08 de julho de 2026
Regional

Morte de menina divide moradores

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 4 min

Cafelândia - O cenário onde ocorreu a tragédia familiar é uma residência humilde do bairro Pena. Na parede, o número nove – que na verdade era um seis quebrado e que, por isso, estava virado de cabeça para baixo – poderia simbolizar exatamente como a vida da família estava revirada naquele momento. No local, uma irmã de Larissa, casada e que não mora mais em Cafelândia, saía aos prantos. Ela apenas se limitou a dizer: “Não tenho o que falar. A tragédia já aconteceu”.

Pela cidade, ouvia-se diversos “ele bateu até matar” e “foi apenas uma infelicidade”. Em meio a essas opiniões e julgamentos apressados diferentes, uma constatação era a de que a mãe de Larissa era bastante evangélica, fato que também era seguido com fidelidade pela filha. “Um dia, a garota apareceu em casa para rezar a palavra da bíblia para mim. Eu achei muito bonito que uma menina tão nova fosse religiosa assim”, afirma Maria Lúcia da Silva Fachetti, uma das vizinhas da família.

Em relação ao comportamento dos pais, eles foram descritos como pessoas discretas e que não tinham muito contato com os vizinhos. “Nunca ouvi briga ou fiquei sabendo que ele batia nela. Sabíamos que a mãe era muito religiosa e não gostava que ela namorasse”, relatou uma outra vizinha que não quis se identificar. Tal postura foi confirmada por diversos outros vizinhos.

Chocados estavam também os presentes no velório da garota. Algumas amigas que estudavam na mesma classe de Larissa e não quiseram se identificar afirmaram que a vítima era uma ótima pessoa. “Ficamos sabendo do ocorrido de manhã escola. Ela era muito boa. Hoje (ontem), a gente tinha combinado de tomar sorvete. Não acreditamos que isso ocorreu”, aponta.

Em relação ao garoto que estava com Larissa na praça e teria motivado a ira dos pais, ele não compareceu ao velório e as amigas disseram que o conhecem, porém, não queriam revelar seu nome. “Ele tem medo de que possa ser culpado de alguma coisa. Ele nos pediu que não fosse dito seu nome. Mas, podemos dizer que ele está arrasado. Não acredita também no que aconteceu”, conclui.

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‘Se me pedir em namoro, meu pai mata’

De setembro até o fim de outubro, Matheus Wilian de Souza, 14 anos, se encontrou escondido com Larissa de Lima. Ele foi o último relacionamento antes do suposto namoro que desencadeou as surras sofridas pela garota.

Durante este tempo de relacionamento, ele sempre soube do temperamento do pai da vítima. “Ela relatava que ele batia nela sempre. Por isso, ninguém de sua família podia saber que nós estávamos juntos”. Segundo ele, um dia, a avó de Larissa desconfiou que ela se encontrava com um garoto e, na ocasião, a garota teria contado que levou uma surra. “Uma vez eu até dei a ideia de pedir para namorar com ela, porém, ela disse que, se eu a pedisse em namoro, seu pai matava ela e eu juntos”, relembra.

Tal fato foi o que levou ao fim do relacionamento. Segundo Matheus, o “namoro” escondido dos dois terminou pois ele não queria mais ver ela sofrendo e apanhando por estarem se encontrando.

Ainda de acordo com o ex-namorado, a religião da mãe de Larissa, Márcia de Lima, era um grande entrave. “Eles são evangélicos. E parece que somente podem namorar alguém que seja da mesma igreja. Pelo que ela me contava, a mãe também é muito brava e também batia nela”, completa. Em relação especificamente a Larissa, Matheus disse que era uma ótima pessoa e que ficou chocado em saber sobre o ocorrido.

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Defesa do pai consegue relaxamento da prisão

No fim da tarde de ontem, o pai de Larissa, José Carlos de Lima, 38 anos, foi liberado da Cadeia Pública de Promissão. Apesar do advogado de defesa Luiz Poli Neto não ter confirmado o fato, a informação foi fornecida à reportagem pela própria unidade prisional.

Durante a tarde, o advogado havia adiantado que solicitaria o relaxamento do flagrante por que o pai da menina apresentava uma série de fatores que possibilitariam o fato. “Todo mundo sabe que ele é um homem trabalhador e correto. Ele é réu primário, tem emprego e ainda tem um endereço fixo na cidade. Estamos otimistas em relação ao relaxamento da prisão em flagrante dele”.

O advogado também ressaltou a outra linha de investigação da polícia e afirmou que “como foi achado o frasco que pode indicar envenenamento e até mesmo um suicídio, isso também deve ser levado em consideração”.

Em relação aos chutes na região da cabeça que a mãe alega terem sido desferidos pelo marido, o advogado ressalta que José Carlos negou veemente o fato. “Ele afirmou várias vezes para mim que não chutou a cabeça dela. Ele disse que deu uns chutes no traseiro da garota apenas”.

Como ficou detido durante todo o processo de socorro, o pai de Larissa somente ficou sabendo da morte da filha por meio do delegado Adilson Batanero horas depois do ocorrido . “Ele ficou em prantos. Teve que ser medicado com um calmante. Ficou praticamente em estado de choque também”, afirmou o delegado.