08 de julho de 2026
Ciências

A força do pensamento e o ‘ser’ eterno!

Alberto Consolaro
| Tempo de leitura: 3 min

Para o poeta Drummond, “o importante não é estar aqui ou ali, mas ser. E ser é uma ciência delicada, feita de pequenas e grandes observações do cotidiano, dentro e fora da gente”. O ser representa o somatório de acertos e erros, está relacionado com o aprendizado, conhecimentos, caminhos e atalhos. No cérebro estão registradas as informações, verdadeiros arquivos.

No computador também acumulam-se informações, experiências e até aprendizado. As máquinas podem aprender e temos como ensiná-las. O paralelo entre os nervos, medula e cérebro com fios e máquinas do computador é quase perfeito. Uma energia corre pelos fios ou pelos nervos. O cérebro processa a informação recebida e o computador também.

As mãos, pés e pele com receptores periféricos mandam estímulos para o cérebro processar e reagir. O teclado, o mouse, a máquina fotográfica e outros equipamentos também fazem o mesmo com o computador.

Pesquisadores da Unicamp mostraram o Ecolig, um capacete com dispositivos miniaturizados que captam e transmitem estímulos do cérebro para aparelhos eletrônicos como computador e celular, comandando-os apenas com os pensamentos. A partir do pensamento pode-se comandar o computador escrevendo, movimentar o mouse, ligando e desligando programas, robôs e outras máquinas.

Para os pacientes sem ou com limitações de movimentação é uma maravilhosa conquista, como ressalta o professor Paulo Miguel, em sua tese de doutorado orientada por Gilmar Barreto no Laboratório de Controle e Sistemas Inteligentes da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação. Os próximos passos são captar e sentir via computador o cheiro, o tato, o som e até a imaginacão.

Vamos considerar o corpo como equipamentos do computador. Nossos pensamentos e informações seriam armazenados no cérebro como os programas e arquivos dos computadores. Ao aprendermos interferir na transmissão de dados para o cérebro, antes da morte poderemos resgatar tudo que se tem na mente e guardar em arquivos eletrônicos.

Com a morte biológica, poderemos transferir estas informações a um outro cérebro, mas não de outro ser humano, será um cérebro artificial, afinal temos coração, rim, pulmão, dentes e outros órgãos artificiais nos corpos de muitas pessoas, porque não haverá cérebros. Aliás, o computador representa um cérebro artificial, embora ainda muito limitado.

Os especialistas em futuro a partir de bases científicas já detectaram e descrevem esta possibilidade daqui 50 a 100 anos. Você continuará vivendo, sentindo e colocando em prática seu jeito de ser em outro corpo, em outra máquina.

Quando morrer, instala seus programas e arquivos cerebrais em outro cérebro e o seu “ser” continuará existindo. Me parece lógico que muitos herdeiros não gostarão desta ideia, assim como concorrentes e sucessores.

Quando se compra um novo computador ou celular transfere-se tudo da antiga para a nova máquina. Qual o problema em transferirmos para outro corpo nossa agenda, arquivos, e.books, livros lidos, teses, experiências, mágoas e também gratidões e outros sentimentos? Para o outro corpo, o “ser” vai com os mesmos defeitos e qualidades.

Quando sairmos de casa sem fazer cópia de segurança ou back-up do seu “ser” e um acidente levar-nos à morte, não teremos como ressuscitar. Se a sua cópia de segurança for antiga, ao transferirem você para outra máquina, será você um pouco ou muito antes da morte. Será um tempo diferente, mas nos acomodaremos como fizemos com Internet, celular, computadores e outras coisas que pareciam absurdas um tempo atrás.

O seu “ser” pode não mais desaparecer da Terra: como planejaria a sua vida? Aos que teimam em dizer que o inferno é aqui, perpetuarmo-nos na Terra pode não ser um bom negócio! A proximidade da morte nos humaniza, deixa-nos mais sensíveis, condescendentes e humildes, pois nos sentimos mais fragilizados.

Os que na juventude foram duros, amenizam seus discursos e práticas na velhice, mas sem a perspectiva da morte continuariam duros, implacáveis e cruéis. Faça um exercício e imagine o seu “ser” sem perspectiva de morte, como se comportaria? Isto pode gerar muito medo!

Alberto Consolaro é professor titular da USP em Bauru e escreve todas as segundas-feiras no JC