09 de julho de 2026
Geral

Entrevista da Semana: Emílio Brumati

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 8 min

De chapéu e botas. É assim que o jovem empresário Emílio Augusto Rosa Brumati, um dos nomes mais conhecidos da noite de Bauru e região, é lembrado pelos amigos. Com menos de três décadas de vida, ele já tem experiência e sucesso no mundo dos shows e eventos.

Como boa parte dos meninos, Emílio sonhou em ser jogador de futebol. Talento para isso ele garante que teve. “Jogava bem, mas perdi um peneirão do Matonense porque fui a uma festa e não consegui acordar cedo no domingo para o teste”, recorda-se.

Com o futebol transformado apenas em hobby, a paixão pela vida simples do campo e os cuidados com os animais tomaram conta do tempo da adolescência do entrevistado, que gostava mesmo era de rodeios e festas, muitas festas.

Aos seus vinte e poucos anos, Emílio embarcou em uma aventura pela região Norte do País. Em meio à natureza selvagem, em uma terra onde a lei é o gatilho, ele foi administrar a fazendo de um tio no Acre. “Lá vivi grandes aventuras. Até fui preso porque tentei trazer a pele de uma onça de lá para cá”, lembra.

De volta à região, o menino de Pederneiras comprou o Rastro do Cowboy e consolidou seu nome com o sucesso dos shows e eventos realizados pela Casa. Conheça esta e outras histórias lendo os principais trechos da entrevista que Emílio Brumati concedeu ao Jornal da Cidade.

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Jornal da Cidade - Como surgiu a oportunidade de trabalhar com eventos?

Emílio Augusto Rosa Brumati - É uma longa história. Há cinco anos eu trabalhava com gado. Sempre vivi no meio do mato mexendo com animais. Um tio meu comprou uma fazenda no Acre e fui administrá-la. Fiquei seis meses morando no meio da selva e como eu sempre soube dialogar com as pessoas, fiquei sabendo por meio dos funcionários que esse gerente havia comprado terras e adquirido sementes para começar a plantar. Nesse tempo, meu tio me ligou e contei tudo o que estava acontecendo e ele me disse para voltar porque o cara iria me matar. Lá eles dizem que a lei é a do gatilho. Isso foi em 2004.

JC - Qual foi o próximo passo?

Emílio - Então, voltei a trabalhar com gado aqui na região. Viajava para o Acre a cada três meses para ver como o gado estava. Em janeiro de 2006 surgiu a possibilidade de fazer outra coisa. Já estava cansado de trabalhar com boi quando um amigo disse que eu poderia comprar o Rastro do Cowboy, já que a proprietária estava vendendo. Mas eu nem conhecia a casa. Fui até lá e gostei, mas a dona não quis vender no primeiro momento. E, quando vim da fazenda, peguei um voo com um cara que havia feito um show da dupla Bruno e Marrone, em Porto Velho. Ele estava com uma mala cheia de dinheiro e me disse que era lucro de shows. Foi quando voltei a pensar no Rastro.

JC - E voltou a procurar a proprietária?

Emílio - Na verdade ela me ligou na semana seguinte dizendo que queria negociar. Porém, consegui comprar apenas 50% da casa. Nesse período, em dezembro de 2005, estava com dificuldades de relacionamento com a minha sócia porque não concordava com o jeito dela trabalhar. Cheguei a conclusão de que, ou ela devolveria o capital dos meus 50%, ou eu compraria a parte dela. Acabei conseguindo comprar a parte dela. Eu tinha um negócio e nem sabia qual era o tipo de público que frequentava o lugar.

JC - Quais foram as grandes dificuldades?

Emílio - A antiga proprietária tinha um show marcado com a dupla Guilherme e Santiago no Águas Quentes de Piratininga para janeiro de 2006. Sempre tive uma boa intuição e sigo -a porque as coisas sempre dão certo. Mas, nesse primeiro show, choveu e não deu nada certo. Tivemos um prejuízo de R$ 35 mil. O tempo foi passando e fomos aprendendo a contratar, organizar o bar, ter contato com os empresários e até meados de 2007, quando houve a explosão da música sertaneja, eu já estava por dentro dos negócios. Precisamos aumentar a casa e trabalhamos um ano e meio só tomando prejuízo por conta disso. Mas esse período uniu nossa família.

JC - Eles trabalham com você?

Emílio - Trabalhar com casas de evento é assim. Hoje você pode ganhar R$ 100 mil e amanhã perder R$ 150 mil. Mas esse negócio gerou uma união familiar, principalmente entre meu irmão e eu. Minha mãe participa organizando o camarim e minha irmã, que é advogada, faz a parte jurídica, contratos... Aprendi até fácil, mas precisei quebrar a cara várias vezes.

JC - Arrependeu -se de trocar o gado pelos shows?

Emílio - Não, mas pensei em desistir várias vezes. Gastamos muito com a reforma e o retorno de dois shows não foi o esperado. Sofremos com a venda de convites falsos e levamos prejuízo de mais de R$ 250 mil. Neste momento, ou eu venderia o lugar ou passaria a administrar de forma diferente. Foi quando meu tio e um amigo me ajudaram com uma consultoria e me aconselharam a administrar a casa do meu jeito e com minha família. As coisas começaram a dar certo. Hoje, o Rastro tem capacidade para 15 mil pessoas, cobertura para quase cinco mil e uma área nova para mil e duzentas pessoas. Hoje, nossa organização está tão boa que fazemos rodeios na região e ajudamos as prefeituras a organizar essas festas. O segredo está na união da família e na honestidade.

JC - Tem histórias marcantes no trabalho com os eventos?

Emílio - Tenho muitas. Um aperto legal que passamos foi em 2009 no show do Vítor e Léo. Estávamos vendendo muitos ingressos e a dupla não chegava. O show estava marcado para às 23h e às 2h eles ainda não estavam no palco. O público já estava para lá de impaciente... Subi no palco, peguei o japonês que era o produtor da dupla, abri a cortina e ameacei jogá -lo para o plateia. Foi engraçado porque em cerca de cinco minutos o show começou. Mas precisei perder a calma, coisa que tenho bastante...Isso correu nos bastidores e os produtores e os artistas ficavam brincando comigo por causa disso.

JC - Você ainda é muito jovem e já tem sucesso nos negócios. Acredita que amadureceu cedo?

Emílio - Meu pai faleceu quando eu tinha 18 anos e passei a ouvir que era o homem da casa. Mas antes disso, aos 15 anos, eu já trabalhava. Acordava às 5h e atravessava Pederneiras de bicicleta com marmita nas costas para enrolar peças. Nunca gostei de depender dos meus pais. Quando criança, eu sonhava em ser jogador de futebol, mas como não deu certo, aos 17 anos eu já estava interagindo no meio do gado. Era meio peão mesmo, arteiro (risos).

JC - Você não fez faculdade como seus irmãos?

Emílio - Confesso que nunca gostei de estudar, embora tivesse oportunidade. Meus avós guardavam dinheiro para pagar nossos estudos, mas terminei o ensino médio na marra. Sempre soube e me dediquei a outras coisas. Uma coisa que não tenho é medo do trabalho. Se tiver que capinar, eu vou...

JC - Passou por muitas aventuras cuidando do gado no Acre?

Emílio - A primeira vez que fui para o Acre eu tinha 19 anos e fiquei por lá apenas 15 dias. Foi bom porque meu pai faleceu duas semanas depois da minha volta. Se não tivesse voltado, certamente não estaria com ele. Não sei se foi intuição, mas sempre pedi a Deus para que estivesse por perto na partida de meus pais. Bom, voltei em 2005, já mais adulto. Meu tio tinha uma casa em Manaus para onde eu sempre ia. Nessas viagens, os funcionários ligavam dizendo que uma onça havia comido um bezerro. Isso aconteceu algumas vezes, então, pedi para matarem o bicho. Nunca havia visto uma onça, tirei todo o couro dela para trazer para cá, já estava de viagem marcada. Na ida para o aeroporto acabei sendo preso pela polícia ambiental.

JC - Imagino seu desespero.

Emílio - Chorei o dia todo. Estava sozinho naquele lugar. Para você ter noção, eu estava há seis meses longe de casa e virei notícia policial na região. A TV e os jornais de lá deram a notícia dizendo que um jovem do interior de São Paulo havia sido preso com uma pele de onça. Consegui vir embora, mas hoje não mato nem um pardal (risos).

JC - É um bom jogador de futebol?

Emílio - Jogo sempre. Chego a praticar todo fim de semana e minha namorada até acha ruim (risos). Mas gosto muito de futebol, tanto que disputo até três campeonatos por ano, aqui e em Pederneiras. Realmente eu achava que iria ser jogador de futebol. Tive uma oportunidade e deixei passar por causa da balada. Em 1998 ou 1999 teve um peneirão em Pederneiras e eu estava praticando direcionado como zagueiro para o time da Matonense. Fui em uma festa no sábado e não acordei no domingo para o teste. E já estava indicado.

JC - Sempre foi baladeiro?

Emílio - Muito. Tinha uma turma com cerca de 30 garotos e todos mais velhos. Eles dirigiam e me levavam para as festas. Mas nunca fui de fumar ou beber. Meu pai era alcoólatra e isso me deixava triste. Então não bebia.

JC - Projetos novos?

Emílio - O Rastro do Cowboy se tornou um nome importante para Bauru, uma referência em casa de shows. Acho que é um mérito legal do nosso trabalho. Gosto de novidades e renovações e acredito que isso é o que faz uma casa de show dar certo. Quem sabe não levo a casa para outras cidades, como Lins e Marília. É um projeto para o futuro.