Cancún - A conferência do clima de Cancún entrou em seu momento decisivo ontem com um alerta da comissária europeia do clima, Connie Hedegaard, sobre o risco de um colapso nas negociações daqui para a frente.
“Se não houver vontade de aceitar um compromisso, estaremos mais para Doha do que para Durban”, disse a dinamarquesa, referindo-se ao impasse nas conversações sobre comércio internacional, a Rodada Doha.
Durban é o balneário sul-africano que sediará, em 2011, a COP-17, a próxima conferência da Convenção do Clima da ONU. Muitos países, em especial as ilhas do Pacífico, ameaçadas em sua sobrevivência pela elevação do nível do mar, defendem que seja firmado ali um acordo internacional contra o aquecimento global, que tenha validade de lei.
Para que isso ocorra, porém, um pacote ambicioso de decisões precisava ser aprovado em Cancún. Até o fechamento desta edição, a possibilidade de isso ocorrer e o teor das principais decisões estavam em aberto.
E, mesmo que obtenha algum sucesso, a reunião de Cancún estará longe de produzir qualquer acordo que tenha alguma relevância para atacar a crise do clima.
Não se reconheceu aqui, por exemplo, que mesmo que sejam cumpridas todas as metas de redução de CO2, o mundo estará em 2020 com um excesso de 5 bilhões a 9 bilhões de toneladas do gás -longe da meta de manter o aquecimento em no máximo 2ºC até o fim do século.
Madrugada
Os negociadores ficaram até alta madrugada ontem tentando resolver questões como a continuidade do Protocolo de Kyoto, um acordo sobre redução de emissões por desmatamento (Redd+) e a criação de um Fundo do Clima para financiar ações de corte de emissões e adaptação nos países pobres.
Na manhã de ontem, quase tudo seguia sem consenso, pendente de uma decisão política dos ministros que vieram para o final da conversa.
Duas altas autoridades de países em desenvolvimento, ouvidas pela reportagem, afirmaram que um dos principais entraves na madrugada foi a Bolívia. O país insistia em bloquear as discussões sobre o Redd+, em grande parte por motivos ideológicos do governo de Evo Morales. Os bolivianos, anticapitalistas, não admitem a menção a mecanismos de mercado no acordo sobre florestas.
Kyoto
Um dos principais entraves ao progresso em Cancún, porém, parece ter saído do caminho. O subterfúgio, construído com ajuda de Brasil e Reino Unido, conseguiu driblar a resistência japonesa a aderir a uma segunda fase do Protocolo de Kyoto.
A solução encontrada foi inscrever as metas voluntárias que os países (o Japão inclusive) apresentaram no Acordo de Copenhague no documento sobre países sem obrigações em Kyoto (como os EUA e os países emergentes), conhecido como LCA.