09 de julho de 2026
Rural

Brasil está entre os menos vulneráveis ao custo da comida


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O consumo crescente dos países emergentes, o maior volume de safras voltadas para a produção de biocombustíveis e também o custo elevado de insumos como o petróleo sugerem que, no longo prazo, os preços dos alimentos seguirão uma tendência de alta.

Um relatório elaborado conjuntamente pela FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) e pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) prevê que o preço médio do trigo e de outros cereais nos próximos dez anos será de 15% a 40% mais alto em termos reais (ou seja, descontada a inflação) em comparação à média do período que vai de 1997 a 2006.

Um aumento como esse teria impacto particularmente negativo sobre os países que não são grandes exportadores de produtos agrícolas e em que a maior parte da renda das famílias é dedicada à compra de comida.

Segundo um levantamento do banco japonês Nomura, o Brasil estaria entre os 20 menos afetados, já que suas exportações de gêneros alimentícios superam o volume de importações e aproximadamente 21% da renda das famílias brasileiras é destinada à compra de comida.

A Nova Zelândia seria o país menos vulnerável ao aumento no custo dos alimentos, seguida por Uruguai e Argentina. O Brasil seria o 15º menos afetado, uma posição atrás dos EUA.

A Índia, a Rússia e a China estariam entre as 30 nações que seriam mais afetadas. Bangladesh - país asiático com aproximadamente 160 milhões de habitantes - lidera o ranking, seguido por Marrocos e Argélia. Os indianos, por exemplo, precisam gastar quase 50% de sua renda para se alimentar. Entre os chineses esse número cai para aproximadamente 40%.

“A Índia e a China são países com populações muito grandes que estão crescendo e vão demandar mais comida”, disse a economista Ignez Vidigal Lopes, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas.

Ela alertou que a produção de alimentos é norteada pelas tendências de consumo atuais, não pelas futuras, e que essa dinâmica tem funcionado sem causar aumentos drásticos nos preços. “Vemos que a China, em pouco mais de uma década, incorporou 500 milhões de consumidores que foram do meio rural para o urbano” sem grandes impactos, acrescentou.

Demanda

Mesmo que o crescimento da demanda seja lento e os produtores possam se preparar, o aumento nos preços é uma perspectiva lógica, de acordo com o coordenador do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) da Fipe, Antonio Evaldo Comune.

“É correto a gente esperar preços crescentes, porque mais gente está demandando uma capacidade limitada de produção e os nossos recursos são limitados”, disse.

Ele acrescentou que a China ainda precisa inserir uma grande parcela da população no mercado, o que deve elevar ainda mais o consumo de comida no país e, consequentemente, puxar os preços para cima.

Alimentos mais caros, no entanto, afetam diretamente a quantidade de pessoas que passam fome no mundo. Em 2010, houve o primeiro declínio em 15 anos nesse número, para 925 milhões de pessoas, ante mais de 1 bilhão em 2009.

Parte da redução foi resultado da comida mais barata em decorrência da crise financeira de 2008, segundo dados da FAO. O outro fator responsável foi a retomada do crescimento econômico na maioria dos países.

A inflação dos alimentos também pode trazer benefícios a alguns segmentos. De acordo com Ekaterina Krivonos, representante de comércio e mercados do escritório regional da FAO para América Latina e Caribe, preços mais altos para a comida “representam uma oportunidade para a agricultura familiar e os pequenos produtores, mas é fundamental que existam políticas e leis para que os benefícios alcancem esses grupos, como medidas que ampliem o acesso a recursos produtivos, a mercados institucionais e a novas tecnologias”.