11 de julho de 2026
Economia & Negócios

Indústria cria 1.900 postos de trabalho em relativa recuperação

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 4 min

Em condições normais, os números eram para ser comemorados, mas o fato de 2009 ter sido um ano ruim para a indústria de transformação fez com que o surgimento de 1.900 novos postos de trabalho em Bauru e 16 municípios da região durante o ano passado fosse considerada apenas uma recuperação razoável. Além da base de referência ser fraca - já que em 2009 pouquíssimos empregos foram gerados, o processo de desindustrialização pelo qual a região vem passando ao menos nos últimos 20 anos também preocupa empresários do setor.

De acordo com dados do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) de Bauru, ao longo de 2010 houve uma variação positiva de 7,85% no nível de emprego, ante o acumulado de 1,51% de 2009, quando foram criados aproximadamente 400 novos postos de trabalho. Em 2008, ano em que a crise financeira internacional teve início, em setembro, o aumento foi de 5,85%, com acréscimo de 1.016 vagas.

Em relação a todas as 36 diretorias regionais do Ciesp no Estado, Bauru ficou em quinto lugar entre as que mais geraram empregos no ano passado. Mesmo assim, Domingos Malandrino, diretor do Ciesp na região, aponta que a indústria poderia ter criado um número muito superior de vagas de emprego se não tivesse importado tantos produtos manufaturados nos últimos anos.

"Estamos passando por um processo de desindustrialização. E este é um processo lento, gradual e progressivo, como uma doença crônica que mata o paciente aos poucos", compara, salientando que, nos últimos 20 anos, a participação do Produto Interno Bruto (PIB) industrial no PIB nacional caiu de 27% para 16%.

Este fenômeno, segundo ele, foi incentivado pelo aumento de 2% no percentual de importações de produtos industrializados em apenas dois anos, o que reduziu a competitividade da indústria nacional, prejudicando seu desempenho em termos de produção e também em relação à contratação de mão de obra.

"Se esses 2% de produtos tivessem sido fabricados no Brasil, nós teríamos gerado 46 mil novos postos de trabalho no setor industrial. Ou seja, mesmo que o saldo tenha sido positivo em 2010, poderia ter sido muito melhor se não tivéssemos importado tanto", salienta, lembrando que, no Estado, foram geradas 114 mil vagas de emprego - variação de 4,74% (leia mais na página 21).


Setores

Ainda de acordo Malandrino, em âmbito nacional, os segmentos que mais "puxaram" a variação positiva do nível de emprego foram os segmentos sucroalcooleiro, petroquímico e construção civil. Com exceção deles, todos os demais setores são considerados indústria de manufatura e, regra geral, tiveram desempenho negativo ou pouco convincente.

Conforme aponta levantamento do Ciesp, as variações negativas na diretoria de Bauru ficaram a cargo dos setores de produtos alimentícios, celulose e papel, produtos de borracha e material plástico. Já o aumento dos postos de trabalho ficaram sob responsabilidade do setor de bebidas, máquinas e equipamentos, veículos automotores, móveis e produtos químicos, nesta ordem.

"O problema é que estes setores que tiveram bom desempenho empregam um menor número de funcionários. Embora tenham obtido uma variação positiva em relação a 2009, o número absoluto de novas vagas, no cômputo geral, é reduzido", observa.

O diretor do Ciesp em Bauru destaca ainda que o encarecimento de preços das comoditties no ano passado - como, farinha, carne e derivados de leite - também contribuíram para que as micro e pequenas indústrias reduzissem sua produção e, consequentemente, a quantidade de contratações. Somente em dezembro do ano passado, por exemplo, o nível de emprego na diretoria de Bauru decresceu 0,52% em relação ao mesmo mês de 2009, o que significou um corte de aproximadamente 150 postos.

"Neste contexto, a desvalorização do dólar frente ao real favoreceu ainda mais a entrada de produtos industrializados no País. Os empresários ficaram com extrema dificuldade para conseguir efetuar suas vendas", argumenta Malandrino.


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Medidas

Na avaliação do diretor do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) de Bauru, Domingos Malandrino, a reversão do processo de desindustrialização pelo qual passa o Brasil depende de uma política governamental que desencadeie ações conjuntas para inibir a entrada de produtos industrializados no País.

"Paralelamente, os setores industriais precisam ser, pontualmente, reorganizados, de forma que o parque fabril nacional possa ser capaz de produzir, com a mesma qualidade e competitividade de preço, os produtos que estão sendo importados agora", comenta o empresário.

Mas, em sentido contrário, para a próxima semana existe a expectativa do Comitê de Política Monetária (Copom) anunciar o aumento da taxa Selic em 0,50 ponto percentual - dos atuais 10,75% para 11,25% ao ano. A medida tem como objetivo conter o avanço da inflação em 2011, mas na avaliação de Malandrino, deverá prejudicar ainda mais a indústria neste ano. "Isso só aumenta a dívida interna do País e o torna mais atrativo para a entrada de dinheiro especulativo no mercado de ações", analisa.