10 de julho de 2026
Polícia

Cinco crianças são agredidas por semana

Mariana Cerigatto
| Tempo de leitura: 4 min

Uma criança de 5 anos está sob os cuidados da avó materna em Bauru após o Conselho Tutelar a encontrar com marcas vermelhas em um dos braços. A denúncia que chegou ao órgão e à polícia anteontem é de que a mãe agrediu a criança, um fato bastante rotineiro na cidade. A média é de cinco casos de violência doméstica envolvendo crianças e adolescentes por semana na cidade. Na maioria deles, a mãe é a agressora.

Dados do Disque 100, serviço dirigido a queixas sobre agressão contra crianças e adolescentes, violência física é o tipo mais comum de denúncias. Entre janeiro e julho deste ano, em todo o Estado, o órgão recebeu 5.885 denúncias de violência física e psicológica, 4.760 de negligência, 3.871 de abuso sexual, 2.015 de exploração sexual, 37 de pornografia e 21 de tráfico de crianças e adolescentes.

Em Bauru, a situação não é diferente. “Por semana recebemos, no mínimo, cinco queixas, principalmente ao que se refere à violência física contra crianças e adolescentes. Em geral, a agressão é praticada pela mãe, pai ou padrasto” afirma a presidente do Conselho Tutelar de Bauru, Roberta Maria Almeida de Oliveira.

Ela ressalta que o número de notificações tem aumentado. “Estou há quatro anos e meio no Conselho Tutelar e constatei que a quantidade de denúncias, nos últimos dois anos, tem aumentado significativamente”, informa Roberta. O caso de anteontem será investigado pela Polícia Civil e o Conselho Tutelar, por sua vez, acompanhará o caso.

A violência infanto-juvenil, na concepção da psicóloga Maria José Barbosa, está ligada à falta de equilíbrio familiar. E, ainda, o próprio sistema social facilitaria os maus-tratos. “Esse fator é preocupante. A mulher está muito sobrecarregada com tarefas. Ela precisa dar conta de nutrir o lar e dos filhos. E, às vezes, ela não tem o controle emocional necessário para se dividir entre mãe e mulher, e precisa aprender a lidar com isso”, pondera.

“Nesse contexto, acontece a agressão contra os filhos. A mãe acaba projetando essas angústias neles e pratica a violência, tanto verbalmente quanto fisicamente”, completa. O conflito entre o casal também contribui para o convívio pouco harmonioso com os filhos. “A família acaba ficando desequilibrada por brigas e por pressão do esposo. A mãe acaba projetando a culpa no filho”, aponta. “Essa culpa gera trauma nas crianças”, frisa.

A violência praticada pode também estar relacionada a doenças, como a depressão pós-parto. “Por esse fator, a mãe pode chegar até a querer matar o bebê”, menciona Maria José. E a violência dentro de casa, de acordo com a especialista, ocorre em todas as classe sociais. “O perfil de mulher sobrecarregada, que precisa exercer vários papéis, atinge as mãe de qualquer classe social”, ressalta.

Na avaliação de Roberta, presidente do Conselho Tutelar de Bauru, os pais justificam a agressão, na maioria dos casos, porque consideram-na uma forma de correção. “Essa é a justificativa mais comum que recebemos dos pais que cometem a violência, mas ela não é aceitável”, comenta. Para a psicóloga Maria José, a família parte para a agressão quando não está preparada para colocar limites nos filhos. “O ‘não’ acaba sendo algo dolorido para a criança e os pais acabam se descontrolando e partindo para agredi-la”, enfatiza.

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Sequelas são físicas e

psicológicas

Tendo a família como uma das instituições que mais cometem a violência contra crianças e adolescentes, a psicóloga Maria José Barbosa alerta para as graves consequências dessas agressões. De acordo com ela, os pais deveriam ser referência na formação dos filhos. “Se as figuras parentais cometem agressões, o prejuízo se manifestará mais adiante. Os filhos se tornam perdidos e desnorteados sem uma base familiar equilibrada e passam a reproduzir essa conduta violenta, formando um ciclo”, ressalta Maria José.

A agressões podem deixar sequelas e ocasionar problemas de saúde. “Temos muitos casos em que as lesões afetam a saúde da criança e são realmente graves”, conta Roberta Maria Almeida de Oliveira, presidente do Conselho Tutelar de Bauru. “Temos muitas denúncias que recebemos que são de uma mesma criança ou adolescente que anteriormente já tinha sido violentada. Neste caso, nós providenciamos um abrigo para essa vítima”, completa.

O tratamento à vítima de violência deve considerar toda a dinâmica familiar. “Os pais precisam também de atendimento e orientação. Uma mãe, por exemplo, que percebe que está cometendo agressões, deve procurar a ajuda e apoio psicológico”, orienta Maria José, que trabalha com grupos de apoio às famílias.

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Denunciar ajuda a combater violência

O número de denúncias de agressão a crianças e jovens aumentou, de acordo com Roberta Maria Almeida de Oliveira, presidente do Conselho Tutelar de Bauru. “A pessoa pode ligar para o Conselho Tutelar e relatar qualquer tipo de caso sem ser obrigada a se identificar. Esse anonimato tem contribuído para estimular as pessoas a denunciarem”, aponta Roberta.

A violência, muitas vezes, é percebida e levada para as instituições competentes a partir do ambiente escolar ou por outros familiares e, ainda, vizinhos. Para Roberta, é importante que as pessoas não tenham medo de acionar a polícia ou Conselho Tutelar, já que a negligência mantém a vítima em uma situação de risco, refém daquela violência, já que não tem maturidade nem competência suficiente para ela mesma poder fazer a notificação de seu sofrimento. (MC)

• Serviço

O Conselho Tutelar pode ser acionado pelos telefones 3227-3339 e 3227-3499.