Bauru foi surpreendida no início da noite de anteontem por uma forte tempestade que há muitos anos não se via. Mas embora o Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) tenha alertado quase uma hora antes sobre a possibilidade de chuvas, entre moderadas a fortes na região, ninguém – nem população, nem órgãos públicos - conseguiu prever e se antecipar à destruição que a precipitação torrencial provocou na cidade.
De acordo com o IPMet, a ‘surpresa’ que impediu qualquer possibilidade de planejamento foi ocasionada pela junção de quatro ou cinco fortes células de chuva (nuvens carregadas de água) sobre Bauru. Até se posicionarem sobre o município, no entanto, elas se deslocavam separadamente, vindas de pontos distintos como Avaí, Piratininga e Fernão.
“A gente sabia que ia chover forte, mas essas células estavam espalhadas. Uma delas, sozinha, não teria capacidade de provocar o estrago que, juntas, provocaram”, aponta Sandra Sanches, relações públicas do instituto.
O primeiro alerta de que chuvas moderadas a fortes poderiam vir em direção à cidade foi dado pelo IPMet, em seu site, às 17h02. Às 17h45, a Defesa Civil foi acionada e, às 18h04, um novo alerta foi emitido, já com a confirmação de possibilidade de tempestade, conforme informou o instituto. Às 18h36, quando já chovia em Bauru, a tempestade teve início e perdurou até as 19h14, seguida por uma chuva fina que só teve fim às 19h30.
Neste período, Defesa Civil, Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb), Polícia Militar (PM) e Corpo de Bombeiros agiram como puderam. “Nós recebemos a informação de que havia formação de chuvas moderadas a fortes, mas esse aviso é algo comum, que se repetiu hoje (ontem), por exemplo.
O temporal pegou todos de surpresa, ninguém pôde prever”, justifica o coordenador da Defesa Civil, Álvaro de Brito, argumentando que a avenida Nações Unidas não poderia ser interditada antecipadamente apenas com a informação fornecida às 17h45 pelo IPMet.
Ele ressalta que, quando a probabilidade de chuvas muito fortes é confirmada em um intervalo de tempo mínimo para as equipes se programarem, um plano de intervenção preventiva é posto em prática mesmo antes do início da precipitação.
Dificuldades
Quando a chuva forte teve início, segundo Brito, as equipes da Defesa Civil, Emdurb, PM e Bombeiros já estavam nas ruas. Mas, devido ao trânsito carregado devido ao horário de ‘rush’ e aos alagamentos, todos tiveram dificuldades em acessar as vias mais críticas para efetuar as interdições a tempo e prestar o devido socorro às vítimas.
“Eu, por exemplo, demorei meia hora para percorrer cerca de cinco quadras da Duque (de Caxias), trajeto que eu faço em cinco ou seis minutos. Além do deslocamento complicado, os chamados eram muitos e foi difícil atender todas as ocorrências”, afirma o coordenador. Somente a Defesa Civil, segundo ele, recebeu cerca de 60 ligações devido ao temporal.
Conforme destaca o coordenador, as previsões meteorológicas são fundamentais para organizar o trabalho das equipes de resgate e apoio em tempestades ou vendavais que, costumeiramente, se intensificam nesta época do ano.
Mas, em sua avaliação, seriam necessários maiores investimentos para que os radares do IPMet sejam capazes de prever maiores variações, como a transformação de várias células de chuva em uma só, na mesma região. “A chuva que atingiu Bauru era impossível de ser identificada naquela intensidade, porque se formou sobre Bauru e caiu repentinamente”, pontua. Apesar do grande estrago provocado na cidade, Brito informa que não houve registro de desabrigados ou desalojados em função das chuvas.
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Emdurb planeja criar central de alerta para casos de emergência
Devido à mudança na característica das chuvas nos últimos anos, que se formam repentinamente e provocam estragos em poucos minutos de atuação, o presidente da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb), Nico Mondelli, disse que pretende criar na cidade uma central de alerta que envolveria todos os organismos que precisam ser mobilizados durante a ocorrência de desastres naturais na cidade, como tempestades e vendavais.
Segundo ele, a ideia é implementar um sistema de comunicação via rádio, que já está sendo projetado entre o órgão, Secretaria de Obras, Secretaria das Administrações Regionais (Sear), Departamento de Água e Esgoto (DAE), Polícia Militar, Corpo de Bombeiros e Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet) da Universidade Estadual Paulista (Unesp).
Posteriormente, haveria ainda a possibilidade de instalar painéis eletrônicos ou sinalização sonora para alertar os motoristas a evitar as vias nos trechos mais rebaixados da cidade, que ficam em situação crítica em dias de chuva.
“Para os próximos anos, temos previsão de chuvas inéditas na cidade, que estão se tornando cada vez mais fortes, então precisamos começar a agir já”, analisa o presidente. A primeira reunião para definir como essas equipes de sobreaviso poderão atuar conjuntamente foi realizada após a chuva do último dia 23, quando choveu 21,1 milímetros em Bauru, apenas 6,8 milímetros a menos do que a precipitação de anteontem.
De acordo com Nico, após receber aviso de chuva ou ventos fortes na região de Bauru, as equipes se deslocariam para os pontos mais vulneráveis, como trechos das avenidas Nações Unidas, Alfredo Maia e Rodrigues Alves.
“As chuvas de verão costumam acontecer no final da tarde, quando todos estão saindo do trabalho e os carros estão na rua. No caso de uma enxurrada muito forte como a de ontem, os avisos sonoros seriam mais eficientes. Mas é possível também instalar placas nas vias. Tudo precisa ser pensado”, adianta, destacando que, na enchente da última terça-feira, o alargamento do diâmetro da galeria sob a Nações não seria suficiente para dar vazão à todo fluxo de água.
Para o coordenador da Defesa Civil, Álvaro de Brito, a implantação de sistemas eletrônicos de alerta teria de ser acompanhada de campanhas de educação para o trânsito, já que, em sua avaliação, muitos motoristas têm por hábito não respeitar as placas de sinalização instaladas temporariamente. “É o que a gente tem verificado no Jardim Guadalajara. Colocamos tochas, terra, placa e fita na passagem que desabou e está interditada. Mas motoqueiros insistem em passar por aquele caminho. E, se ocorrer um acidente, a culpa vai ser da prefeitura”, reclama.