11 de julho de 2026
Polícia

Refém em roubo a banco na FOB, repórter do JC relata a tensão

Vitor Oshiro e Bruna Dias
| Tempo de leitura: 8 min

“Fica quietinho que é um assalto”, “calma, moço, leva o que você quiser”, “deixe pelos menos os clientes saírem”, “eu nunca achei que fosse passar por isso”, “é um pesadelo”, “estou com muito medo”, “fiquem calmos”, “meu Deus, nos tire com vida daqui”, “não quero tirar a vida de ninguém, mas, se vocês reagirem, eu vou ser obrigado a isso”. Em meio a um calor insuportável e um clima de incerteza sobre as próprias vidas, todas essas expressões foram proferidas por cerca de 25 pessoas feitas reféns em uma minúscula cozinha do posto de atendimento do Banco do Brasil do câmpus Bauru da Universidade de São Paulo (USP) assaltada na tarde de ontem. Infelizmente, eu estava entre os reféns.

O roubo foi realizado em plena luz do dia, por volta das 14h, por quatro homens armados que entraram no estabelecimento que não possui porta com detector de metais (leia mais nesta página). Cheguei ao local com minutos após o anúncio do assalto. Entrei e logo fui abordado por um homem armado. O rapaz, facilmente confundível com um universitário, me disse na entrada: “fica quietinho que é um assalto”.

O outro, também em posse de um revólver, amarrou minhas mãos e me conduziu à pequena cozinha. A situação péssima piorava a cada novo cliente que entrava no posto de atendimento e também ia sendo feito refém e espremido na cozinha.

Ao fim, éramos quase 25 pessoas, entre funcionários e clientes, sem saber como aquela situação iria terminar. O medo aumentava visto que eles não utilizavam qualquer objeto para tampar seus rostos, mesmo diante das câmeras de vigilância. Alguns até cogitavam que eles não iriam nos deixar como testemunhas.

Enquanto isso, a vigilante do posto de atendimento, que teve sua arma levada, foi obrigada a acompanhar os assaltantes. Pela fresta da porta entreaberta, eu conseguia ver que ela tentava negociar nossa liberação. Porém, sem êxito. Os ladrões, irredutíveis, apenas diziam para ela ficar quieta e fazer o que eles mandassem.

Ainda pela abertura, vi mais um dos assaltantes. Ele parecia bastante agitado. A todo momento, ele mostrava o revólver em sua cintura.

O calor, misturado ao medo, fazia todos suarem muito. Lágrimas de desespero se misturavam a esse suor. Pelas conversas, percebemos que um dos assaltantes ficou nos vigiando enquanto os outros foram roubar um anexo do posto de atendimento que fica ao lado.

O assaltante que ficou conosco falava por várias vezes que sua mãe era evangélica e que ele não tinha a intenção de tirar a vida de ninguém. Intenção que não era compatível ao revólver que carregava em sua cintura.

Quando o assaltante saía da cozinha, alguns reféns cogitavam tentar fugir pela janela, porém, felizmente a sensatez prevaleceu. Todos concordaram que, como sempre a polícia recomenda, o melhor era não tentar “bancar o herói”.

Por fim, eles colocaram a própria vigilante na cozinha. Preocupado com o espaço e com algumas pessoas que começaram a passar mal, eu argumentei que não cabia mais ninguém e o assaltante me garantiu: “é a última”.

Assim, ouvimos a porta ser trancada. Apesar do calor insuportável e de não saber quando sairíamos dali, aquele barulho foi um alívio. Aquele girar de chave era o indício de que aquele pesadelo estava terminando. Sabíamos naquele momento que uma porta trancada nos separava da incerteza sobre nossas vidas.

Mesmo os assaltantes tendo levado a maioria dos celulares – que depois descobrimos que foram jogados em um vaso sanitário junto com um rádio comunicador HT levado de um dos seguranças -, alguns conseguiram ficar com os aparelhos.

Esperamos minutos para ter certeza que eles haviam fugido e começamos a ligar por socorro. Acionamos polícia, a portaria do câmpus, outros funcionários e todos que podíamos. Apesar de sabermos que aquela situação estava prestes a acabar, o desespero não havia ido embora.

Todos queriam sair dali. Alguns davam socos na porta e outros tentavam desparafusá-la . Novamente, tudo sem êxito.

Passaram-se demorados – quase eternos – quinze minutos e novamente ouvimos barulho na porta. Ao abrir, o alívio. Vimos um policial militar fardado e acabamos com aquela incerteza de meia hora atrás. Sabíamos que o pesadelo havia acabado.

Os assaltantes fugiram levando somente o dinheiro dos caixas. Apesar de somente ter visto três, havia mais um vigiando fora do posto de atendimento. Ainda há indícios de que havia mais um que estava aguardando na parte externa do câmpus.

Na hora em que saí, além do alívio, tive o pensamento instintivo de que eu era um sortudo por não ter morrido naquele local. Porém, minutos depois, o sentimento que realmente prevaleceu foi o de indignação. Além das marcas nos pulsos amarrados, o que restou foi a indignação de viver em um lugar em que tenho que me sentir “sortudo” em que passar meia hora de medo e desespero. Afinal, que “sorte” pode ser essa?

Até o final desta edição nenhum suspeito do roubo havia sido preso. E o Banco do Brasil não havia divulgado o valor levado.

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Superintendência do BB diz não

saber o valor levado pela quadrilha

A superintendência do Banco do Brasil (BB) em Bauru informou, em nota, que ainda não sabia a a quantia roubada do posto de atendimento, já que a perícia não havia sido concluída. A autarquia ainda foi questionada pela reportagem sobre o fato do local assaltado não ter detector de metais, o que provavelmente evitaria o assalto.

Na mesma nota, foi informado que o o Banco do Brasil atende as exigências de segurança, pois segue normas institucionais. Entre elas, foi citada a portaria 387 da Polícia Federal que, em seu artigo 62, afirma que o local é obrigado a ter vigilante, alarme e um item a mais de segurança, que pode ser a porta com detector de metais ou, por exemplo, circuito fechado de monitoramento, cofre com retarde de abertura, entre outros.

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Direção do câmpus reconhece

fragilidade e prevê mudanças

O vice-coordenador do câmpus Bauru da Universidade de São Paulo (USP), José Roberto Lauris, explica que o fluxo de pessoas que entram no espaço da universidade todos os dias é muito grande e que os vigias não têm condições de abordar todos que passam pelas portarias. “Por uma política da USP, nós temos um efetivo de vigilância que não fica armado. Nas portarias, nós temos um registro manual de todas as entradas. Evidentemente que nós não paramos todos alunos que entram aqui por que nós não temos essa estrutura. Esse registro será checado e entregue para a polícia para auxiliar nas investigações”.

Diariamente, passam pelo câmpus milhares de pessoas entre alunos – são quase 500 entre a graduação e a pós -, funcionários e pessoas que recebem os tratamentos odontológicos, fonoaudiólogos e do Centrinho oferecidos pela instituição. O local conta com seis portarias, sendo que há duas principais.

Lauris acrescenta que talvez agora seja o momento de propor mudanças, já que esse é o primeiro assalto desse porte que acontece no posto de atendimento do Banco do Brasil que fica no câmpus. "Aqui existe um fluxo muito grande de pessoas e, por isso, temos um projeto de vigilância monitorada, o que não existe hoje aqui. Pretendemos utilizar esse fato lamentável para agilizar esse processo”.

A Polícia Militar (PM) requisitou as imagens de vídeo do posto de atendimento bancário e do restante do câmpus para tentar identificar os assaltantes. A Polícia Civil também esteve no local para dar início às investigações.

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Ladrão diz ser ‘religioso'

e que cuidaria dos reféns

“Eu não vou fazer nada com vocês. Podem ficar sossegados, minha mãe é evangélica e eu não vou fazer nada com a vida de vocês”. Essa foi uma das frases que um dos quatro assaltantes proferiu a cerca de 25 reféns. A auxiliar de limpeza Márcia Aparecida de Souza, 38 anos, estava no meio deles e conta que apesar de nunca ter sido assaltada, não sentiu medo do ladrão.

A estudante de fonoaudiologia Maristela Cruz, 22 anos, que estava com uma amiga no banco, também foi vítima da quadrilha. Ela fazia uma transferência bancária quando foi abordada. Ela e a amiga foram levadas para a cozinha, assim como os outros reféns. Maristela conta, com lágrimas nos olhos e ainda abalada com a situação vivida, que veio da cidade de Osasco e nunca imaginou que seria assaltada dessa forma em Bauru. “Ele exigiu que eu entregasse o meu celular para ele, amarrou as minhas mãos e me levou para a cozinha. Eu vim de Osasco e nunca fui assaltada lá, uma cidade mais violenta”, finalizou.

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Correspondente bancário é assaltado

Um correspondente bancário do Banco do Brasil também foi assaltado ontem, cerca de uma hora antes. O local, instalado na quadra 18 da avenida Rodrigues Alves, no Centro , foi vítima de dois homens armados. A quantia roubada não foi informada. Computador com imagens da câmera foi levado.

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Homem é abordado e liberado em seguida

Momentos após o assalto o posto de atendimento do Banco do Brasil do câmpus da FOB/USP, quando a Polícia Militar ainda ouvia as vítimas e testemunhas do ocorrido, um homem não quis se identificar na portaria da instituição e foi abordado pelos policiais.

A situação causou correria nos corredores do local e novamente assustou funcionários e alunos. Ao ser abordado, o homem que teve a identidade preservada afirmou aos policiais que estava na universidade à procura de sua irmã. O nome da mulher constava no quadro de funcionários da USP, mas ela não foi localizado. Como nada de suspeito foi encontrado com ele, o rapaz foi liberado.