"Todos estamos revoltados, mas é hora de nos unir e buscar paz de espírito. A violência está em todo lugar e fez do Pedrinho uma vítima. Ele era um homem de fé, foi embora antes do que a gente queria, mas cumpriu sua missão na Terra". Foi em clima de indignação e, ao mesmo tempo, de busca por conforto, que familiares e amigos do administrador de empresas Pedro Amaral Júnior, 27 anos, acompanharam o sepultamento do jovem, no Cemitério da Saudade, ontem.
Pedro - ou Pedrinho, como era chamado na intimidade - foi morto na tarde de anteontem enquanto trabalhava na oficina mecânica de sua família, na quadra 6 da rua São Vicente, na Vila Bela. Segundo informações da polícia, ele foi atingido por dois disparos na altura das costas. Até ontem, a Delegacia de Investigações Gerais (DIG), que assumiu o caso, ainda não tinha pistas dos assassinos
O discurso transcrito acima, proferido pouco antes do enterro pela tia da vítima, Carmen Fátima do Lago Manso, deu o tom de consternação diante da tragédia que entrou para a estatística como o primeiro homicídio registrado em Bauru em 2011. De acordo com Carmen, o jovem era uma pessoa tranquila e que não possuía inimigos.
Por este motivo, a família acredita que ele tenha sido morto em uma tentativa frustrada de assalto e descarta a hipótese de homicídio por execução. "Ele era simples no modo de ser, bem introspectivo, mas nunca se envolveu em brigas. Era uma pessoa maravilhosa. Ninguém sabe o que aconteceu", observa a tia.
Embora ela tenha destacado a importância da busca por conforto neste momento difícil, parentes de Pedro demonstraram indignação diante da forma brutal com que o administrador de empresas foi morto. Diante da lápide da família, onde Pedro foi enterrado, a prima Érica Amaral, 29 anos, questionava as condições de segurança oferecidas pelo poder público e o papel das entidades de defesa dos direitos humanos.
"Uma família está despedaçada agora. A gente sabe que tem quem defenda os criminosos, mas ninguém defendeu meu primo. Ele era uma pessoa do bem, não havia nada que pudesse depor contra ele", conta, ainda revoltada.
"Valores invertidos"
Segundo ela, no dia do crime, toda a família passava férias na praia de Ilha Comprida, como costumeiramente faz nesta época do ano. Pedro, no entanto, teria decidido ficar em Bauru para ajudar o pai, Pedro Amaral, na oficina e fazer companhia para a namorada, com quem se relacionava há pouco mais de dois meses.
"Ele era responsável, deixou de viajar e ficou trabalhando. Mas os valores estão cada vez mais invertidos: gente de bem é prisioneira porque não tem segurança nenhuma e, se não tiver sorte, acaba morrendo. Enquanto isso, os criminosos estão soltos, impunes", reclama outro primo da vítima, Vitor Freneda, 31 anos.
Segundo amigos de infância e da época de faculdade, o jovem nunca demonstrou comportamentos agressivos que pudessem explicar uma eventual morte por vingança ou acerto de contas. "Ele era alegre, divertido, se dava bem com todo mundo. Quando os colegas ficaram sabendo do ocorrido, todo mundo ficou chocado. Acho impossível que alguém tenha matado ele por alguma desavença anterior", analisa Hélder Luiz Julião Rosa Junior, 33 anos, que se formou em administração de empresas junto com Pedro, em 2006.
Maurício Donaire Romano, 24 anos, conhecia a vítima há mais de 10 anos e, pela docilidade com que o jovem sempre tratou os amigos, acredita que ele tenha sido vítima de assalto e nem mesmo tenha tentado reagir ao ser rendido. "Ele era calmo demais, fugia de qualquer conflito. Acho que ele se assustou quando foi abordado e deve ter feito algum movimento brusco, sem querer. Não tem outra explicação para o que aconteceu", considera.
DIG ouvirá testemunhas e poderá fazer retrato falado
Dentro dos próximos dias, a Delegacia de Investigações Gerais (DIG) deverá ouvir duas das principais testemunhas do assassinato do administrador de empresas Pedro Amaral Júnior, 27 anos. Trata-se de um casal que chegava na oficina mecânica - onde o crime ocorreu - no momento em que um homem teria saído correndo de dentro do estabelecimento. Ele teria seguido em direção a outro homem que o aguardava em uma motocicleta alguns metros adiante.
De acordo com as características físicas preliminarmente fornecidas pelas duas testemunhas, que tiveram as identidades preservadas, o primeiro suspeito é um rapaz gordo, alto e de cabelos encaracolados. O condutor da moto seria moreno e magro.
"Inicialmente, estamos trabalhando com essa descrição. Mas o aprofundamento das investigações depende da formalização dos depoimentos dessas testemunhas, de parentes e conhecidos da vítima. E isto deverá ser feito em breve", pontua o delegado Cledson Luiz do Nascimento, da Delegacia de Investigações Gerais (DIG). Num primeiro momento, no entanto, ele informou ter optado por respeitar o luto da família.
Quando as testemunhas forem ouvidas e caso nenhum suspeito tenha sido localizado até lá, a delegacia poderá divulgar um retrato falado para tentar facilitar a identificação dos autores do crime. "Nós dispomos de programas que geram esses retratos falados de acordo com as características fornecidas pelas testemunhas. E as imagens, geralmente, se aproximam bastante da fisionomia real dos suspeitos", frisa o delegado.
Segundo Nascimento, o mecânico Neimar Rocha dos Anjos, 27 anos, que chegou a ouvir os tiros enquanto consertava um veículo nos fundos da oficina e foi o primeiro a socorrer Pedro, também deverá ser chamado para prestar depoimento. "Mas, informalmente, ele já adiantou que não viu os criminosos, apenas a vítima já ferida, pedindo socorro. Por isso, estamos contando com as informações das testemunhas que chegaram a ver os dois homens nas imediações do estabelecimento", considera.
Embora familiares afirmem que o administrador de empresas não possuía desafetos, Cledson observa que a hipótese de homicídio por execução ainda não foi afastada das investigações, mesmo que, aparentemente, nenhum objeto tenha sido levado do estabelecimento.
"A possibilidade de latrocínio (roubo seguido de morte) não foi descartada, assim como a de homicídio. Inicialmente, nenhum valor ou bem foi subtraído da oficina, nenhuma gaveta ou armário foi remexido, mas não podemos tirar conclusões precipitadas porque ainda não temos confirmação da família de que realmente nada foi levado", esclarece.