09 de julho de 2026
Cultura

Arte de reger a vida

Karla Beraldo
| Tempo de leitura: 4 min

“Sem dúvida alguma, a música consegue transformar a vida de uma pessoa.” Foi por acreditar nisso que hoje o maestro João Carlos Martins não apenas é um exemplo de superação como ainda, desde que foi obrigado a afastar-se do piano, realiza um projeto de inclusão social por meio da formação musical de jovens. Depois de quase seis anos de trabalho, o resultado é a Orquestra Filarmônica Bachiana Sesi-SP, que se apresenta hoje em Bauru. O concerto será às 15h, na Paróquia Universitária - Santuário do Sagrado Coração de Jesus. A entrada é um quilo de alimento.

Fruto da fusão entre a Bachiana Jovem e a Bachiana Filarmônica formadas pelo maestro, a orquestra é, para Martins, a prova viva do poder de transformação da música. “Durante cinco anos, as orquestras sobreviveram muito na base de um ideal meu e dos próprios músicos. No ano passado, o Sesi as adotou e, hoje, os jovens que começaram comigo podem estar em qualquer orquestra de qualquer lugar”, fala com orgulho, em entrevista ao JC Cultura, por telefone.

“A música não ajuda, simplesmente, a formar um músico, mas um cidadão, porque é um vida em conjunto, é uma vida em harmonia, é uma vida em amor a uma causa; é assim que eu conscientizo a orquestra”, completa.

Segundo Martins, à excelência musical que sempre perseguiu na sua carreira como pianista - ele foi considerado um dos melhores que o Brasil já teve pela crítica nacional e internacional - foi adicionado o dever de popularização da música clássica, enquanto regente. “Quando aos 63 anos, por obra do destino, eu tive que me transformar em maestro, procurei assumir uma responsabilidade social”, resume.

Embora confiante em relação ao futuro da música clássica no país, o maestro lamenta a inexistência de mais iniciativas como a dele. “Se todos os artistas clássicos de ponta fizessem o que o Arthur Pereira Lima faz e eu faço, de levar música a todos os segmentos da sociedade, a música clássica estaria em outro patamar no Brasil, mas vai chegar lá”, acredita o músico que chegou a ser o assunto mais comentado no Twitter, após depoimento e apresentação que finalizaram a novela de Manoel Carlos, “Viver a Vida”.

Entre os 9 e 14 anos, Martins acumulava 50 apresentações em auditórios. Aos 26 anos, quando já fazia sucesso em Nova York, caiu em jogo de futebol no Central Park e teve o braço direito perfurado. Para não abandonar a carreira, adotou uma dedeira de aço e passou a encerrar as apresentações com a mão sangrando. Anos depois, na Bulgária, foi assaltado quando saía de um ensaio, sofreu uma agressão na cabeça com uma barra de ferro e teve os movimentos da mão severamente afetados. Também sofreu por problemas genéticos e Lesão por Esforço Repetitivo (LER). Ao todo, passou por nove cirurgias nas duas mãos.

“Uma pessoa que perdeu a perna, que ficou tetraplégica ou perdeu a visão tem um problema muito maior que o meu. Mas, com a exposição na mídia, meu exemplo acabou servindo para milhares de pessoas. Assim, minha responsabilidade aumenta como cidadão. Eu procurei transformar cada adversidade da minha vida em uma plataforma para crescer, então, sempre que me apresento procuro passar uma mensagem forte, mostrando que não podemos perder a esperança no futuro”, incentiva.

Concerto

A última passagem de João Carlos Martins em Bauru foi em 2006, durante um concerto no Teatro Municipal “Celina Lourdes Alves Neves”. Mas a vinda à cidade da qual o maestro recorda mesmo com saudade é a primeira, há cerca de 55 anos, época em que Martins era apenas um adolescente. “Lembro de como as moças eram bonitas”, brinca sobre a recordação do concerto, realizado no Colégio São José.

Na tarde de hoje, o programa trazido pelo regente inclui peças de Mozart e Beethoven, além de uma apresentação ao piano - Martins ainda toca com três dedos da mão esquerda. “Eu vou reger a primeira parte do concerto e depois passarei o comando para o regente Serguei Eleazar de Carvalho”, adianta.

Serguei é filho daquele que Martins considera o maior regente da história do Brasil: Eleazar de Carvalho.

Outro destaque da apresentação será o tenor Jean William, que estreou oficialmente em São Paulo há menos de duas semanas. “Ele é um dos maiores diamantes que eu encontrei nesses últimos anos”, afirma.

•Serviço

Orquestra Filarmônica Bachiana Sesi-SP apresenta-se hoje, às 15h, na Paróquia Universitária (rua Benedito Moreira Pinto, quadra 7, Jardim Panorama). A entrada é um quilo de alimento não-perecível. Mais informações pelo telefone (14) 3223-2718.