08 de julho de 2026
Articulistas

Afinal, quando começa

Cleiton José Senem
| Tempo de leitura: 3 min

Há pouco tempo, pudemos acompanhar a discussão dos candidatos à Presidência da República sobre a questão do aborto. O mesmo embate acontece quando o assunto se refere a células-tronco embrionárias. Estas duas questões vêm sendo discutidas no Brasil desde os anos 80, mas o debate ganhou novo impulso através da lei 11.105, de 24 de março de 2005, conhecida como a lei da biossegurança, especialmente em seu artigo 5º, quando diz que “é permitida, para fins de pesquisa e terapia, a utilização de células-tronco embrionárias obtidas de embriões humanos produzidos por fertilização in vitro e não utilizadas no respectivo processo”. Todas essas discussões e debates nos levam freqüentemente a formular uma pergunta: afinal, quando começa a vida humana? Na tentativa de encontrar respostas confrontam-se várias concepções e posições, desde religiosas, científicas e filosóficas. Vejamos algumas delas. A primeira concepção, e a mais aceita, é a de que a vida humana começa na fecundação ou concepção. A partir da fusão entre o gameta feminino (óvulo) e o gameta masculino (espermatozóide) existe a constituição de uma nova célula, chamada de óvulo fecundado ou zigoto. Esse já pode ser considerado um ser vivo e distinto da mãe, portador de um DNA todo próprio.

Outra concepção diz que a vida começa com a nidação, isto é, com a fixação do óvulo fecundado no útero. Esta compreensão também é uma opinião bastante comum e entende que a partir do momento em que o óvulo fecundado se liga ao útero da mãe inicia-se uma nova vida humana. Esta nidação ocorre geralmente entre o 4º e o 15º dia após a fecundação.

A formação do Sistema Nervoso Central (SNC) é outra compreensão bastante aceita na atualidade. Nesta opinião, assim como o que define o final da vida é a atividade cerebral, da mesma forma o início da vida humana é visto a partir do momento em que existe atividade cerebral, portanto, a partir da 5ª semana de gestação.

Outra compreensão ainda acredita que a vida humana começa somente a partir do momento em que o embrião passa a ser considerado feto, isto é, a partir da 10º sema-na de gestação. Muitas outras concepções poderiam ser abordadas como aquela que identifica o início da vida com os primeiros batimentos cardíacos, por volta da 6ª semana de gestação, entretanto, a pequena exposição de algumas compreensões anteriores já indica que a discussão é longa e extremamente complexa.

A utilização de células-tronco embrionárias para os mais diversos tratamentos tem trazido muitas discussões éticas. Vale ressaltar que o impedimento da utilização de embriões para a pesquisa não torna inviável a utilização de células-tronco para fins terapêuticos, já que estas podem ser obtidas através do cordão umbilical, da placenta, da medula óssea, dos dentes e inclusive da pele, não somente através de embriões.

Porém, a questão que quero trazer à reflexão no momento é outra. Os conhecimentos promovidos pelo diversos campos do saber são fantásticos. Compreender o universo micro-biológico é uma possibilidade atual, e deve ser incentivada, pois poderá trazer enorme contribuição para todas as formas de vida. Entretanto, deveremos ter o cuidado para que este conhecimento técnico-científico não nos conduza a uma visão reducionista do ser humano.

Ao mesmo tempo em que a especificidade do conhecimento nos traz grandes avanços ele pode trazer um efeito colateral, através do qual poderemos cair numa visão cartesiana, mecanicista e fragmentada da vida; cindindo o ser humano como se ele fosse uma somatória de várias partes desconexas. No fundo é essa visão fragmentada que nos faz perguntar: em que momento, depois de quantos segundos, em quantos dias, em que semana começa afinal a vida humana?

O fato é que nossa sociedade tem dificuldade de ver o todo, de ver a complexidade do universo no qual todos nós humanos estamos interconectados com todas as outras formas de vida. Uma atitude mais holística poderia fazer-nos enxergar que a vida está para além de nossos microscópios; que nossos métodos, técnicas e instrumentos são possibilidades, mas não são capazes de apreender o grande Mistério que é a Vida.

O autor, Cleiton José Senem, é professor de Ética e Cultura Religiosa na Universidade do Sagrado Coração, Bauru-SP