10 de julho de 2026
Geral

Garota vai para hospital psiquiátrico

Por Mariana Cerigatto | Com Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 4 min

Após muita gritaria e ameaças utilizando uma faca de cozinha, a adolescente de 13 anos, usuária de crack, encontrada na última terça-feira em um depósito de lixo da Unidade Básica de Saúde do Jardim Europa, em Bauru, foi encaminhada ontem para internação no Hospital Psiquiátrico Tereza Perlatti, em Jaú. Segundo apurou o JC, a garota aguardava transferência para o hospital após se recusar a retomar o tratamento no Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps/AD).

Foi necessária força física dos policiais para levar Fátima (nome fictício) de sua casa até o Pronto-Socorro (PS) Central, de onde ela foi encaminhada até Jaú. A garota se mostrou resistente à visita dos policiais da Base Leste que estiveram ontem pela manhã em sua residência, na Pousada da Esperança, para cumprir mandado judicial de internação expedido pelo juiz da Vara da Infância e Juventude, Ubirajara Maintinguer.

Segundo relatos dos policiais, a menina estava exaltada e agressiva. Fátima gritava, xingava e ameaçava-os de dentro da casa. Com uma faca, ela avisava que iria se ferir. Foi preciso conter a garota mediante força física.

Conforme frisa a vice-presidente do Conselho Tutelar de Bauru, Valdeleine Richelma Sivieiro Felix, o pedido para o hospital foi necessário para cumprir o que prevê o Estatuto da Criança e Adolescente (ECA).

“No hospital em Jaú ela será, primeiramente, medicada e passará por tratamento de desintoxicação. A menina precisa de cuidados médicos para ganhar peso, entre outras necessidades”, enfatizaram a conselheira Valdeleine e Valéria Moron Perri Gimenes, chefe do Caps/AD.

Conforme avaliação médica, a adolescente será transferida para a Associação Beneficente Casa Gênesis, em Araçatuba, onde já foi atendida. “Lá, ela será amparada por uma equipe multidisciplinar, participará de terapias em grupo, entre outras atividades de reinserção social”, informou Valéria.

A mãe da garota, que não quis revelar seu nome, lamentou a situação da filha, mas afirmou que tem expectativas de que ela melhore quando retornar às atividades terapêuticas.

“Ela ficou nervosa hoje (ontem) com a chegada dos policiais porque foi pega de surpresa, pois não queria ir para o hospital. Ela estava calma e, de repente, ficou agressiva com a presença deles”, alega. “No entanto, ela gostava de participar dos grupos de terapia de Araçatuba e não discorda de voltar ‘pra’ lá. O que assusta ela é o fato de ter que ir para um hospital”, comentou.

Histórico

Segundo a psicóloga Valéria Moron Perri Gimenes, chefe do Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps/AD), a adolescente foi encaminhada pela primeira vez ao Centro em dezembro de 2009. No mesmo mês, foi levada para a Associação Beneficente Casa Gênesis, em Araçatuba, para um tratamento que se prolongou por nove meses. No final de agosto deste ano, ela recebeu alta e voltou para a casa da mãe, mas retornou para as ruas apenas dois dias depois.

O novo pedido de internação, desta vez para o hospital Tereza Perlatti, foi concedido na última quarta-feira pelo juiz da Vara da Infância e Juventude, Ubirajara Maintinguer, após solicitação do Conselho Tutelar.

De acordo com o magistrado, que não acompanha de perto o caso de Fátima, um dos entraves que tornam a reabilitação ineficaz é a descontinuidade do tratamento quando os dependentes químicos retornam para a cidade.

Conforme publicado em matéria na edição de anteontem do JC, a menina pertencia a um grupo de adolescentes entre 11 e 16 anos que se situavam grande parte do dia pedindo esmolas em uma movimentada região da zona sul da cidade. Todos os adolescentes seriam usuários de crack e as “doações” que eles recebiam das pessoas nas ruas seriam destinadas ao sustento do vício.

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E agora?

E agora? É a questão que fica após Fátima (nome fictício), 13 anos, ser internada ontem, por ordem judicial, para tratar a dependência de crack. Final feliz? Talvez um alento para quem não vive o problema e, com tranquilidade, vai virar a página de jornal em alguns segundos. Para a menina e a família dela, o drama continua.

Longa e difícil, a jornada é compartilhada na casa de vários outros dependentes químicos que, mesmo depois de baixar a guarda nas poucas clínicas disponíveis para tratamento, convivem com o risco diário de recaídas. Certamente, seja qual for a idade, o crack lhes parece o único prazer possível, num mundo onde se prega prazer e felicidade a qualquer custo. E agora, José? Parece até que o poema de Carlos Drummond de Andrade foi escrito justamente para descrever o aparente e perigoso vazio desnudado durante o processo de abstinência. Mas para que essa multidão de pes-soas perceba que a festa não acabou, nem a luz se apagou, nem o povo sumiu, se faz ne-cessário não apenas esforço crescente e ininterrupto do poder público (com a oferta de tratamento e também de políticas públicas para todas as áreas e idades, além de justiça social), como também de cada família.

Ter tempo para filhos e companheiros, saber ouvi-los, compreendê-los e repreendê-los em muitos casos é um antídoto contra a droga mais avassaladora dos últimos tempos. Sem esforço e reflexões conjuntas o riso não vem, não vem a utopia e tudo se acaba.