Momentos de muita comoção e, também, de ampla cooperação marcaram os últimos minutos de vida de Rafael Franco Zontini. Empurrado pela enxurrada desde a quadra 17 da avenida Nações Unidas, o estudante conseguiu se levantar e se segurou, por quase três minutos, em uma caminhonete estacionada na esquina da quadra 14 da Nações com a rua Benjamin Constant.
Daniel da Silva Massari, 31 anos, é o homem de vermelho do vídeo divulgado pelo site do Jornal da Cidade na madrugada de ontem. Funcionário de uma loja de automóveis que fica no local, ele participou das tentativas de resgate a Rafael.
Daniel conta que tudo aconteceu rapidamente a partir do momento em que a chuva começou a cair: “A água subiu no intervalo de tempo em que tirei minha moto da rua e guardei na loja vizinha”. Segundo ele, muitos carros já tinham descido a avenida quando o estudante foi avistado.
Segurando-se a uma parede, Daniel jogava a corda para outro homem (de camiseta laranja, aos quarenta segundos do vídeo), que, agarrado a um poste, jogava a corda para Rafael. “Ele chegou a pegar a corda, mas a água veio muito forte, cobriu a caminhonete e ele foi levado”, relata o vendedor.
Ainda abalado pelo momento de desespero, Daniel afirmou que prefere não tocar mais no assunto. “Eu nunca vou esquecer. É uma sensação de impotência terrível por não poder lutar contra a força da natureza. Quando vi que se tratava de uma vida em perigo, não pensei duas vezes para tentar ajudar”, relata emocionado.
Iuri Gonçalves Souza (de camiseta verde no vídeo) trabalha junto com Daniel e também participou das tentativas de resgate. “Estou há quatro anos aqui, mas nunca vi tinha visto nada assim. Em 10 minutos a loja foi alagada”, lembra.
Ele conta que as pessoas tentavam falar com Rafael, mas o estudante não tinha forças para responder. “Ele estava sem roupa e acredito que já tinha quebrado a bacia”, afirma Rafael.
Autor do vídeo
Cássio Leandro Souza, 40 anos, funcionário de uma construtora, gravou em vídeo o momento trágico da tentativa de salvamento de Rafael. Ele estava no portão de sua casa, onde mora há nove anos, quando pegou sua câmera digital com a intenção de registrar mais uma das reincidentes inundações no local.
“Isso sempre acontece aqui porque vem água de todos os lados. Quando resolvi filmar, estava com minha filha mais nova no colo, e nem imaginava que presenciaria uma cena como aquela. Infelizmente eu vi e não terei como esquecer”, lamenta Cássio.
Ele conta que foi procurado durante todo o dia por veículos de imprensa em busca de suas imagens, divulgadas em primeira mão pelo Jornal da Cidade. “Às cinco horas da manhã, já tinha gente ligando na minha casa”, contou Cássio.
____________________
Chuva fez quatro vítimas em 2001
As últimas mortes provocadas por chuva em Bauru foram registradas no dia 8 de fevereiro de 2001, após a precipitação que começou às 20h30 de uma quinta-feira e durou pouco mais de 40 minutos.
Quatro pessoas morreram: na avenida Alfredo Maia, cortada pelo córrego Água do Sobrado, duas delas foram arrastadas pela enxurrada. O corpo do motoboy Rodrigo Maciel dos Santos, 18 anos, foi encontrado, mas a enfermeira Maria Anita Ribeiro Correa da Silva, 46 anos, ficou desaparecida nas águas do córrego mesmo depois dias de buscas pelo Corpo de Bombeiros.
Na mesma noite da chuva, o corpo de um homem não identificado foi encontrado com vida no cruzamento da avenida Nuno de Assis com a rua Inconfidência. Os policiais o encontram nu e com arritmia. Ele foi levado ao Pronto-Socorro, mas não resistiu. Dois dias depois da chuva, outro corpo não identificado foi localizado, semi-enterrado, nas proximidades do Horto Florestal, à margem do rio Bauru.
Além das mortes, a cidade contabilizou inúmeros estragos em erosões e asfalto de vias públicas. A avenida Nações Unidas foi uma das mais atingidas pela tragédia.
____________________
Tragédia na rede
Foram inúmeros os vídeos amadores gravados por pessoas que testemunharam a violência das águas da chuva de anteontem. No Youtube, site de compartilhamento de vídeos, são mais de 50 registros que, juntos, superam a marca de 10 mil exibições.
São cenas de inundações e estragos que impressionam pela força da natureza e chegaram ao mundo pela rede mundial de computadores e pela reprodução das emissoras de televisão.