08 de julho de 2026
Ciências

Mini-robôs no corpo: é real!


| Tempo de leitura: 4 min

Você foi reduzido a tamanho menor que uma pílula e ingerido com água pela boca de um humano. Imagine você com cotoveleira, joelheira e armado de máquina fotográfica, filmadora e ainda ligado ao meio exterior por mecanismos sem fios. Em seu capacete, a webcam o coloca em contato com o mundo virtual da internet.

Entrar pela boca e seguir o trajeto do alimento pela faringe e esôfago para cair no hostil estômago pode gerar imagens maravilhosas como das pregas vocais na nasofaringe ou de uma cratera vulcânica na parede do estômago com o nome de úlcera péptica. Ao passar do esôfago para o estômago você teve que passar pela eclusa que os separa e verificou se ela está funcionando adequadamente. No intestino o trajeto é longo e tortuoso, são muitas curvas, as paredes irregulares e ainda são muitos obstáculos no meio da estrada. O tempo para sair via retal deve ser maior.

No intestino pode-se encantar com a foz da bile desaguando em suas paredes. Mas bonito são os jatos na cachoeira formada pelo derramamento da secreção pancreática sobre os alimentos. Ao olhar nas paredes identifica-se partes dos alimentos, mas desaparecem repentinamente, tragados e sugados pela mucosa intestinal, quase um truque cinematográfico.

Quando o médico miniaturizado é injetado nas veias periféricas segue o sangue em direção ao coração. A pororoca vermelha na chegada do sangue ao interior do coração é encantadora. Cada vez que a válvula ou eclusa fecha rapidamente o refluxo permite ver que tem lugar uma verdadeira piracema de células que saltam pelas ondas líquidas do plasma. Assim dá para verificar a fluidez do sangue e os componentes do plasma, avaliar a qualidade das paredes dos vasos e o funcionamento das válvulas cardíacas. Encantadoras são as paredes rebuscadas do palácio cardíaco como um barroco clássico no centro de nosso império corporal.

No fígado, centro metabólito corporal, numerosos hepatócitos operários com suas enzimas quebram moléculas como serrotes, armazenam energia e fabricam peças para outras partes do corpo. A imagem que se vê ao entrar no fígado é a de um verdadeiro parque industrial, mas ecologicamente correto, pois quase tudo é reciclado ou descartado por canais e ductos.

Foi difícil, mas uma aventura comparável a esportes radicais foi passear pelo rim. O sangue passa muito rapidamente pelos filtros e cachoeiras, as quedas são abruptas, uma verdadeira montanha russa. Os vasos renais sobem e descem e ainda se enrolam como novelos em verdadeiros rios com correntezas e curvas emocionantes. Mas foi possível verificar a qualidade dos filtros.

Quando assisti pela primeira vez o filme Viagem Insólita de Spielberg em 1985, fiquei maravilhado e assisti também o original Viagem Fantástica de 1966. Ainda não dá para reduzirmos o tamanho dos médicos para inseri-los no interior do corpo, mas já é realidade o uso de minúsculos robôs que poderão diagnosticar, realizar cirurgias e administrar diretamente medicamentos de forma bem específica e precisa, como demonstram Paolo Dario e Adriana Menciassi em seus trabalhos sobre robótica médica na Itália, em conjunto com a empresa sul-coreana Intelligent Microsystems Center.

Os mini robôs em forma de pílulas, ou pílulas em forma de robôs, além de permitir diagnósticos por imagens, serão ativos e poderão realizar biópsias em tumores escondidos e até cirurgias. Estes pequenos robôs já estão quase prontos para os testes clínicos. O ponto de partida é o trato digestivo.

A primeira câmara sem fio em forma de pílula foi a israelense M2A de 1999 e hoje é utilizada rotineiramente com o nome de cápsula endoscópica. Os protótipos atuais dos robôs miniaturizados tem pernas, propulsores, lentes sofisticadas, sensores, fontes de luz e controle sem fio e já foram testados em animais. Um destes principais robôs tem o objetivo de detectar e tratar o câncer e recebeu o nome de Vector. Outros protótipos também estão sendo produzidos por pesquisadores da Universidade Ritsumeikan e da Universidade Shiga of Medical Science no Japão.

Um outro conceito de mini robôs cirurgiões em desenvolvimento implica no paciente ingerir 10 a 20 pílulas que na verdade são peças que se juntarão no interior do estômago a partir de imãs em suas extremidades. Os fragmentos se compõem e configuram uma ferramenta controlada externamente pelo cirurgião. Uma vez terminada a biópsia ou cirurgia com implantação de medicamentos, as peças do robô montado se soltam e são eliminadas junto com os alimentos processados pelo intestino do paciente.


Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todas as segundas-feiras no JC. Email: consolaro@uol.com.br