Quando surgiram, as sacolas plásticas eram motivo de orgulho das redes de supermercados e representante de praticidade entre as donas-de-casa. Hoje, passaram de símbolo da modernidade a vilãs do meio ambiente, pois poluem, e muito. Por este motivo, a Associação Paulista de Supermercados (Apas) deu início a um movimento que deverá chegar a Bauru em fevereiro do ano que vem para reduzir o consumo de sacos plásticos na cidade, estimado em 20 milhões de unidades por mês.
Trata-se de uma iniciativa que foi implantada no final de agosto na cidade de Jundiaí, onde um acordo entre vários setores fez com que o uso de sacolas plásticas tradicionais fosse abolido nos supermercados. Em substituição a elas, foram disponibilizadas caixas de papelão, sacolas retornáveis (ao custo de R$ 1,85) e biodegradáveis (vendidas a R$ 0,19, cada) para empacotar as compras.
Por enquanto, a medida vem sendo considerada bem sucedida nas redes supermercadistas, mas o diretor regional da Apas em Bauru, Erlon Godoy Ortega, esclarece que a intenção é que todos os estabelecimentos comerciais tenham condições de aderir ao projeto, que começará a ser discutido por aqui a partir de fevereiro. Com a retirada de circulação das sacolas convencionais, a ideia é que os consumidores sejam levados a adotar algum método alternativo que agrida menos o meio ambiente.
“Outras cidades do Estado, como Descalvado, também já estão implantando o projeto, que é uma tendência mundial que começa a tomar conta do Brasil. Não existe lei para que ele seja adotado, é um acordo amigável que precisa ser firmado amplamente para que possa ter efeito. Precisamos da mobilização de todos e acho que Bauru tem um campo propício, porque o prefeito é um ambientalista”, explica, acrescentando que, em Bauru, serão chamados a debater a ideia, além da prefeitura, órgãos como a Associação Comercial e Industrial de Bauru (Acib), Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), Sindicato do Comércio Varejista (SinComércio) de Bauru e Ministério Público.
Disposição
Consultado pela reportagem, o prefeito Rodrigo Agostinho se mostrou disposto a abraçar a proposta na cidade e destacou a importância de que a proposta seja implantada de maneira consensual. “Eu andei estudando muito esse assunto, que ainda é polêmico. Se for imposto por meio de lei, esbarraria em impedimentos de Justiça e não teríamos um bom resultado. Mas acho que é possível, sim, a prefeitura atuar como intermediadora dessa iniciativa, se ela ocorrer através de um acordo”, pontua.
Rodrigo aponta, no entanto, que os consumidores poderão oferecer resistência em aceitar a mudança, já que, além de servir para carregar as compras, os sacos plásticos são usados para acondicionar o lixo doméstico. “A população não compra saco de lixo. A sacolinha, tradicionalmente, já tem essa função e, se ela deixar de ser distribuída nos supermercados, fatalmente o consumidor vai ter de pôr a mão no bolso”, considera.
Seja para comprar as sacolas retornáveis - que já são vendidas em muitos supermercados da cidade, ou pagar pelos modelos biodegradáveis - que ainda possuem alto custo para ser distribuídos gratuitamente, o certo é que a população também terá de se comprometer minimamente com a causa para que o projeto possa dar certo. Mas, pelo menos durante uma fase de transição, Ortega comenta que o plano é manter o uso das chamadas sacolas oxibiodegradáveis.
São modelos que recebem em sua composição um aditivo que, em contato com o calor, faz com que o plástico seja reintegrado ao meio ambiente no período médio de um ano, enquanto uma sacola comum pode demorar até 500 anos para se decompor. “Elas causam menor impacto na natureza, mas não são uma solução definitiva”, frisa Ortega.
Pela força da lei
Guerras políticas internas dentro da Câmara Municipal de São Paulo adiaram, mais uma vez, na semana passada, a votação do projeto de lei que estabelecia um cronograma para a substituição das sacolas plásticas no comércio paulistano até 2014.
No Rio de Janeiro, uma lei estadual que começou a vigorar em julho deste ano obrigou os estabelecimentos a oferecer desconto de R$ 0,03 a cada cinco itens comprados aos consumidores que não usarem sacolas plásticas.
Empresas de pequeno a grande porte terão até três anos para se aderir à regra, a partir de quando estarão sujeitos a multa de R$ 201,83 a R$ 20.183,00.
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Maioria dos consumidores resiste
Embora as iniciativas das redes supermercadistas sejam muitas, os consumidores ainda resistem em aderir aos métodos alternativos para levar as compras para casa. A reportagem visitou uma das lojas de uma grande rede supermercadista da cidade, instalada na zona sul, e pode constatar que o uso de sacolas retornáveis ou de caixas de papelão ainda é pouco difundido.
Em pouco mais de meia hora de observação, entre centenas de pessoas que circulavam pelos corredores e caixas do estabelecimento, apenas duas carregavam sacolas de TNT. Uma delas é a tradutora Cátia Segre Diniz de Oliveira, 30 anos, que adotou a prática há menos de um ano.
“Ganhei a primeira sacola em uma promoção de supermercado e comecei a usar. Hoje, tenho quatro e sempre deixo dentro do carro para quando eu precisar. Quando a compra é maior e falta espaço, também uso caixas de papelão”, conta ela, que confessa ainda esquecer as sacolas em casa, de vez em quando. “Só então eu uso as sacolinhas de plástico do supermercado, que depois eu uso como saco de lixo”, pontua ela, que diz ser membro de uma família em que todos aderiram ao uso da sacola retornável.
Já a cabeleireira Débora Renata Ramos da Silva Bastos, 39 anos, revela que ainda não conseguiu incluir a prática em seu cotidiano. Para ela, o principal entrave é a praticidade das sacolas feitas em bioplástico, capazes de acondicionar todo tipo de produto sem demandar nenhum tipo de manutenção depois do uso.
“É só pegar o saquinho e jogar no lixo. É muito mais cômodo. Ainda acho que as sacolas de tecido ainda são desvantajosas para quem tem o dia a dia corrido como eu. Outro problema é que eu costumo fazer compras grandes e não caberia tudo dentro de uma ou duas sacolas. Eu teria que ter um monte”, pondera
Lojas possuem iniciativas próprias
Enquanto Bauru não encampa um projeto amplo para extinguir as famosas sacolinhas plásticas, vários supermercados da cidade já estão adotando, por iniciativa própria, medidas para reduzir sua circulação e seu impacto na natureza. Um deles é a rede Confiança, que, em novembro de 2008, passou a comercializar em suas seis lojas sacolas retornáveis fabricadas em TNT. No ano passado, a empresa adotou o uso de modelos oxibiodegradáveis, abolindo completamente as sacolas convencionais.
Junto com os produtos ambientalmernte responsáveis para acondicionar mercadorias, o supermercado também lançou uma campanha interna de conscientização para os funcionários. “Buscamos esclarecer sobre a necessidade de preservação do meio ambiente e o impacto causado pelo acúmulo de plástico na natureza”, explica a coordenadora de projetos sociais da rede supermercadista, Rosana Fernandes.
No Supermercado Santo Antônio, o proprietário, Émerson Svizzero, diz que as sacolas plásticas oxibiodegradáveis devem começar a ser utilizadas em breve para substituir as atuais. Segundo ele, a implantação desse projeto está em fase adiantada e as sacolas serão substituídas sem repasse de custos aos clientes.
O supermercado, no entanto, já vem adotando outras estratégias para estimular o consumo ambientalmente correto por parte dos consumidores. “Nós vendemos sacolas de pano do supermercado por R$ 2,99. Elas são muito resistentes, duram bastante e suportam até 20 quilos. O objetivo é que cada vez mais pessoas utilizem esse tipo de material para levar suas compras para casa. Nos folhetos distribuídos com as ofertas do supermercado, sempre colocamos frases incentivando as pessoas a utilizar sacolas retornáveis para ajudar a preservar o meio ambiente”, observa Svizzero.
No final de 2008, a rede Walmart, que mantém uma loja em Bauru, lançou um programa inédito no varejo brasileiro, que dá ao cliente o crédito por sacola plástica não utilizada. Segundo explica a assessoria de imprensa da empresa, o valor de custo da sacola (R$ 0,03) volta em crédito no cupom fiscal do cliente que deixar de usá-la e optar por métodos alternativos.
Além disso, a rede incentiva o uso de sacola retornável, oferecendo modelos a R$2,50, feitos em algodão cru e com capacidade para suportar até 35 quilos. Com ambas as iniciativas, a rede estima ter retirado do meio ambiente, só em 2009, 138,9 milhões de unidades.
Por meio do departamento de marketing, o supermercado Tauste informa que todas as lojas da rede dispõem de sacolas retornáveis para comercialização como forma de incentivar a redução do uso de sacolas plásticas pelos clientes. Conforme apurou o JC, um supermercado atacadista da cidade aboliu o uso das sacolinhas e outro cobra taxa por seu uso. Como as sacolas biodegradáveis são, em média, cinco vezes mais caras do que os modelos utilizados normalmente, nenhum estabelecimento da cidade já as utiliza.