No mês de outubro passado, completei 84 anos de existência. A vida é azul. Os sonhos são possíveis. A esperança nunca abandonada lá fora. No coração na alma e no pensamento os planos para a vida. De ontem de hoje e dos amanhãs. Simples. Sem ansiedades. Com fé. Determinação. Cheguei aos 84 superando todas as dificuldades quando compreendi quem sou e para o que estou. Lendo muito e observando humanos, bichos, natureza e horizontes. Sem temer as minas sob meus pés e suas explosões. A ousadia e a vontade de viver a me levar pra frente, empurrando para o abismo dos fracos as pedras nos meus caminhos. O exercício, ao empurrá-las, tornou-me forte física e moralmente. Encontrei as ferramentas no ABC dos livros.
Amor Bondade e Caridade, unidas à Coragem. Tropecei e cai muitas vezes. Por meus erros, traições e agressões morais e físicas. Sempre me levantei e perdoei, acrescentando mais amor e tempo em minha vida. Abatido somente quando pessoas amadas partiram para outras dimensões. Não com raiva ou medo da morte que é natural e não misteriosa e cruel como a supomos. Passei pela experiência da quase morte mais de uma vez. A saudade é que me abalou. Estudei-me e continuo a me estudar para descobrir mais o que sou e para o que continuo. Como a consciência aconselha, para ser solidário e, principalmente, amar ao próximo como a mim mesmo. Benigno e paciente. Plantar árvores e ter minhas calçadas sempre limpas. Ainda tenho tanto a fazer e tantas calçadas para varrer... E vou fazer, e vou varrer! Que meus companheiros idosos sejam respeitados por tudo que construíram e ainda construirão. Que a moçada de hoje descubra nos jovens de ontem a coragem de escalar o futuro com honestidade e dignidade. Pais, avós e bisavós que fizeram de suas vidas lendas de feitos heróicos. Que nunca se drogaram.
Que a moçada de hoje se espelhe neles, respeitando-os para merecerem o mesmo respeito quando se tornarem idosos. Lembro-me dos meus amados que estão do outro lado da vida, do afeto que lhes dediquei e das cadeiras que ajeitei para sentarem. Das suas narrativas das guerras, revoluções e lutas pela sobrevivência que lhes deixaram ferimentos no corpo e na alma. Que a moçada de hoje não invada as "vagas para idosos". Ocupem, sim, essas "vagas" com o carinho, o amor e o respeito. Que os considerem por estarem esquecidos, por ouvirem pouco, ou por serem conselheiros dos propósitos que a vida promete. Não os chamem de velhos. Velho não existe! Nem o tempo é velho; é apenas o passado. A história. Os exemplos. Nem o Sol é velho, permanece a aquecer. Nem a Lua é velha, continua a inspirar romances. Não como no tempo das serenatas, o que é uma pena, mas continua.
Coisas usadas, objetos, é que ficam velhos. Idosos não são coisas. Vive ainda para filosofar, semear, colher e dividir o trigo e o saber. Aos predestinados, escrever sobre a dádiva de respirar e as avenidas para as estrelas. A distinção entre o bem e o mal. Que mãos espalmadas não empunham armas. O sorriso é a amizade se oferecendo. Cada idoso é um capítulo da história, personagem principal das novelas reais da vida plenos de alegrias, dores, tristezas, decepções e sucessos. Se cada idoso escrevesse a sua novela, enriqueceria a literatura universal com a filosofia em que viveu.
Não. Não me esqueci de Deus. Desde moço sempre conversei com Ele.
Sem pretender comparação, Ele é idoso e Mestre Jesus Cristo é moço.
Somos o que somos moços e idosos por Suas graças e bênçãos.
Conhecer os caminhos não é o bastante. O importante é saber caminhar.
Que a moçada se volte para o futuro construído pela moçada de ontem, que são, simplesmente, os idosos de hoje.
Assim aconteça.
Munir Zalaf - membro da Academia Bauruense de Letras, poeta, escritor e palestrante voluntário