08 de julho de 2026
Geral

Na medida certa, ansiedade pode ajudar

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 4 min

Desânimo, fadiga, sudorese, irritabilidade. Estes são alguns dos sinais que indicam quando a ansiedade deixa de ser uma sensação passageira e se torna um mal agudo e constante. Em certo ponto, antes de chegar ao patamar de transtorno, a ansiedade, comentam psicólogos, é até benéfica em algumas situações.

Encarar o desafio de um trabalho novo ou uma carga extra de atribuições requer uma certa dose de adrenalina, até para que a missão apresentada seja bem cumprida. Por isso é comum perceber uma leve apreensão antes de qualquer atividade, comenta o psicólogo Arnaldo Vicente, do Centro de Terapia Cognitiva (CTC) de Bauru.

“Um certo frio na barriga também pode representar entusiasmo. Essa discreta centelha de medo vai levar a pessoa a encarar o desafio a seguir com mais cuidado. É um tipo de ansiedade produtiva, funcional”, diferencia.

E é como combustível para enfrentar o dia a dia e desafios redobrados pelo aumento da demanda no final do ano que alguns profissionais usam a ansiedade. Apesar de contarem com anos de experiência, a apreensão em realizar um bom trabalho sempre aparece e é acrescida da exigência dos próprios clientes, também tensos em virtude da época.

“Todo mundo quer arrumar a casa, as pessoas recebem parentes. E todos querem tudo para ontem”, detalha a designer de interior Ângela Benjamin.

Com uma agenda mais do que lotada, ela contabiliza dez anos de experiência, mas admite sentir uma ponta de nervosismo até hoje a cada trabalho. “A cada prazo para concluir, sentimos o dever de não deixar de cumprir o programado. Quando vemos o trabalho pronto, que tudo deu certo, não há melhor recompensa”, orgulha-se.

Mas nem sempre foi assim, recorda a designer. “Já cheguei no limite. Achava que não ia conseguir”, lembra ela, que para dar conta do recado a tempo das festas de final de ano procura usar o melhor da intuição e, sobretudo, confiança. “Temos que acreditar”, receita.

Ciente de que tem condições de desempenhar um bom trabalho, independentemente às situações de estresse, acentuadas em dezembro, no caso de sua profissão, a assessora de eventos Cláudia Aparecida Lopes de Camargo diz não desistir do jogo antes do final e garante: “Jogamos em todas as posições”, compara ela, que nas ocasiões em que coordena a organização atua desde garçonete até auxiliar de cozinha.

Além da maior demanda por eventos nesta época, ela ainda mescla o trabalho com a profissão de fiscal do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ). “Aonde chamam a gente vai. Claro que quando começa outubro já dá uma certa ansiedade. Atualmente não fico tanto até porque temos que passar tranquilidade para quem trabalha conosco”, considera.

Confiar no próprio taco, acrescenta o psicólogo Arnaldo Vicente, é fundamental se driblar os efeitos nocivos de uma ansiedade exagerada. “Nossa cabeça faz isso. É preciso desafiar o pensamento de que as coisas darão errado e de que não somos capazes”, comenta o psicanalista.

Esse processo é denominado abstração seletiva, no caso, quando a mente desconsidera o que se tem de positivo, ao maximizar o lado negativo das situações e minimizar os recursos disponíveis para combatê-las.

Transtorno

Quando a sensação de dever não cumprido não passa, numa constante busca por agradar aos outros ou a si próprio, é melhor acender a luz amarela. “Quando sai do patamar do saudável, ocorre a ansiedade disfuncional”, explica o psicólogo Arnaldo Vicente.

Em casos assim, ensina, não há felicidade após uma meta cumprida e sim alívio momentâneo e nova batalha logo em seguida. Estabanado e agitado, o indivíduo com o chamado transtorno de ansiedade generalizada, observa o psicólogo, também atinge outro extremo: a inércia.

Temerosa com erros, simplesmente empaca diante de decisões, como um motorista em dúvida diante uma bifurcação na estrada. “As cognições ‘dizem’ que, se ela decidir, algo sairá errado. Então é buscada uma saída de alívio, não de solução”, explica o psicólogo, que recomenda ir a fundo na busca das raízes do pensamento que gera a ansiedade como forma de combatê-la e, assim, evitar problemas também físicos. “Remédio não muda pensamento”, sintetiza.

Ansiedade atinge 25% da população

Dados compilados pelo Ambulatório de Ansiedade do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, de São Paulo, apontam que 25% da população está propensa a apresentar transtorno de ansiedade em algum estágio da vida.

O quadro é caracterizado por sentimento fora de controle, com aceleração cardíaca, medo acentuado, inquietude ou até mesmo inércia perante decisões.

A também psicanalista Cecília Russo Troiano, autora do livro “Vida de equilibrista – Dores e delícias da mãe que trabalha” (Editora Cultrix), vai além. Segundo ela, as mulheres são as maiores vítimas da ansiedade, ainda mais no final do ano.

“As mulheres cuidam da casa, do trabalho, dos filhos, do marido, da organização das férias. E ainda precisam estar bonitas, com o corpo em ordem e tudo o mais. No final do ano tudo isso se acentua”, enfatiza a psicóloga.

Em casos extremos, a ansiedade pode desencadear doenças oportunistas, alerta Cecília. “A pessoa não morre de ansiedade, mas é um problema que pode, sim, debilitar o organismo de uma pessoa”, considera. “De certo modo, a ansiedade ‘mata’ no sentido figurado, pois consome muito a energia de uma pessoa que vive esse sentimento”, relaciona.