09 de julho de 2026
Articulistas

Esquecer os ‘modelitos’

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

A economia brasileira chega ao final de 2010, término do segundo mandato do presidente Lula, crescendo 7,5%, com uma taxa de desemprego medida pelo IBGE em outubro último de 6,1%, (o que a aproxima do nível clássico de pleno emprego), o rendimento médio dos salários em alta de 6,5% e com uma inflação bem comportada, em torno da meta de 4,5%.

Esses números da economia explicam, numa larga medida, a vitória eleitoral por grande margem de votos de Dilma Rousseff e o clima de tranqüilidade da transição política. Há uma forte sensação de confiança no futuro que permeia todas as classes da sociedade brasileira. Esse sentimento é um enorme trunfo que deve ser apreciado pelo governo que assume em primeiro de janeiro. Pessoalmente, compartilho dessa crença. Teremos mais um bom período de governo, com crescimento econômico acima de 5% e com o controle adequado da inflação. Os primeiros passos da presidente Dilma na organização de sua equipe mostram que ela tem consciência da oportunidade que se lhe oferece de impor uma coordenação maior entre a área fiscal e a área monetária, permitindo construir um programa que ao longo de algum tempo possa reduzir a taxa de juro real do Brasil à média mundial.

O Brasil não é um país teratológico que tenha que aceitar essa taxa de juro real absurda de 7%, como em dias recentes defendeu ardorosamente um conhecido economista, do alto de sua “ciência” abstrusa, dizendo “os meus modelos indicam o piso de 7% real”, uma dessas enganações que caracterizaram muito bem as formas de especulação nos mercados financeiros nas últimas décadas. Ora, trata-se de autêntica “conversa mole” que mal esconde algumas manifestações profundas de ignorância! Quem não sabe que os modelos só podem pôr fora o que você pôs lá dentro? E o que foi que puseram lá dentro, se não os erros do passado? O “modelo”, então, devolve esses erros do passado dizendo “continuem errando!”  

Tais “análises”, em realidade, são produzidas para alimentar dúvidas sobre a autonomia do Banco Central, que não está em causa. O que é preciso é dar ao Banco Central a garantia que ele terá o suporte de uma política fiscal musculosa para facilitar a sua tarefa de administrar as metas de inflação.  Se entendi bem, é exatamente isso que a presidente Dilma tem oferecido: na sua apresentação logo após a vitória eleitoral, ela disse que vai reduzir a taxa de juros com um programa cuidadoso ao longo dos próximos dois anos. Não vai recorrer a medidas “heterodoxas”, como os “animadores” do mercado financeiro tentaram sugerir na campanha eleitoral. Vai fazer isso com inteligência, mostrando que não há nenhuma razão para continuarmos a manter a maior taxa de juros real do mundo.

Então, isso vai ter que terminar: se existem “modelos” que impedem a queda dos juros, vamos construir outro “modelo” que permita isso. E qual é esse modelo? Uma política fiscal robusta, coordenada e dando musculatura para o Banco Central realizar a sua tarefa de controlar a inflação e ao mesmo tempo trabalhar na direção de igualar as taxas de juro interna e externa.

O autor,Antonio Delfim Netto, é é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento. contatodelfimnetto@terra.com.br