08 de julho de 2026
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Treinamento na mata testa limites de futuros comissários

Por volta das 4h da madrugada de sábado, uma turma de jovens, entre 18 e 29 anos, a maior parte mulheres, aglomera-se em frente a um antigo sobrado pintado de verde na rua Arthur de Azevedo, em Pinheiros (São Paulo). A primeira impressão é de se estar diante da movimentação de uma casa noturna, apesar das mochilas que eles carregam. Um rapaz acompanhado de três amigos se aproxima do repórter e pergunta, animado e aparentemente alcoolizado: "Está rolando alguma festa?". A resposta foi negativa, para tristeza do festeiro, acrescida da explicação: "Eles vão participar de um treinamento".

A agitação e o burburinho acabam com o sossego naquele trecho da rua por uma hora duas vezes ao ano, quando o Centro Educacional de Aviação do Brasil (Ceab) promove o treinamento de comissários de bordo para sobrevivência na selva, no mar (marinharia) e combate ao fogo. Cerca de 190 alunos da escola partiram em direção a Juquitiba, no sul do Estado de São Paulo, para ter aulas sobre armadilhas para caça, sinalização diurna e noturna, primeiros socorros, navegação com bússola e resgate, entre outras atividades.

Disciplina e organização são as palavras de ordem, literalmente, dadas aos gritos dos instrutores para que a turma faça silêncio e se organize em grupos. A divisão é feita ainda na cidade, cada um recebe um número e por meio deste será identificado até o final do treinamento, o que gera momentos de distração por causa da lembrança do filme "Tropa de Elite 1". Ironia do destino ou não, o número um faltou, não teve que pedir para sair. No total, são 12 os grupos, e um membro é escolhido para ser o responsável pela turma.

Os grupos são acompanhados de perto por guias, que são ex-alunos da escola. Ela foi fundada em 1998 e forma em média dois mil alunos por ano. No curso, exigido pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) para a emissão da licença para exercer a profissão, estão incluídas disciplinas como postura e etiqueta, maquiagem, conhecimentos gerais de aeronaves, antiterrorismo e serviço de bordo.

Segundo o diretor da escola e um dos instrutores do treinamento, Salmeron Cardoso, o Ceab observou este ano um aumento de 20% na procura pelos cursos de comissário de bordo em relação ao ano passado.

"Devido à expansão econômica do País e aos eventos que serão sediados nos próximos anos aqui, as companhias aéreas estão crescendo e investindo em uma melhor infraestrutura, além de aumentar o número de contratações", diz.

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Limites


A chegada ao local de treinamento, uma chácara à beira da rodovia Régis Bittencourt , foi às 7h30. O local fica num trecho ainda preservado de Mata Atlântica. Os alunos mal têm tempo para esticar as pernas ao saírem dos ônibus. Organizados em filas, os futuros comissários escutam Salmeron explicar as regras do treinamento. A primeira é a proibição de se alimentar até o final do curso, previsto para às 20h30. Além disso, todos os grupos e seus integrantes começam com 10 pontos, e as penalidades são descontadas da pontuação geral. Em caso de não participar de alguma das provas ou terminar o treinamento abaixo de seis pontos, o aluno pode ser reprovado.

"As pessoas não são confiáveis", diz Salmeron aos chefes de equipe antes do início da trilha, em um círculo separado do restante do pessoal, para provocar conflito e aproximar o treinamento à tensão de uma situação real de acidente aéreo. Em seguida, já se dirigindo a todos, o instrutor avisa qual é o objetivo latente do treinamento. "A ideia é que vocês conheçam seus limites." Para duas mulheres, escolhidas aleatoriamente, porém, o limite já parecia próximo desde aquele momento. Ao menos era o que demonstravam, com expressão de nojo e repugnância à tarefa que lhes foi atribuída: carregar uma galinha viva e amarrada durante todo o dia, garantindo alimentação ao grupo em caso de emergência.

Depois de quase uma hora de caminhada mata adentro, o grupo para no topo de um morro à espera das instruções dos dois policiais militares do Grupo de Operações Especiais (GOE). Eles darão as aulas sobre sobrevivência. No cardápio improvisado no meio do mato, cobras, lagartos, tatus, pássaros, entre outros, são iguarias e que podem salvar vidas. Nascimento alerta para os bichos potencialmente venenosos: "Animais com cores berrantes, como amarelo, vermelho ou preto, devem ser evitados."

A fase seguinte fica sob a responsabilidade do soldado Renato Moreira Cardoso, que dá as instruções sobre como preparar fogueiras, montar abrigos usando folhas de bananeira e bambu e localização por meio de bússola e espelho localizador, que pode ser substituído pelo disco rígido de um computador pessoal, cujo papel é fazer focos de luz para aeronaves identificarem os perdidos na selva. "Vocês estão aqui para se formarem gerentes de uma crise", explica Cardoso, acrescentando que o objetivo é "sobreviverem até a chegada do resgate".

No saldo do treinamento em questão, quatro alunas desmaiaram. Uma teve de ser levada ao pronto-socorro de Juquitiba com quadro clínico de hipotermia porque os instrutores não conseguiram reanimá-la no local. Os grupos têm de apagar com extintores um incêndio provocado no meio de um pátio.

Depois, eles devem enfrentar a casa de fumaça, que simula um avião em chamas logo após a queda. As regras são: mão direita com a mão esquerda do companheiro, ninguém pode soltá-las até sair do local; para sair da casa é necessário antes responder a três perguntas feitas por Salmeron sobre matérias do curso. Sem a resposta certa, a porta permanece fechada e o grupo, enclausurado. "O último, por uma questão de educação, porque vocês tiveram aula de etiqueta no curso, vai fechar a porta", brinca o instrutor.