10 de julho de 2026
Política

?Minha Casa' revela 27 mil sem moradia

Por Ana Paula Pessoto | Colaborou Ieda Rodrigues
| Tempo de leitura: 6 min

O cenário ontem no estádio Alfredo de Castilho, em Bauru, era digno de uma partida de final de campeonato de futebol: cerca de 18 mil pessoas entusiasmadas, vibrando e aplaudindo. Mas ao invés de jogo, o locutor anunciava nomes e sobrenomes. Semelhante se estivesse narrando gol, o público ia ao delírio quando ele revelava cada um dos 400 sorteados com apartamentos do programa Minha Casa Minha Vida para renda de até três salários mínimos. Os demais 17,5 mil presentes e os 10 mil cadastrados que não compareceram ao sorteio continuam "sem casa".

Mesmo contando que entre os 28 mil inscritos haja duplicidade - duas ou mais pessoas da mesma família se cadastraram -, o Minha Casa Minha Vida expõe uma pequena cidade que ainda não tem casa própria.

A estimativa é que o déficit habitacional de Bauru seja entre 15 mil e 18 mil residência, segundo Édison Bastos Gasparini, presidente da Cohab. Ele lembra que a empresa, mesmo sem ter previsão de novos lançamentos, tem cerca de 6 mil inscritos à espera da casa própria. "Essas pessoas estão sendo chamadas à medida que há retomada de residências. E serão atendidas se a Cohab voltar a construir, mas para isso antes é preciso resolver a dívida que a empresa tem com o FGTS", frisa.

No caso dos 400 apartamentos sorteados ontem, no Residencial Eucaliptos, localizado ao lado do Núcleo Octávio Rasi, o Minha Casa Minha Vida realiza o sonho de ter a casa própria com a possibilidade de pagar prestações mensais entre R$ 50,00 e R$ 140,00.

"Por isso os governos federal e estadual têm de ampliar os programas de habitação", completa Gasparini. O concorrido sorteio de ontem começou por volta das 9h e só terminou no início da tarde. Os cerca de 18 mil lugares das arquibancadas do Alfredo de Castilho estavam preenchidos.

Minutos antes do início do sorteio, o aposentado João Carlos Cordeiro estava espantado com a quantidade de pessoas no estádio. "Moça, nem nos jogos do Norusca contra o Palmeiras e o São Paulo eu vi tanta gente neste estádio! Mas eu sei porque isso. É que para as pessoas mais humildes, o sonho de morar no que é delas é maior até do que a nossa paixão nacional", frisou.

Casada há seis anos, a dona de casa Cristina Santana dos Santos espera seu terceiro filho e vê no Minha Casa Minha Vida uma oportunidade de dar moradia aos seus filhos. "Apenas meu marido trabalha e a oportunidade de pagar um aluguel tão baixo não aparece todos os dias".

"Esperávamos por essa multidão e por essa festa bonita porque durante toda a semana as pessoas davam sinais de ansiedade e espera. Para você ter ideia, os carros se enfileiravam na rua em frente ao residencial. O Minha Casa Minha Vida é uma oportunidade única para essas pessoas", afirmou a vice-prefeita Estela Almagro, coordenadora do Grupo Multissetorial que é responsável pela gestão do programa em Bauru para a faixa etária de até 3 salários mínimos.

De acordo com Estela, os contemplados pagarão por dez anos uma mensalidade que pode variar entre R$ 50,00 e R$ 139,00, dependendo da renda do contemplado que, na época de inscrição, não podia ultrapassar a três salários mínimos (R$ 1.395,00).

Outra condição para que os contemplados recebam as chaves do apartamento é não terem nenhum tipo de financiamento imobiliário em seus nomes. 60% do total de unidades foram destinadas para famílias que possuem mulheres como responsáveis pela casa, 3% para idosos e 37% para demais famílias.

Todos os sorteados receberão notificação da prefeitura e deverão comparecer no período de 17 a 21 e 24 a 28 de janeiro para a entrega da documentação exigida na sede da Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes), que fica na quadra 1 da rua Alfredo Maia, quadra 1. O telefone de contato é o (14) 3227-8624.


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Mulher arrimo de família é prioridade

O sorteio seguiu os critérios de elegibilidade elaborados pelo Grupo Multissetorial e aprovados pelo Conselho Municipal de Habitação: 60% dos apartamentos para famílias que possuem mulheres como responsáveis pela unidade familiar; 3% para as famílias que possuem idosos e 37% para as demais famílias. Assim, dos 400 imóveis, 240 foram para mulheres responsáveis pelas famílias, 12 a idosos e 148 unidades sorteadas entre as demais famílias cujos homens são os responsáveis pelas unidades familiares. Foram sorteadas também as listas de suplência, nas mesmas proporções.

Amanhã, a Prefeitura deve publicar no Diário Oficial do Município a relação de todos os 400 contemplados e os 400 suplentes.

No total desta etapa do Programa Minha Casa Minha Vida estão imóveis de três empreendimentos. Desse total, 400 apartamentos foram sorteados ontem. Outras 132 unidades habitacionais do loteamento Jardim Yvone e as 38 unidades habitacionais da quadra 46 do loteamento Vila São João do Ipiranga, dentro dessa mesma etapa, serão destinadas à remoção de famílias residentes em áreas de risco.

Nesta primeira fase do programa, outras 1.250 moradias, entre casas e apartamentos já estão sendo construídas em Bauru. De acordo com a vice-prefeita Estela Almagro, que é coordenadora do Grupo Multissetorial, a previsão da entrega é de aproximadamente 12 meses.


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"Mãe, eu ganhei"

Uma das primeiras sorteadas, a manicure Daiani Aparecida Bispo, ao ouvir seu nome no alto falante, reagiu com pulo e lágrimas. Trêmula pela emoção, ela não pensou duas vezes e ligou para dar a notícia à mãe. "Não estou acreditando que ganhei. Sou mãe solteira e moramos em sete pessoas em um casa pequena. Minha mãe ainda cuida de dois parentes com deficiências. Esse foi um belo presente de Deus".

A mesma alegria sentiu Carlos Alberto Donizete Barbosa ao ouvir o nome da esposa na narração dos sorteados. "Ela não veio porque estava cansada. Quero chegar logo em casa para dar a notícia. Já passamos dos 50 anos e nunca tivemos casa própria".


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Em clima de festa, inscritos usam o sorteio para a confraternização

Como é comum ao brasileiro, quem esteve no estádio Alfredo de Castilho ontem para o sorteio dos apartamentos do Minha Casa Minha Vida aproveitou também para fazer a festa. Barracas com salgados, pipoca, batata frita, refrigerantes e doces se espalharam pelo lugar e fizeram a alegria das crianças, que também comparecem em peso.

Esse foi o caso, por exemplo, do pequeno Josph Nícolas, 6 anos, que acompanhou sua mãe, Ana Paula Gonçalves de Oliveira. Mães com crianças de colo, a vizinha que aproveitou para acompanhar a amiga, casais de namorados torcendo pela possibilidade de adquirir sua primeira moradia para o casamento, aposentados que mesmo depois de anos e anos de trabalho não conseguiram comprar uma casa, mulheres que são arrimo de família.