08 de julho de 2026
Geral

Aluno tem dificuldade para interpretar

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 3 min

Uma boa parte dos alunos que estão chegando à universidade não consegue contextualizar as informações do texto, não conseguem ler o que está nas entrelinhas. A razão disso, na opinião de Márcia Cristina Argenti, coordenadora do curso de pedagogia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, é o fato de eles estarem habituados a assimilar conteúdos e a procurar dentro de um texto onde está a resposta certa.

“Nós fazemos uma pergunta partindo do pressuposto que o aluno vai refletir, interpretar, e o que vemos é que eles tentam localizar no texto a resposta e reproduzir tal qual o autor colocou”, observa.

“Os alunos chegam à universidade acostumados a ler um texto e a responder um questionário. A proposta da faculdade é diferente. O aluno tem de ler um texto e dialogar suas ideias com as ideias do autor”, diz Thaís Cristina Rodrigues Tezani, vice-coordenadora do curso de pedagogia da Unesp.

Márcia diz que é possível ver com clareza as dificuldades enfrentadas pelos alunos das escolas públicas estaduais nos projetos que a Unesp desenvolve junto aos alunos do 4º ano do ensino fundamental, ou seja, no fim do Ciclo I da progressão. “Vemos, muitas vezes, que esses alunos não têm domínio da alfabetização, da leitura, da escrita, dos cálculos. Percebemos que o grande esforço do professor é dar conta do conteúdo do 4º ano. Não dá tempo de trabalhar as lacunas que ficaram do ano anterior. É uma bola de neve que só cresce. Quando me deparei com isso, eu me assustei”, relata.

Márcia conta que em um dos trabalhos propostos, os alunos não conseguiam diferenciar letra impressa maiúscula e minúscula. “Oferecemos caça-palavras, cruzadinhas, atividades que se faz brincando e eles ficaram travados. Sei que é uma visão pessimista, mas eu fico me perguntando: será que eles vão conseguir chegar ao ensino superior? O sistema vai conseguir corrigir essas dificuldades?”, comenta.

Para o professor José Rafael Mazzoni, da Universidade do Sagrado Coração (USC), que trabalha com a recepção dos alunos na universidade há mais de 15 anos, a progressão continuada é um sistema de ensino que não foi devidamente entendido.

Segundo ele, na falta de entendimento do construtivismo, implantaram o “destrutivismo” nas escolas. “Não é para o aluno fazer o que ele quer e o professor se acomodar. A progressão não é simplesmente promover o aluno, mas sim dar condições de progresso àqueles que têm ritmos e níveis diferentes de aprendizagem”, diz.

Na opinião de Mazzoni, não é a progressão que está errada, mas o sistema que não favorece, que não motiva o aluno. “Escola virou ponto de encontro na falta de um lazer. Não é mais um ponto de aprendizagem”, observa.

Mazzoni fez sua dissertação de mestrado com base em estudos do Ciclo I da progressão continuada. Uma de suas conclusões é que a formação deficitária dos alunos de hoje não está apenas na progressão, mas vem de longa data e, até hoje, não foi resolvido.

Para isso, na avaliação dele, é preciso uma reforma séria, que comece pela base. “Um professor bem preparado vai entusiasmar seus alunos, mas se ele chega desmotivado, sem uma base sólida, chega na sala de aula e manda o aluno copiar um texto que já está impresso ou manda os alunos lerem trecho do que está escrito nos livros. Não dá, né? Qualquer aluno vai resistir a isso”, afirma.