
JC - Que bela forma de gozar a aposentadoria (risos)
Laurita - Sim (risos). Viajo muito mesmo. Conheço praticamente todas as Capitais do Brasil, além de outras cidades. Também conheço bem a Europa. Já estive na França, Itália, Espanha, Portugal, Alemanha... Depois da aposentadoria eu passei a viajar umas duas vezes ao ano. A Espanha e a Itália me fascinam, acho que por causa do sangue, minha mãe era italiana. Mas cada lugar tem sua beleza e peculiaridade. Paris, por exemplo, com seus museus e um de meus pintores prediletos, Monet.
JC - Viagens marcantes?
Laurita - Não posso nem contar, viu (risos). Na verdade, eu viajo muito com amigos e familiares e os passeios em grupo são sempre muito interessantes. Já fui para congressos em diversos países da Europa para apresentar trabalhos e cada viagem tem sua história. Não gosto muito de viajar com excursões. Normalmente, somos eu e minha filha ou filho e a gente vai parando e conversando com as pessoas. Acredito que é através das pessoas que conhecemos verdadeiramente o lugar. Essa coisa de parar um pouquinho em cada lugar para mim não funciona muito.
JC - O próximo destino já está marcado?
Laurita - Já está marcado. No começo de maio eu vou para o Leste da Europa: Viena, Berlim, Buldapeste... São cinco novos lugares que eu e uma amiga vamos conhecer. Depois ficaremos uma semana em Paris e mais uma semana em um lugar que resolveremos lá. A passagem dentro da Europa é muito barata, mas muito barata mesmo.
JC - Uma grande dificuldade vivida.
Laurita - Foram muitas. As pessoas dizem que sou muito alegre e bem humorada, mas não sabem que isso não é por falta de sofrer. Perdi um filho em um acidente de trânsito com 15 anos de idade. Meu filho mais velho. Isso foi muito marcante. Acho que não tem sofrimento maior que a perda de um filho. Mas eu tinha outros dois filhos, levantei-me e fui à luta. Embora tenham se passado quase 20 anos, ele ainda é presente no coração, na memória...
JC - De onde vem a força?
Laurita - Tenho muita fé, sou espiritualista e isso me fortaleceu muito. Também procurei dar força para muitas mães que vinham até mim com a mesma dor. Fora isso, a perda dos meus pais me chateou muito. Eles foram exemplo de integridade, honestidade, amor aos filhos, netos... Por isso a nota 10 é para eles mesmo, sem dúvida alguma.
JC - É possível também listar alegrias?
Laurita - Nossa, são muitas. Os filhos, família e amigos. Tenho muitos amigos. Todas as minhas viagens também são alegrias imensas. Para mim tudo é motivo de alegria. Já tive câncer por duas vezes e, assim que sarei, passei a mão em minha filha e chamei-a para celebrar a vida. Eu celebro a minha vida todos os dias. Aprendi a dar valor a ela. Não me preocupo com o futuro e com nada mais. Acho que o que me faz ser forte e continuar vivendo e convivendo é isso. Minha mãe dizia o seguinte ditado: “Não há mal que não termine e nem bem que não se acabe”.
JC - Então, o sofrimento trouxe uma nova visão?
Laurita - Desde a morte do meu filho eu passei a ver a vida com outros olhos e em uma outra dimensão. A espiritualidade também ajudou bastante. A gente tem que aproveitar a vida mesmo e tudo o que ela tem de bom. É assim que eu vivo. Outra coisa que me deixa muito feliz e que gostaria de dizer é que acordo bem todos os dias porque meus filhos nunca se envolveram com drogas. Isso para mim é uma grande alegria.
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Perfil
Nome: Laurita Fernandes Fassoni
Local de Nascimento: Bauru/SP
Signo: Gêmeos
Filhos: Pedro e Ana Tarcila
Hobby: Ler e viajar
Livro de cabeceira: Vidas Secas e obras Machado de Assis
Filme preferido: “Colcha de Retalhos”, por retratar a alma feminina
Estilo musical predileto: MPB e música clássica
Time: Corinthians
Para quem dá nota 10: Para meus pais
Para quem dá nota 0: À injustiça social e ao uso de drogas
E-mail: lfassoni@terra.com.br