São Paulo - A questão enunciava uma mulher de 48 anos com dor torácica, vários sintomas específicos e um eletrocardiograma pronto. O formando em medicina tinha que diagnosticar se a paciente tem infarto agudo, angina instável ou pericardite aguda. 85% não acertou. Era pericardite.
Se a questão tivesse ocorrido num hospital, esses futuros médicos poderiam colocar em risco a vida da paciente. O pior é que trata-se de uma pergunta fácil para um médico: “Os eletrocardiogramas dessas doenças são muito diferentes, não dá para confundir”, diz o cardiologista Bráulio Luna Filho.
Ele coordenou a sexta edição do exame do Conselho Regional de Medicina de SP (Cremesp), que reprovou 68% dos inscritos em sua segunda fase. Foi o pior resultado desde 2005. Os formandos também tiveram dificuldade para diagnosticar tuberculose e sífilis.
O Cremesp avalia que a baixa aprovação pode ter sido “um ponto fora da curva”, já que, em anos anteriores, a aprovação era de ao menos 90%. A amostra de alunos foi menor e menos qualificada: apenas 23% dos formandos do Estado e a maioria de escolas privadas, diferentemente de outros anos. Alunos da Unicamp e de medicina da USP em Ribeirão Preto não prestaram o exame. A prova não é obrigatória.
Mesmo assim, o conselho avalia que o exame mostra uma formação médica com problemas no Estado.
Nas duas etapas do exame, a área médica com pior desempenho foi clínica geral. “Clínica médica é fundamental para qualquer médico. Tem que ter noções mínimas”, diz Renato Azevedo, vice-presidente do Cremesp.
O órgão sustenta que suas questões têm apenas o mínimo que se espera de um estudante de medicina. E que a má formação pode gerar futuros erros médicos.
O Cremesp defende ainda a criação de um exame nacional, unificado e obrigatório para alunos e universidades. O formando só poderia ser habilitado se passasse nesse exame. Do contrário, repetiria um ano de curso.
Cid Carvalhaes, presidente da Federação Nacional dos Médicos, diz que já é um consenso entre as entidades que haja uma avaliação. Mas a complexidade torna difícil definir e implementar esse tipo de exame compulsório.
Alunos da Unicamp não participaram desse exame - o que, para o coordenador de medicina Wilson Nadruz Junior, tem a ver com o excesso de provas nesta época do ano. Ele defende avaliações, desde que as universidades participem de sua elaboração, como o teste de progresso feito pela Unicamp e oito instituições desde 2004.