08 de julho de 2026
Regional

Laboratório que cria vespas é atrativo na cidade de Lençóis

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 7 min

O controle biológico das pragas da cana-de-açúcar não é novidade, existe há mais de 30 anos e consiste em produzir em laboratório um inimigo natural para combater a praga e preservar a cana. A novidade é que um desses laboratórios, em Lençóis Paulista (43 quilômetros de Bauru) virou ponto turístico e faz parte do Circuito Turístico "Caminhos do Centro-Oeste Paulista".

A visita ao local é antes de tudo uma lição de biologia e para aqueles que gostam de acumular conhecimentos, uma oportunidade de conhecer como nascem e os tratamentos necessários para se ?criar? uma vespinha que salva a colheita de cana.

Um passeio por Lençóis Paulista que, na década de 30 era apenas Lençoes, também proporciona uma volta ao passado do município colonizado por italianos e chances de conhecer coisas diferentes. Há como visitar o Espaço Cultural Cidade do Livro; o Museu "Alexandre Chitto", a vinícola Casagrande; o Santuário Nossa Senhora da Piedade, o Grupo Lwart e o laboratório Cetma.

Uma vespinha que necessita do corpo da praga para se desenvolver e se multiplicar é a grande arma natural encontrada pelos biólogos para salvar os canaviais, explica Antonio Marino Coneglian. "A vespinha que produzimos é um parasita que precisa do corpo do inseto para poder se desenvolver e se multiplicar. Ela parasita a broca na fase de lagarta impedindo que a praga se multiplique. Há um corte no ciclo dele."

De acordo com o biólogo, na região de Lençóis Paulista há uma área extensa de cana-de-açúcar, cerca de 120 hectares, que podem ter a produção comprometida sem o controle biológico da broca da cana. "A praga tem características próprias que impedem o controle químico. Ela passa a maior parte de sua vida dentro da cana inviabilizando o combate químico aéreo."

A vespinha incorporada no ecossistema do canavial é mais um agente de combate à praga, enfatiza Coneglian. "O controle biológico consiste na criação desse inseto que é inimigo da praga. Somado aos demais agentes naturais, impede os danos na cana. A perda depende do nível de infestação da broca. Com 1% de infestação, a perda é de 0,25% de álcool e 0,30% de açúcar que pode chegar a 20 toneladas de cana."

O resultado do controle biológico não pode ser analisado de um ano para outro, adverte Coneglian. "O resultado não é a curto prazo, tem que analisar o histórico. Historicamente, o índice de broca na cana-de-açúcar vem sofrendo queda. Há 20 anos era de oscilava na casa dos 20%. Há 10 anos, entre 7 e 15% e hoje, entre 2 e 5%. O que demonstra que o controle biológico está se consolidando além de preservar a natureza que fica livre dos produtos químicos."

Ele explica que a cana é paga pela quantidade de açúcar contida nela. "Quanto maior for o dano provocado pela broca, menor será o teor de sacarose da cana. A broca é um inseto do grupo das borboletas e mariposas. Na fase adulta coloca os ovos na folha da cana. Desses ovos nascem as lagartas que vão para o gomo da cana fazendo verdadeiras galerias internas. Para sair do gomo, a broca faz um buraco, fura a casca e é por essa porta que entram outros agentes de contaminação. Ela usa a sacarose para se multiplicar. O dano direto é o que a broca faz. O indireto é o que o fungo faz a partir do orifício da praga."

A criação da vespa em laboratório não causa desequilíbrio ao ecossistema, ressalta o biólogo. "A vespa depende do corpo da praga para se desenvolver. Se não tiver a praga, ela não se multiplica. É quase impossível existir uma superpopulação do inseto sem a praga. Com o controle biológico não há efeito colateral."

É na fase adulta da vespinha que ela ataca a larva da broca que está na fase jovem. "Na prática, um técnico pega os copos contendo as vespas e caminha pelo canavial, onde um levantamento anterior já detectou o índice da praga, e vai soltando os insetos.


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Produção

O laboratório de Lençóis Paulista produz de 30 a 50 mil copos de vespas adultas por mês. É considerado de pequeno porte e um dos únicos no País a permitir visitas. "A unidade de medida adotada são copos de 180 ml. Cada um deles tem 30 massas e cada massa 50 indivíduos ou sejam 1.500 vespinhas. Para cada hectare de cana é recomendado quatro copos de insetos."

O processo é todo manual e exige a paciência das mulheres no manuseio de milhares de brocas e vespas todos os dias. A produção ocorre em três fases. "Primeiro é produzido uma dieta artificial composta de farelo de soja, germe de trigo, levedo de cana, sais minerais, vitaminas, proteínas, água e um gelificante. A dieta que lembra muito um doce de leite é produzida em cubos ou na forma líquida colocada em frascos. Esse alimento é servido na segunda fase da criação da praga que é oferecida para a vespinha."

A criação de vespas não tem bem um começo, são ciclos biológicos. "Temos que manter a fase dos dois insetos tanto da vespa como da broca. Se escolhermos um ponto de partida, a primeira coisa que tem que produzir é o ovo da broca para poder inocular depois no frasco com a dieta. As lagartas crescendo dentro do frasco, uma parte é direciona para ser mariposa, para botar ovos de novo, cerca de 5%, para manter o ciclo. A parte maior vai para as vespinhas fêmeas picaram e injetam ovos dentro dela."

As brocas, com os ovos inoculados, se alimentam por mais 10 dias e em seguida encerram as atividades. Vão morrendo enquanto que as vespinhas se desenvolvem dentro da lagarta. Saem da lagarta e formam um casulo em volta de si, com 50 a 100 indivíduos que ficam na massa do casulo.

Nessa fase, as vespinhas são retiradas e passam por uma ?limpeza? quando são separadas dos restos de dieta e broca. Vão para os copinhos, caso o destino seja os canaviais, ou para caixinhas, se ficarem para voltar ao ciclo.


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Fase adulta dura no máximo cinco dias


O ciclo de vida da vespa é pequeno, não ultrapassa os 20 dias. Na fase de ovo dura de três a cinco dias. A larva, de 12 a 20 dias dentro da broca. No casulo dura mais 10 dias. Fora do casulo tem vida útil de cinco dias, depois sofre morte natural.

"Os dois primeiros dias de vida fora do casulo são os ideais para a vespa ir para a lavoura. O inseto é sensível aos raios solares e exigem o frescor da manhã para se adaptarem aos canaviais."


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Região de Lençóis
tem cerca de 120 mil hectares de cana

A região de Lençóis Paulista agrega uma área de aproximadamente 120 mil hectares de cana. Lençóis Paulista, Pederneiras, Macatuba, Areiópolis, São Manuel, Avaré. Em toda essa área há pelo menos 20 variedades de cana.

Com toda essa ?floresta? de cana, os laboratórios que criam o inimigo natural da broca se tornaram essenciais. Muitos deles estão instalados no interior das usinas e não permitem o acesso por causa das contaminações. O Cetma aceita visitas agendadas. O telefone é (14) 3263-2851.


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Espaço Cultural do Livro

Ainda em Lençóis Paulista, o turista poderá conhecer o Espaço Cultural Cidade do Livro que abriga obras raras e únicas datadas do século XVI. Arquivos pessoais de escritores nacionais e regionais consagrados e para as crianças espaço com biblioteca infantil e brinquedoteca. Durante a visitação é possível assistir à "Hora do Conto". Anexo, O Centro de Documentação Histórica com amplo acervo preservado.

A maior empresa de coleta e rerrefino de óleos lubrificantes usados, do Grupo Lwart abre suas portas para os turistas conhecerem o processo produtivo, o viveiro florestal e as fábricas de celulose e de impermeabilizantes para construção civil.

Na Vinícola Casagrande, o visitante vai conhecer a plantação e produção de vinho artesanal, feito por família italiana. O turista poderá adquirir vinhos produzidos no local.

Para fechar o circuito na cidade, o turista pode visitar o Santuário Nossa Senhora da Piedade construída na década de 50. Lá, além dos vitrais e da imagem de Pietá é possível conhecer a réplica da Cátedra (cadeira), produzida na cidade e utilizada pelo Papa Bento XVI em sua última visita ao Brasil.