São Paulo - O presidente Lula disse em entrevista a uma TV exibida na madrugada de ontem que poderá se candidatar novamente ao cargo, uma declaração que pode enfraquecer sua sucessora eleita, Dilma Rousseff. Lula deixará o cargo em 1 de janeiro com um índice de aprovação superior a 80%. Pela Constituição, ele não pôde disputar um terceiro mandato, por isso indicou sua ex-ministra Dilma.
Questionado numa entrevista à RedeTV sobre sua intenção de voltar futuramente ao cargo, Lula respondeu: “Não posso dizer que não porque sou vivo. Sou presidente de honra de um partido, sou um político nato, construí uma relação política extraordinária”, disse.
Lula, de 65 anos, nunca negou totalmente a hipótese de voltar à Presidência, mas essa foi a declaração mais explícita até agora de que poderá disputar novamente o cargo.
A admissão de Lula sobre um eventual retorno pode dificultar para Dilma firmar sua imagem independentemente do presidente, que teve grande influência na eleição da sucessora.
Aparentemente ciente da repercussão que a declaração teria, Lula disse ao entrevistador: “Eu fico até com medo, hoje alguém vai assistir à tua entrevista, e dizer que Lula diz que pode ser candidato.”
Mesmo assim, ele continuou discutindo essa hipótese, e concluiu: “Vamos trabalhar para a Dilma fazer um bom governo e, quando chegar a hora certa, a gente vê o que vai acontecer.”
Ontem, na última reunião do ano com a Executiva Nacional do PT, o presidente Lula pediu ao partido que se dedique a três prioridades no primeiro ano do governo de Dilma Rousseff: reforma política, marco regulatório dos meios de comunicação e programas para a juventude.
“Quero ver quem vai afinar, hein?”, disse Lula, segundo relatos de participantes do encontro, quando citou a polêmica proposta de regulamentação da mídia. O projeto que cria o marco regulatório da comunicação eletrônica ainda não foi enviado ao Congresso, mas já desperta desconfianças sobre o interesse do governo em relação ao controle social da mídia.
Ao abordar o assunto com os petistas, no Palácio da Alvorada, Lula deixou claro que nem ele nem Dilma nunca planejaram censurar a liberdade de expressão. Para o ministro da Comunicação Social, Franklin Martins, o marco regulatório “vai garantir a concorrência, a competição, a inovação tecnológica e o atendimento ao direito da sociedade à informação’”
A 11 dias de deixar o Palácio do Planalto, Lula também pediu aos companheiros do PT que parem de brigar internamente e também com os outros aliados, principalmente do PMDB, por cargos no primeiro escalão.
Também ontem, a se despedir dos oficiais generais no tradicional almoço de fim de ano, no Clube Naval, o presidente Lula agradeceu o tratamento “respeitoso e leal “ dos militares e disse que foi preciso ele chegar à Presidência da República para reconhecer a competência e o potencial dos militares. Lula lembrou que está terminando seu governo com 87% de aprovação, e atribuiu esse resultado a “muito trabalho”.