Enquanto traficantes e policiais se confrontam na periferia do Rio de Janeiro, em Bauru o combate à criminalidade investe no diálogo e na ocupação pacífica junto aos moradores de áreas carentes, como na vila São Manoel. A ocupação, que segue moldes da chamada “Operação Saturação por Tropas Especiais” (OSTE), começou ontem na favela da área noroeste da cidade.
Aproximadamente 334 policiais militares, 50 servidores de cinco secretarias municipais, autoridades e outras entidades estarão no local até dia 2 de dezembro para fazer policiamento preventivo, conversar com a população e promover atividades recreativas, de prevenção de saúde, atendimento jurídico, entre outras. A população aprova a medida, mas pede que seja contínua.
A iniciativa, que tem atividades diversificadas, gratuitas e que agrada a qualquer faixa etária, opera no sentido de garantir a promoção de uma ação de paz e não de confronto. A ação segue os mesmo objetivos da Oste praticada pela Polícia Militar (PM) em capitais, como São Paulo.
Estreitar laços de relacionamento também é uma das intenções. “Através do contato com o poder público, estabelecemos laços mais estreitos com a comunidade, que tem sua cidadania de volta”, indica o comandante do 4º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4º BPM/I), tenente-coronel Nelson Garcia Filho.
Se sentindo um pouco acuados, pouquíssimos dos aproximadamente 3 mil moradores, distribuídos em 200 barracos da comunidade São Manoel, observavam na manhã de ontem a chegada dos policiais. Logo às 6h, equipes do 4º Batalhão da PM e atiradores do Tiro de Guerra de Bauru chegavam ao local para montar barracas e toda estrutura necessária para a ocupação.
Uma viatura móvel do Sistema de Comando em Operação de Emergência (Sicoe), uma espécie de carreta-baú, além de 15 viaturas da polícia estão em pontos estratégicos para garantir a segurança e fazer abordagens policiais, que também é uma das medidas adotadas pela operação.
Continuidade
A população, apesar de se mostrar pouco entrosada com a ação no início, aprovou o evento, mas deseja que ele seja contínuo. “Nós aprovamos a ocupação e estamos muito interessados em participar das atividades”, comenta a moradora Patrícia Rodrigues Santana, 24 anos. “Mas logo, logo, eles esquecem da gente. Não pode ser algo isolado. Tem que ter continuidade, manter o diálogo com a comunidade, sempre. Somos esquecidos”, lamenta.
Os moradores que conversaram com a reportagem frisam que sofrem diariamente com o descaso de anos, em que promessas e “repromessas” foram feitas e desfeitas. “A gente sofre com falta de água encanada, por exemplo. Tem casas aqui que não tem água limpa, nem energia elétrica. O esgoto transborda ‘pra’ dentro das casas e quando chove a água entra também”, relata Maria Luzia Coutinho Cardoso, 32 anos.
Em sua casa, um “lamaçal” misturado com esgoto, sujeira e barro toma conta de seu pequeno espaço. A estrutura dos barracos de madeira, cada vez mais fragilizados, deixa os moradores em estado de alerta.
“A gente nunca sabe quando pode chover muito e desmoronar tudo por aqui. Passamos momentos difíceis”, comenta outro morador, Aparecido Medradi de Carvalho, 52 anos, morador há 18 anos da vila São Manoel - como os habitantes de lá gostam de chamar o local.
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‘Aqui tem muita gente trabalhadora e boa’, afirma moradora adolescente
Vítimas do sistema social? A indagação pode gerar muitas respostas polêmicas, mas é fato que um dos motivos que alimentam o preconceito e contribuem para marginalizar ainda mais aqueles que se encontram excluídos do bem-estar social é a forte criminalidade que ronda as comunidades mais carentes.
“Isso acaba gerando uma mentalidade errada nas outras pessoas que não convivem aqui, que pré-julgam e acham que por aqui só tem gente ruim. Não é verdade. Aqui tem gente trabalhadora, boa”, ressalta a moradora Ariadne Onório Gomes, 17 anos.
O capitão Flávio Jun Kitazume, coordenador operacional do 4º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4º BPM/I), ressalta que o tráfico de drogas precisa ser combatido na região, mas reconhece as razões que levam as pessoas recorrerem ao tráfico de drogas e a se submeterem a uma vida marginal.
“Por que existe o tráfico? Essas pessoas não são ruins por natureza e nem optam por essa vida à toa. Vários fatores as levam a entrar na criminalidade”, explica. “São pessoas que sofrem com preconceito e exclusão de toda a sociedade e também com o descaso do governo”, aponta.
“Imagine: há pessoas recém- graduadas, com diplomas de cursos superior na mão, e mesmo assim, não conseguem arrumar um bom emprego. Então, olhe para a situação dessas pessoas, que não conseguem às vezes nem terminar o ensino fundamental”, enfatiza Kitazume.
E a situação se agrava para os indivíduos que se envolvem com delitos. “Esses, com passagens criminais, têm mais dificuldade ainda de serem aceitos no mercado de trabalho. Assim, o tráfico de drogas passa ser bastante atrativo”, frisa.
Segundo o comandante da Base Noroeste, tenente Samuel Gomes Pereira, mais da metade das ocorrências que chegam na Base Noroeste, que atende a região da comunidade São Manoel, são relacionadas a tráfico de drogas.
“Com a ocupação, limpamos e iluminamos certos locais que serviam de ponto de venda e consumo de entorpecentes. Essa ação já garantiu que reduzisse em 70% o número de ocorrências desse tipo nessa localidade”, informou.
O tenente reforça ainda que a operação servirá para promover diálogo mais permanente entre comunidade e polícia, além de afastar traficantes, devolvendo a paz à comunidade.
“O tráfico gera outros crimes. Neste ano, tivemos um homicídio na comunidade porque um traficante queria esconder sua droga no quintal de um morador, que recusou. No dia seguinte, ele estava morto. É comum que as pessoas sintam medo em denunciar, mas para combater a violência, a polícia precisa da ajuda da comunidade”, concluiu.
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Preconceito
Além de conviver em um ambiente vitimado pela criminalidade, uma moradora da comunidade chama a atenção para o preconceito gerado na sociedade em relação à população que habita as periferias, que reforça a situação de exclusão.
“Existe preconceito pelas famílias que moram aqui. Cria-se uma imagem de discriminação lá fora, uma situação em que somos tratados de forma preconceituosa”, reclama Ariadne Onório Gomes, 17 anos.
Apesar dos inúmeros problemas sociais, ambientais, de saúde, entre outros que permeiam a vida dessas 3 mil pessoas, entre crianças, jovens, adultos e idosos, a população se alegra com a iniciativa iniciada ontem.
Só de constatar que as vias que contornam a vila foram limpas e abertas para a passagem de veículos e pedestres, a comunidade já comemora uma conquista. “Eles vieram aqui dias antes da ocupação limpar as ruas, limpar um pouco do matagal. Só de fazer isso já estamos muito gratos. Mas não podem fazer isso, ir embora e esquecer da gente”, diz outro morador.
Porém, Aparecido Medradi de Carvalho, 52 anos, que mora em uma das residências da favela São Manoel, indicou a necessidade de fazer obras que retenham a água da chuva, como as “bocas de lobo”.
“Passaram por aqui, abriram as ruas e facilitaram a entrada de veículos, porque antes nem ambulância passava. Mas não fizeram bocas de lobo para conter a água da chuva. Nós tememos que, como as moradias estão submetidas a um terreno declinado, que toda essa terra vá parar dentro das casas”, mencionou.