11 de julho de 2026
Bairros

Moradores de rua: irmandade unida na luta por sobrevivência

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

Eles acordam tarde, quando já não é possível dormir mais por conta da intensidade da luz e do calor solar. Para começar bem o dia e curar a ressaca da noite anterior, o tradicional café da manhã, composto por pão, leite ou café, é substituído por algumas doses de cachaça, quase sempre misturada com algum outro líquido, como o refrigerante, por exemplo.

Só então Adilson de Souza, 38 anos, Luiz Marcelo Vieira dos Santos, 36 anos, João Batista Mizael, 55 anos, e Lourival Jesus Ribeiro, 59 anos, moradores de uma praça localizada na rua Fuas de Mattos Sabino, no Jardim América, estão prontos para começar o dia que, como de costume, promete ser longo.

Para falar a verdade, o tempo não passa porque não há muito o que se fazer no lugar. Neste caso, brincar de tirar a sorte no palitinho é um dos passatempos prediletos do grupo.

O almoço é servido por volta das 15h. Adilson é quem prepara a comida que, quase sempre, se resume à arroz puro. "A gente come o que ganha. Dificilmente falta comida. Aliás, nem rico come o que nós comemos. Isto porque, se eles comerem, ficam com dor de barriga", brinca, exibindo a panela cheia de arroz.

Para sustentar o vício em bebida alcoólica, três dos quatro integrantes trabalham de noite, cuidando dos carros estacionados nas imediações da avenida Getúlio Vargas. O único a ficar na praça é João Batista, que já trabalhou como bancário e hoje tem aversão à labuta. "Não preciso, recebo pensão", revela.

De acordo com eles, a rotina dos moradores de rua da cidade é bem parecida. "Muda um costume ou outro, mas, no geral, vivemos de esmola, catando recicláveis ou cuidando de carros. Acontece que a hora de ?trabalho? varia de acordo com a região da cidade", explica Luiz Marcelo.

Outro costume comum aos moradores de rua é a dificuldade para tomar banho. A atividade é quase sempre improvisada e depende das fontes públicas de água para ser realizada. Já o material de higiene é mínimo.

"Nós enchemos as garrafas de água que pegamos no Bosque da Comunidade ou perto do Parque Vitória Régia e tomamos banho. Não tem segredo", explica Adilson, exibindo um pote de creme de cabelo, que ele usa como shampoo e um maço de esponja de aço.

Quem não gosta muito da rotina do quarteto são os moradores de casas próximas à praça, que chegam a registrar uma média de três reclamações por dia na Base Sul da Polícia Militar (PM).

"É que a gente não sabe com que tipo de pessoa estamos lidando. Pode ser gente do bem como também pode ser gente criminosa. É complicado, fico com receio de negar o que eles pedem e até mesmo de sair de casa quando eles estão por perto", explica uma moradora, que tem 82 anos.

Apesar do medo compartilhado por ela e seus vizinhos, o tenente comandante da Base Sul, André Saito Arachiro, afirma que boa parte dos moradores de rua do local é conhecida pela PM e não está sendo procurada pela Justiça.


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Resistência

Adilson de Souza, Luiz Marcelo Vieira dos Santos, João Batista Mizael e Lourival Jesus Ribeiro são apenas quatro dos cerca de 50 moradores de rua que se estima que Bauru tenha atualmente.

Porém, Darlene Tendolo, secretária municipal do Bem-Estar Social, aponta que estas pessoas não estão desamparadas. Elas contam com o Centro de Referência Especializado em Atendimento à População em Situação de Rua (Creas-Pop), que funciona nas dependências do Centro Espírita Amor e Caridade (Ceac) desde março de 2008, e que até 1 de janeiro deste ano chamava-se Casa de Referência.

O objetivo do projeto, que é mantido pelo governo estadual, é diminuir o número de moradores de rua e oferecer amparo e a proteção legal de seus direitos. Para isso, os funcionários da Sebes percorrem diariamente as ruas de Bauru em busca de destas pessoas e tentam convencê-las a participar do programa, que oferece aulas de artesanato, realocação no mercado de trabalho, tratamento psicológico, orientação para reemissão de documentos, entre outras coisas.

O problema é que, de acordo com a secretária, nem sempre a ajuda é aceita, e a resistência ao cumprimento de regras é o principal empecilho.

"A maioria deles é viciada em bebidas ou substâncias psicoativas e associa a vida nas ruas à liberdade. Por isso se recusam a receber ajuda. Acontece que, nas ruas, eles perdem a identidade e o acesso aos seus direitos e passam a ser excluídos da sociedade. Viver na rua não é bom e fere a dignidade da pessoa", avalia Darlene.

Mesmo sabendo que a luta é contínua e composta por inúmeras batalhas, a secretária frisa que o segredo é não desanimar.

"Em março o Creas Pop vai ser transferido para as proximidades do Terminal Rodoviário, no novo albergue, e esperamos melhoras na procura, devido à localização. Além disso pretendemos ampliar as atividades, já que a infraestrutura será bem melhor", planeja.