09 de julho de 2026
Geral

Fim de ano potencializa a ansiedade

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 4 min

Adrenalina sempre a mil por hora. Seja qual for o motivo - ou até quando eles não existem a primeira vista - o coração bate acelerado, falta o ar e a barriga gela. Esses são alguns dos efeitos da ansiedade, que, em dosadas proporções, é até benéfica, afirmam psicólogos, mas que em demasia e constante confunde a mente e reflete em todo o corpo.

No final do ano, o aperto no peito com a sensação de que resta sempre algo a fazer - e como resta! - é ainda maior. A proximidade das festas, a expectativa em receber parentes, a sobrecarga para conseguir passar a régua em pendências no trabalho, despesas extra, presentes de última hora e estacionamento de shopping lotado... Enfim, motivo para coçar ainda mais a cabeça é o que não falta nessa época.

E essa turbinada nos nervos quando chega dezembro não é mera subjeção ou exagero dos chamados “nervosinhos” É fato e comprovado cientificamente. De acordo com um recente estudo, empreendido pela International Stress Management Association do Brasil (ISLA-BR), instituição que estuda o estresse e respectivas formas de prevenção, os níveis de ansiedade aumentam em até 75% neste período em comparação com outras épocas do ano.

Entre os 700 entrevistados ouvidos durante os estudos do ISLA-BR , 60% disseram que o acúmulo de tarefas no período é o principal motivo da ansiedade. Em segundo lugar ficaram as despesas extra, citadas por 25% dos entrevistados pelo instituto.

“Muitos acham que não darão conta de todas as tarefas simultâneas que surgem nessa época”, observa o psicólogo Arnaldo Vicente, especialista em terapia cognitiva.

A tensão potencializada surge antes mesmo do último mês do ano, afirma Vicente, e pode gerar tanto agitação quanto até mesmo isolamento, especificamente, em pessoas com a chamada “fobia social”.

O transtorno, explica o psicanalista, é caracterizado pela fuga de eventos comemorativos e até reuniões familiares. “Em setembro a pessoa já acelera os pensamentos para arrumar desculpa e se esquivar”, exemplifica.

Mas independentemente às expectativas sobre participar (ou como evitar) as confraternizações típicas, a ansiedade do período, em alguns casos, mescla a parte profissional com as festas. Isso acontece com quem trabalha diretamente com os preparativos de final de ano.

“Nessa época é uma loucura total e meu trabalho aumenta mais do que 100%”, enumera a costureira Vera Lúcia Gomes Nascimento, que nesta época se desdobra entre as atividades corriqueiras de sua oficina e as encomendas extra, que, calcula, consomem cerca de 14 horas de seu dia.

“Acordo às 6h30 e só paro por volta das nove da noite”, detalha Vera, que ainda cuida do jantar e atenção à filha e marido. Isso tudo sem contar os contratempos que podem surgir e, literalmente, no caso dela, mexem com o sono de quem está ansioso.

‘Heroísmo’ é vilão dos nervos

Apesar da necessidade acentuada de cumprirmos metas, o ideal - até mesmo para evitar o surgimento de doenças oportunistas -, aconselha a psicóloga Cecília Russo Troiano, é elencar prioridades. “O final de ano é o momento de maior ansiedade mesmo, mas devemos fazer aquilo que dá”, orienta.

Segundo ela, a autocobrança é um dos principais fatores que elevam nossos níveis de ansiedade. “Somos humanos e não super-homens”, diferencia. Uma boa ajuda, segundo ela, é estipular um calendário seletivo com compromissos urgentes e atividades que podem esperar para depois do estourar do champanhe.

“Nesse balanço talvez vejamos coisas que não têm tanta pressa assim”, aponta a psicóloga, ao afirmar também que nem sempre precisamos ser impecáveis em tudo. “Devemos aceitar um pouco de imperfeição. Baixar um pouco nossas cobranças sobre nós mesmos é uma boa dica para o final do ano e todos os dias de 2011”, acrescenta.

‘Tensão’ de conclusão de curso

‘Tensão’ de Conclusão de Curso. Bem que esse poderia ser o significado do famigerado TCC, o trabalho de final de curso que tanto atormenta os universitários desde que colocam os pés na faculdade pela primeira vez. Os dias que antecedem a entrega de monografias ou defesas perante às bancas são tipicamente marcados pela ansiedade.

Não foi diferente com Simone Marques, que consegui a aprovação de seu trabalho nesta semana. Recém-graduada no curso de artes gráficas na escola do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) em Bauru, ela conta que a preocupação natural do período se juntou aos afazeres habituais, tão cotidianos, diz ela, quanto a própria ansiedade.

“Sempre fui assim (ansiosa), o tempo todo. Mas agora foi ainda pior”, comenta ela, que dividiu a atenção e tensão do TCC com o trabalho de produtora gráfica numa empresa e afazeres domésticos. “Ainda bem que tive a ajuda do meu marido, que foi muito importante”, valoriza.

Apesar da mãozinha, Simone relata os efeitos do nervosismo no corpo. Os reflexos, comenta, surgiram até mesmo após tirar a enorme mochila de pedra das costas, sensação comum aos estudantes que acabam de ter os trabalhos aprovados.

“O organismo estranhou. Tive muita dor de cabeça no dia seguinte. Achei que ia apagar, do nada”, detalha a recém-formada, que, na escola, serviu de exemplo entre alunos e professores. “Disse para os orientandos que se a Simone, com todas as ocupações que tem, conseguiu, todo mundo pode chegar lá”, elogia Carlos Alberto Cardozo, coordenador de estágio do Senai/Bauru. (LB)