08 de julho de 2026
Geral

Cidade acorda com ruas irreconhecíveis

Mariana Cerigatto
| Tempo de leitura: 5 min

Os estragos causados anteontem pela força da água deixaram um dos principais cartões postais de Bauru irreconhecível, além de pontos em diferentes bairros. Quem passou pelas quadras 6, 7, 8, 9 e 10, da avenida Nações Unidas, além de outros trechos, encontrou a pista interditada e em obras iniciais de recuperação. O local parece um cenário de guerra: o asfalto ficou em pedaços, crateras foram abertas, placas de sinalização ficaram danificas e jardins e canteiros foram destruídos.

A avenida foi a que mais sofreu com a força da enxurrada do início da noite de terça-feira. Somente em sua extensão o Corpo de Bombeiros registrou 15 casos, onde as viaturas da corporação ficaram concentradas no atendimento de ocorrências. De acordo com a meteorologista Rita Cerqueira Lopes, do Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet/Unesp) de Bauru, a precipitação registrada anteontem, que iniciou por volta das 18h40 e durou quase uma hora, chegou a atingir um volume de 27,9 milímetros, índice que caracteriza chuva forte.

Outros bairros da zona sul e da área central foram vitimados. Dezenas de pessoas tiveram perdas materiais, como os carros que foram arrastados pela correnteza. O transtorno era visível entre comerciantes e em órgãos públicos. Um grupo de representantes de seguradoras de veículos se reuniu para tomar a iniciativa de agilizar a liberação de indenizações por perda total, sobretudo em relação a carros atingidos pelo temporal na Nações Unidas.

“Decidimos dispensar a avaliação de carros que foram alagados até a metade e, automaticamente, estamos considerando que houve perda total. Com isso, nossa intenção é minimizar o sofrimento desses proprietários”, afirma Primo Mangialardo, dono de uma empresa de seguros da cidade. Segundo ele, somente ontem, o seguro de 30 carros haviam sido acionados em Bauru por conta do temporal.

Ontem pela manhã, caminhões e tratores faziam os primeiros reparos na avenida e policiais de trânsito monitoravam a passagem de veículos. Mas a orientação não seguiu durante boa parte da tarde, o que gerou reclamação de moradores.

Prejuízos

Comerciantes começaram a limpar seus estabelecimentos e a contabilizar os prejuízos. Em uma concessionária de veículos da quadra 9 da Nações, a diretora Adriana Ferrara Munchenbach ajudava, ainda ontem, a retirar parte da água ainda acumulada no interior da loja. “A água não entrou para dentro dos veículos que ficam expostos na loja por pura sorte, já que a água não chegou a subir mais”, comentou.

De acordo com a comerciante, a água que invadiu o estabelecimento chegou a atingir uma altura de 30 centímetros. O prejuízo da loja foi de aproximadamente R$ 20 mil. “Nunca havia passado por um prejuízo dessa magnitude por causa da chuva. Foram queimados quatro computadores, nossa instalação elétrica foi prejudicada, piso de madeira e material publicitário foram perdidos, entre outros equipamentos e objetos”, disse.

O movimento de clientes foi prejudicado por causa da interdição das pistas e do alagamento parcial na loja. “Vamos ainda ter perdas por deixar de vender em função desse incidente”, alegou.

Adriana analisa, do ponto de vista comercial, que a avenida acaba se tornando um ponto preocupante e de risco em épocas de chuvas. “As medidas têm de ser tomadas de forma rápida, é preciso fazer obras de escoamento de água. Com a aproximação do verão, deveríamos ficar animados com as vendas, mas ficamos, na verdade, assustados, se perguntando o que poderá acontecer quando a próxima chuva vier”, frisou.

____________________

Perda total

Vários motoristas que foram surpreendidos com a chuva anteontem perderam seus veículos, que foram arrastados, caíram em buracos ou foram totalmente cobertos pela correnteza. Um homem de 68 anos relatou à Policia Militar (PM) que tentou sair correndo para salvar seu VW Gol que estava sendo levado pela forte precipitação.

De acordo com a PM, a vítima chegou a se agarrar em um poste ao lado da Base de Trânsito na avenida Nações Unidas, correndo risco de ser levada pela enxurrada. Policiais correram para salvar o idoso, trazendo-o de volta para um local seguro.

A vítima apresentou algumas escoriações e recebeu atendimento médico. Procurado para comentar o episódio pelo Jornal da Cidade, o homem, muito abalado, minimizou que está bem e que seu veículo teve perda total.

____________________

Estragos exigiram mudança de trajeto

Por causa dos estragos, parte da população que transita pelas vias danificadas precisou mudar seu trajeto normal, o que está exigindo readaptação. É o caso de moradores que residem próximos a uma ponte do Jardim Guadalajara, que desmoronou. O local funcionava como passagem de acesso rápido para a avenida Rodrigues Alves.

O aposentado Rubens Sacardo, de 70 anos, por pouco não vira uma vítima com a queda da ponte. “Eu havia acabado de passar e poucos minutos depois, ela desabou”, conta. Segundo Rubens, a passagem facilitava bastante o trajeto, encurtando os caminhos. “Agora, tem que dar uma volta enorme”, diz.

Outro morador conta que teve de dobrar o tempo para cumprir sua rota até o Sesc, onde costuma ir. “Antes, quando passava pela ponte, demorava no máximo uns 10 minutos para chegar até lá. Agora, demoro no mínimo 20 minutos, quando vou de carro. A pé demora muito mais”, relata Raul Piola, 76 anos. Ele ainda conta que não é a primeira vez que a estrutura cai. “Esperamos que o prefeito nos ajude”, pede.

____________________

Órgãos públicos param

Alguns locais de atendimento público, como o Instituto Médico Legal (IML), na avenida Nações Unidas, e o Plantão Policial, que fica na praça Dom Pedro 2, na área central, ficaram com os serviços prejudicados devido aos estragos com a invasão da água da chuva.

No IML, os funcionários estavam parados e sem saber o que fazer com a quantidade de barro e lama que se acumulou em todos os cômodos da entidade. As atividades ficaram suspensas.

Já o Plantão Policial também fechou as portas, transferindo o atendimento para a rua Rafael Mercadante, quadra 2-56, na Vila Mariana, até que os devidos reparos e limpeza possam ser concluídos. Ontem, um caminhão do Departamento de Água e Esgoto (DAE) retirava grande quantidade de terra que obstruía o estacionamento da delegacia.

Algumas unidades escolares, como a Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Rosângela Vieira Martins de Carvalho, no Parque Camélias, ficaram parcialmente inundadas. A chuva ainda causou pane em linhas telefônicas, como da Polícia Ambiental, que ficou sem receber ou realizar ligações.