Dentre os países que alcançaram um nível importante de desenvolvimento econômico, o Brasil certamente é o que tem a matriz ener-gética mais “limpa” do planeta terra: estamos produzindo 40% de energia renovável, enquanto o resto do mundo não utiliza mais do que 10% em seu consumo.
Talvez muitos brasileiros não se dêem conta da importância disso e, mais ainda, que continuamos investindo de maneira correta para ampliar a oferta de energia limpa que vai sustentar o crescimento nos próximos anos. O Brasil está superando as resistências infantis à utilização da energia hídrica e avança na substituição dos combustíveis campeões das emissões de dióxido de carbono, criando as condições para uma redução efetiva dos efeitos sobre o aquecimento global.
Isso nos deixa numa situação relativamente confortável nos debates sobre a proteção do meio ambiente, mas é apenas uma parte do problema. A humanidade se envolve em longas discussões de enorme complexidade que raramente levam ao consenso e que tendem a gerar nas mentes mais generosas e ingênuas a idéia de soluções simples, às vezes radicais e, geralmente, erradas.
Uma disposição mínima para avançar num entendimento, permitiria aos países explorar conjuntamente alguns caminhos, como por exemplo: 1.insistir em investimentos, em escala planetária, no desenvolvimento das tecnologias (na nova revolução industrial em curso) que permitam aumentar a produção de bens e serviços com menos liberação de CO2, na linha do que já acontece quando usamos o etanol em lugar da gasolina; 2.desenvolver mecanismos capazes de extrair da atmosfera e armazenar o dióxido de carbono; 3.selecionar os investimentos em pesquisas sérias para tentar conhecer melhor as demais causas e transmitir os ensinamentos de forma a obter a adesão das populações em escala global.
Pode-se dizer que, antes do advento da internet, uma coordenação dessa natureza seria impossível. Já não é. O que é necessário inicialmente, é mudar o viés de cinismo dos países mais desenvolvidos que se comportam (com poucas e honrosas exceções), anunciando a “vontade política” de enfrentar o problema do aquecimento global mas sempre evitando assumir compromissos antes de cumprirem prazos de carência que variam entre 25 e 50 anos!
A China exige mais 30 anos de desenvolvimento robusto, sem ter que aceitar metas de combater o “efeito estufa” (quer dizer, renunciar em grande parte à utilização da energia fóssil, carvão, em primeiro lugar) se isso puder resultar em redução dos níveis de crescimento necessário para absorver as tensões sociais derivadas da crescente urbanização que acompanha o progresso industrial.
Nos Estados Unidos houve avanços desde o final da “era Bush”, com os programas de Obama de incentivo à pesquisa de processos e à produção de combustíveis alternativos que reduzam a poluição, mas tudo lá anda um tanto emperrado, ainda em função dos embaraços deixados pela crise financeira e da fragilidade política do presidente.
O autor, professor Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento. contatodelfimnetto@terra.com.br