Brasília - Não é raro ex-presidentes, ao se afastarem do poder, mencionarem certa estranheza com a prática de atividades cotidianas, como lavar a louça ou abrir portas com as próprias mãos. Mas, na primeira semana como ex-presidente, Luiz Inácio Lula da Silva não pode reclamar das tarefas da vida civil: longe do Palácio do Planalto, viveu ainda a rotina presidencial.
Lula manteve práticas da época de governo: passou férias em instalações do Exército, respaldado por funcionários da Presidência - ex-presidentes têm direito a contratar até oito assessores. Viu-se envolvido em polêmicas, como a concessão de passaportes diplomáticos para seus filhos, e acompanhou o desdobramento de medidas tomadas por ele ainda na Presidência, como o caso Cesare Battisti.
Até ex-ministros de Lula continuaram "trabalhando" pelo ex-presidente, ainda que no governo Dilma. Na quinta-feira, o titular da Educação, Fernando Haddad, contatou por e-mail o reitor da Universidade Federal do ABC, Helio Waldman, para iniciar diálogo sobre a criação de um memorial Lula.
Em meio à incipiente disputa entre aliados sobre o futuro de seu acervo, o petista passou a primeira semana num cenário de sol, mar e alguma chuva, degustando linguiças, queijo coalho e "cervejinhas". Do Forte dos Andradas, base do Exército no Guarujá, litoral paulista, conversou com amigos envolvidos com o projeto do memorial e do Instituto Lula. Os contatos foram feitos por intermédio da segurança e com certa dificuldade, já que celulares e até a internet não estavam com bom sinal.
Retorno
Na véspera da volta a São Bernardo do Campo, Joana, funcionária do ex-presidente há cerca de 20 anos, organizava caixas com mudanças que chegavam ao apartamento 122, uma das coberturas de 186 m² do edifício Hill House, comprado em 1996.
Amigos apareceram para deixar presentes. O ex-metalúrgico Juno Rodrigues Silva, o Gijo, levou para lá a chuleta paulista, pronta para ir ao forno.
Depois de 2.920 dias no poder, Lula aportou em São Bernardo do Campo no fim de noite chuvoso do 1 de janeiro, com a declarada missão de "desencarnar" do cargo de presidente. Demonstrando cansaço, seguiu o script dos tempos de presidência: abraçou colegas, subiu no palanque e discursou. "Volto para casa de cabeça erguida com a sensação de dever cumprido", disse para 2 mil pessoas, ao som de Como é grande o meu amor por você.
Nos dois dias seguintes, Lula parecia mesmo decidido a "desencarnar". Em casa, assistiu a TV, comeu pastel feito pela mulher, Marisa Letícia, leu os jornais. Apareceu uma única vez na varanda. Vestindo camiseta regata azul-claro, parecia à vontade com a distância do poder.