Quando falece um morador do Parque Ferradura Mirim, Gisele Moretti logo fica sabendo. Este tipo de informação chega até seu conhecimento independente da hora ou do dia da semana, mesmo que o finado não pertença ao seu círculo de amizades. E, diferente do que muitas pessoas possam pensar, o fato dela receber rapidamente a informação passa longe de ter algum cunho de mexerico.
Pelo contrário, como presidente da Associação de Moradores do Parque Ferradura Mirim, Gisele é quase sempre quem precisa assumir a incumbência de auxiliar a família e providenciar os trâmites para o velório e enterro.
Por se tratar de uma comunidade distante do Centro da cidade e composta, em sua maioria, por pessoas carentes, Gisele geralmente precisa improvisar: na impossibilidade de realizar o funeral em espaços adequados, transforma casas, igrejas e até mesmo coberturas de bares em centros velatórios.
“A pessoa precisa ter um velório e um enterro digno, então a comunidade se vira como pode. Mais de uma vez já fizemos velório na cobertura de um bar. No último domingo, dia 28, é que conseguimos inaugurar nosso centro comunitário, que poderá ser usado para isso”, conta.
O caso, à primeira vista, pode parecer exceção à regra, afinal, a época em que velórios eram realizados nas residências parece ter ficado no século passado. Porém, tal prática é mais atual que se pensa e ainda faz parte do cotidiano de muitos bairros espalhados pela cidade. É verdade que bem mais por falta de opção que por tradição ou vontade, como determinavam os antigos.
Marilene Rodrigues Moço, Célia Amano e Lourdes de Jesus Martinele, respectivamente presidentes das associações de moradores do Núcleo Octávio Rasi, Vila Independência e Jardim Godoy, compartilham do mesmo problema que Gisele. Como representantes dos bairros onde moram, são as primeiras a ser procuradas quando algum morador precisa da ajuda com os procedimentos do enterro.
Desinformação
Convivendo com os diversos lados do problema, elas apontam a grande distância entre os bairros e centros velatórios, a falta de divulgação de informações sobre os trâmites necessários para conseguir um funeral assistencial e o baixo teto de renda mínima para ter direito ao benefício como as principais barreiras a serem transpostas.
Desde quando assumiu a presidência da associação de moradores, Célia já protocolou diversos ofícios requerendo a instalação de um centro velatório para o Cemitério São Benedito.
“Já perdi as contas de quantas vezes já fui acordada durante a noite por famílias desesperadas, que não sabiam onde velar seus mortos. Tem gente que não tem dinheiro nem para o passe do ônibus, como é que vai levar a família inteira até o Cemitério da Saudade para o velório?”, questiona ela, que aponta a distância entre a Vila Independência e os centros velatórios públicos existentes como principal dificuldade. “Quando isso acontece a gente tem de dar um jeito e velar em casa mesmo. Tem um cemitério aqui perto, não custa nada instalar um velório ali”, reivindica.
Já Marilene Rodrigues Moço acredita que o valor de até meio salário mínimo per capita, que dá direito ao benefício, é baixo e deveria ser maior. Para driblar o problema, Marilene sai à caça de doações da comunidade do Núcleo Octávio Rasi, onde mora.
“No começo eu liberava o centro comunitário para o velório, mas depois esta alternativa se tornou inviável porque o espaço é usado para outras atividades. Por conta disso, a procura por ajuda diminuiu bastante, mas, quando acontece, a associação auxilia com uma verba do próprio caixa e também pede doações à comunidade”, explica.
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Burocracia e distância
Velar o tio de sua ex-mulher na cozinha de uma casa de dois cômodos no bairro Pousada da Esperança foi a alternativa encontrada por Renato Teixeira para driblar a distância entre o bairro e o velório municipal, no Cemitério da Saudade.
“Claro que não é o melhor lugar, mas a família toda é muito humilde. As pessoas não têm dinheiro nem para pagar o passe de ônibus, não teriam condições de ir até o velório se ele fosse realizado no Cemitério da Saudade”, pondera.
Mas, para chegar até tal decisão, Renato teve de percorrer uma verdadeira maratona. Ele ficou sabendo do falecimento do tio por volta das 16h, teve de esperar a perícia chegar no local para só então dar continuidade aos trâmites. Foi orientado a procurar e Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb) no Terminal Rodoviário, mas, como era um domingo, o local estava fechado.
Na sequência, foi até o Cemitério da Saudade, onde foi informado que deveria ir até o Pronto Socorro Municipal para conseguir com uma assistente social de plantão um estudo social com parecer favorável ao funeral assistencial. Depois teve de voltar ao Cemitério da Saudade para, então, o processo de velório ser iniciado.
“Achei tudo muito burocrático. Andei quase o dia todo atrás disso e cada hora uma pessoa me passava uma informação diferente. Dá a impressão que fazem de tudo para você desistir”, reclama. “Me disseram que é por conta do falecimento ter acontecido em um domingo, dia em que os funcionários trabalham em esquema de plantão. Mas a pessoa não escolhe dia nem hora pra morrer”, queixa-se.
Apesar do trabalho, Renato diz que não tem reclamações a fazer do serviço prestado, que, segundo ele, foi de boa qualidade. “O difícil foi conseguir o funeral assistencial, depois deu tudo certo. O serviço é ótimo e os funcionários muito atenciosos”, pondera.
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Assombração
Usar o centro comunitário para velórios também era uma alternativa comum no Jardim Godoy, onde Lourdes de Jesus Martinele é líder comunitária. Mas, pelo fato do espaço ser usado para outras atividades, a prática precisou ser abandonada.
“Não fica bem velar uma pessoa em um dia e fazer um casamento em outro, não é mesmo? Além disso, a comunidade começou a ficar receosa. Muitos têm medo de assombração e me pediram para não emprestar mais o centro comunitário para isso”, conta ela, que, atualmente, orienta as pessoas a procurarem a Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb).
“Eu dou a primeira orientação e auxilio no que for preciso. Penso que é o mais certo, afinal, muitas vezes a pessoa recorre à associação de moradores por falta de informação de como proceder nestes casos”, argumenta.
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Falta de verba
Foi com o apoio da Associação de Moradores do Núcleo Octávio Rasi que Luiz Carlos de Oliveira, 45 anos, conseguiu realizar o funeral do irmão, há 7 anos, e da mãe, há 4 anos.
Quando seu irmão faleceu, vítima de alcoolismo, a família foi pega de surpresa e, sem saber o que fazer, procurou a associação de moradores.
“Não nos encaixávamos nos requisitos para o velório assistencial, o que não significa que tínhamos dinheiro para arcar com as despesas. Foi quando solicitamos à associação de moradores o centro comunitário para realizar o velório e amenizar os gastos”, lembra Luiz Carlos.
Há 4 anos, a família de Luiz Carlos foi surpreendida novamente, desta vez com o falecimento da matriarca da família. Porém, desta vez, o centro comunitário do bairro não pode ser emprestado porque, no dia seguinte, teria um casamento. Foi quando a comunidade, liderada pela presidente da associação, uniu esforços e arrecadou o dinheiro necessário para fazer no centro velatório do Cemitério de Redentor que, na época, atendia à particulares.
“Espero não passar por isso novamente tão cedo. É muito complicado. Já é um momento de profunda tristeza e a pessoa ainda tem de ficar se preocupando com burocracias”, critica.
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Casa-velório
Transformar a garagem de sua casa em um centro velatório já se tornou algo comum para Reni Peçanha da Silva, 51 anos. Não por gosto, é claro, mas porque sempre que ela ou alguém do bairro precisa dos serviços de funeral logo se deparam com o problema da distância existente entre a Vila Independência e os velórios municipais da cidade.
A primeira a vislumbrar a alternativa foi sua madrasta, que costumava alugar casas de madeira para pessoas mais carentes. “Elas não tinham condições de ir até os velórios municipais e minha madrasta resolveu usar a garagem para fazer o velório. Acho que umas três pessoas foram veladas aqui”, estima.
Convivendo com o problema, a família optou por fazer um plano de fundo mútuo, mas, quando precisaram do recurso, as salas de velório existentes na vila estavam todas ocupadas e, se quisessem, teriam de fazer a cerimônia no Centro da cidade.
“Aconteceu a mesma coisa com meu pai e com minha madrasta, que morreu há pouco tempo. Como só havia salas disponíveis no Centro, optamos por fazer na garagem também”, explica.
Segundo ela, o problema afeta o bairro há muito tempo, desde que a sala de velório do Cemitério São Benedito foi desativada. “Não digo por mim, que pago plano, mas pelas pessoas carentes que moram aqui. Elas frequentemente precisam de um centro velatório público e não dispõem deste recurso aqui perto”, avalia.