Por mais urbano e "cimentado" que o mundo esteja, por todo lugar existe um pouco da presença da natureza. Para moradores da favela do Parque das Nações, isso mudou há pouco mais de um ano. E um pequeno córrego foi o motivo da alteração de percepção.
Antes descrito como fétido, sujo e nojento, agora, os peixes "desfilam" pela leve correnteza do córrego que passa pela região da favela. Com isso, o leito d´água virou passatempo e até alguma fonte de alimentação da população carente que ali reside.
Jesus Custódio da Silva Xavier, 49 anos, é um desses "novos" pescadores. Com mais cinco pessoas morando em sua residência, ele frequentemente passou a fisgar os peixes do local. "Realmente, têm muitos peixes. Eu vou com minha varinha e saio sempre com um nas mãos. E eu já peguei peixe grande, como uma tilápia mais ou menos assim", afirma seo Jesus, com as duas mãos calejadas.
História de pescador? Não. A reportagem foi até a beira do córrego para confirmar. Mesmo ariscos e assustados, é possível ver os peixes entre a leve correnteza. No raso, eles ficam mais visíveis com a transparência e nitidez das águas.
Entretanto, nem sempre a vida esteve tão presente desse modo. Segundo os moradores, há pouco tempo, o esgoto era lançado diretamente no córrego. Esse fato mudou com a instalação de emissários de esgoto na região, que eliminaram o descarte naquelas águas.
Com essa pequena ajuda humana ? que, na verdade, apenas consertou a própria interferência do homem -, em pouco tempo, a natureza começou a se restabeleceu. O rompimento de uma represa também ajudou. A ocorrência "jogou" os peixes no córrego e, por isso, encontra-se uma variedade de espécies. Além das tilápias, os moradores dizem que há lambaris e até mesmo pacus.
E a vida natural no local não é composta somente por peixes. Com uma densa vegetação ribeirinha, até mesmo garças aparecem no fim de tarde para procurar alimento e, assim, ajudam a recompor o meio ambiente que inexistia há pouco tempo.
Jesus Xavier acompanhou a mudança toda e afirma que todos sentem isso. "A gente vê a diferença que ficou depois que tudo foi limpo Antes, era somente sujeira. Agora, tem vida por aqui".
Questionado se teria algum peixe armazenado em sua residência, o senhor não responde. Ele apenas bate em sua barriga indicando o destino certo da pescaria. "Eu gosto de pescar por pescar mesmo. Mas, um peixinho é sempre bom para comer. Todo mundo em casa gosta. Eu vou lá também para acalmar. Afinal, tem aquela história de ?tá nervoso, vai pescar? e é isso que eu faço agora", conclui, sorridente.
O coordenador da Defesa Civil de Bauru, Álvaro de Brito, explica que não há qualquer problema no consumo dos peixes. Segundo ele, o córrego realmente ficou limpo com a instalação dos emissários e, assim, os peixes também são saudáveis.
Cidadania
De longe, Rafael Tobias observa a reportagem. Atualmente, ele possui 72 anos, sendo que desses, 40 foram residindo na favela do Parque das Nações. Quando ficou sabendo sobre o que se tratava, ele logo disparou: "O pessoal vem bastante aqui. Virou uma maneira de diversão dos moradores. Realmente mudou a favela".
Questionado sobre a transformação, ele afirma que foi grande e que são essas ações que servem para devolver a cidadania a um lugar aparentemente abandonado pelo restante da cidade. "Não é porque é uma favela que tem que ser abandonada. A cidade tem que olhar para cá. Enquanto isso não acontece, são essas coisas que melhoram. O pessoal passou a ver isso como uma maneira de diversão e de passar o tempo em um local tão carente".
"É preciso cuidar"
O crescimento de vida no córrego, que somente foi possível com a retirada do esgoto, precisa de cuidados para que a interferência humana novamente não destrua o restabelecimento da natureza. A preocupação é exatamente com o excesso de lixo que é jogado na água.
Por toda a extensão do córrego é possível ver papeis, plásticos e, em determinado ponto, até mesmo um carrinho de supermercado atolado entre a moradia dos peixes.
Segundo Ivanilda Custódio de Oliveira, 40 anos, que mora na beira do córrego, muitas pessoas ainda jogam lixo nas águas. "O pessoal não respeita. Mesmo sabendo de toda a mudança que ocorreu aqui, ainda insiste em jogar o lixo. Eu não gosto. Até brigo por isso", conta, de forma consciente, mostrando que condição financeira não é desculpa para falta de cidadania.
O coordenador da Defesa Civil de Bauru, Álvaro de Brito, confirma a preocupação de dona Ivanilda. "Se a população não respeitar e não parar de jogar o lixo, logo, isso vai acabar. O rio vai ?morrer" de novo. Eles precisam ver como a vida conseguiu brotar aqui, mesmo depois de tantas situações adversas, e parar de estragar. Caso isso não aconteça, o córrego está destinado a morrer novamente", finaliza, em forma de alerta aos moradores.