Nem mesmo na época do ano em que o mais apropriado seria aflorar o lado sentimental, como querer mais paz, amor, prosperidade e felicidade para toda a humanidade, as pessoas deixam de pensar nos bens materiais. “Mesmo nessa época, convivemos com o desejo de satisfação individual”, diz o sociólogo José dos Reis, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Araraquara.
Segundo ele, dificilmente alguém esquecerá de desejar ao próximo um feliz Ano Novo, paz, prosperidade, amor, saúde e outras manifestações parecidas. “Faz parte de uma formalidade que se tornou um hábito, que não implica em nenhum compromisso com o que se verbaliza como desejo”, frisa.
De acordo com o professor, enquanto consumidores, as pessoas são lembradas permanentemente daquilo que falta a elas. E um consumidor que gosta de estar bem atualizado sempre procura ter os mais novos lançamentos no mercado.
“Se não tenho celular, estou fora de circuito. Se tenho, não basta apenas um telefone móvel, é preciso que seja o último lançamento para não estar desatualizado dentro do grupo”, afirma.
Segundo Reis, o império do pensamento e das atitudes individualistas ganhou força a partir de meados do século passado, quando surgiram os novos padrões de marketing. O apelo ao consumismo transformou o mundo em um lugar que se mata por um tênis. “Não um tênis qualquer, mas ‘aquele’ tênis”, enfatiza.
De acordo com Mavye Padovini, responsável pelo Departamento de Marketing e Comunicação da Faculdades Integradas de Bauru (FIB), as pessoas possuem um regulador de prazeres chamado ego, que precisa ser satisfeito.
Segundo ela, é neste sentido que as propagandas da maioria dos produtos atua, mostrando que certos produtos podem dar prazer ao consumidor, sendo assim, satisfaz o ego das pessoas. Mavye diz que os consumidores são persuadidos diariamente pelo marketing e não percebem. Assim, compram determinados produtos a fim de demonstrar status, de melhorar a sua imagem perante a sociedade, movidos por impulso, motivação que muitas vezes está ligada ao lado emocional, à autoafirmação e não necessariamente a uma necessidade.
“As estratégias de marketing e as campanhas publicitárias são pensadas e criadas justamente para criar a necessidade, para incentivar as pessoas a comprarem e essa necessidade de compra dos consumidores, em geral, surge do sentimento de que algo precisa ser suprido”, afirma.
‘O presente mais gostoso é o abraço e o afeto de quem amamos’, diz psicóloga
Amar e sentir que está sendo correspondido é o melhor presente que o ser humano pode dar e receber. Para a psicóloga Gretta Souza, não há dúvidas de que é prazerosa a troca de presentes nas festas natalinas, mas receber abraços verdadeiros e o afeto daqueles que se ama é ainda mais gostoso.
Segundo ela, seria mais apropriado se cada um repensasse os seus valores e que os desejos fossem algo que abrangesse não só a si próprio, mas também a seus semelhantes. Assim, procurar fazer o melhor possível como amigo, irmão, filho, vizinho, cidadão, etc.
Gretta lembra que quando o dinheiro e os bens materiais é colocado como os elementos principais da vida, acontecem casos como filhos que matam os pais para adquirir herança e todo tipo de sequestros e assaltos.
Para a psicóloga, ter certos produtos, especialmente os que estão ao alcance de poucos, dá uma sensação de status, de poder, e faz com que as pessoas se sintam atualizadas e fazendo parte de um grupo restrito. Segundo ela, é uma forma de acariciar o ego e de aumentar a autoestima. Por isso, presentes caros são sempre cobiçados.