10 de julho de 2026
Regional

Famílias relatam drama das inundações

Lilian Grasiela
| Tempo de leitura: 6 min


Apesar da tristeza ao ver sua residência e seus pertences debaixo da água, moradores que tiveram de deixar suas casas assim que o nível do rio Lençóis começou a subir, ontem pela manhã, se mostram confiantes, dizem que vão dar a volta por cima e se apoiam na solidariedade de muitos voluntários para enfrentar o drama das inundações.

O eletricista Mauro Alexandre de Oliveira, 50 anos, que mora na rua Cristovão Colombo, Vila Contente, conta que só deu tempo de retirar da residência a esposa e seus dois filhos, além da geladeira, máquina de lavar e TV. De acordo com ele, a água teria atingido cerca de 40 centímetros dentro do imóvel. "A gente acha que só acontece com os outros, não espera que vai acontecer com a gente", diz. "A sensação que dá é de perda, mas eu sou cristão e creio que Deus nos restabelece tudo. Então eu não me preocupo com coisa materiais".

Na avenida 25 de Janeiro, uma das principais da cidade, concessionárias de veículos, padarias, prédios de entidades e uma igreja ficaram debaixo d?água. Funcionários de uma concessionária de motos que estava praticamente ilhada em meio às águas do rio Lençóis aguardavam na calçada para que pudessem voltar ao trabalho.

Segundo Robson Oliveira, 27 anos, que trabalha na empresa, a expectativa era de que o trabalho só voltasse ao normal hoje, após a limpeza do estabelecimento. "Só deu tempo mesmo de tirar algumas coisas", revela. "Mas tem peças que, realmente, a gente não tem mais como recuperar".

O comerciante Antônio Carlos Diegolli, dono de uma loja de embalagens na rua Coronel Joaquim Anselmo Martins, improvisou uma espécie de "barricada" em frente à porte de seu estabelecimento, feita com sacos plásticos cheios de areia, para evitar que a água atingisse o interior do imóvel.

Durante todo o dia, policiais militares organizavam o trânsito nos principais cruzamentos, onde diversas pontes foram interditadas em razão do transbordamento dos rios, desviando o tráfego para outras vias.

No Ginásio de Esportes Archangelo Brega Primo, antigo Clube Social, Esportivo e Cultural (CSEC), a reportagem do Jornal da Cidade encontrou várias famílias, inclusive com crianças, que buscavam um espaço em meio à móveis, roupas e objetos que elas conseguiram salvar antes que o rio atingisse mais de um metro dentro das casas, na vila Repke.

O aposentado Sílvio Paulo Soares, 37 anos, que mora com uma irmã, o cunhado e uma sobrinha em uma casa na rua José Geraldo, na beira do rio, conta que a água subiu muito rápido. "A água estava subindo devagar. Depois, quando fui ver, começou a subir rapidinho e estava quase no batente da porta", conta. "Eu não queria sair, mas tive que sair rápido".

O casal Maria das Dores Feitoza Ribeiro, 47 anos, e Manoel Ribeiro, 54 anos, que também reside na rua José Geraldo, vila Repke, conta que perdeu tudo o que havia dentro de casa, como guarda-roupa, conjunto de sofá, panelas.

Abrigados temporariamente no ginásio de esportes junto com um filho, duas filhas, um genro e três netos, eles mostram desolados as poucas coisas que conseguiram salvar. "Eu fiquei desesperada", diz a dona de casa, relatando que a água chegou a atingir mais de um metro de altura.

Já Manoel, que faz bico como vigia e havia acabado de chegar em casa, por volta das 4h, quando percebeu que o nível do rio estava acima do normal, revela que, até às 16 horas, não havia conseguido dormir. Segundo ele, uma parede do quarto da casa caiu e o futuro da família ainda é incerto, já que eles não têm mais para onde ir.


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Economia de água

Nem mesmo o Serviço Autônomo de Água e Esgotos de Lençóis Paulista (SAAE) escapou das forças da natureza. Durante a manhã e parte da tarde, o sistema de captação teve que ser interrompido em razão das cheias no rio Lençóis, que impediram o funcionamento correto das bombas. O pátio do prédio, além de diversas salas, como a do almoxarifado, ficaram mais de um metro submersas.

Segundo o diretor do órgão, o ex-prefeito José Antônio Marise, somente por volta das 17h o sistema de captação foi restabelecido. Durante o período em que a captação não foi feita, Marise garante que o abastecimento de água na cidade não chegou a ser prejudicado, já que o reservatório teria dado conta da demanda.

"Até agora, o reservatório conseguiu abastecer a cidade. Nós começamos a produzir água agora. Embora a gente não esteja captando por lá (sistema principal), nós temos uma variante aqui que capta menos água, mas que começou já a produzir", explica. De acordo com ele, o SAEE abastece entre 60% e 70% da população da cidade. O restante é abastecido por meio de poços artesianos.

O diretor pede que a população economize água até que a situação esteja completamente normalizada. Se o nível de água do rio voltar a subir, poderá haver racionamento de água. "Nós temos ainda uma preocupação com relação à represas que estão comprometidas por conta da quantidade de chuva", declara. "Se ocorrer rompimento de represa, pode novamente haver uma elevação do nível da água. É preciso ficar atento".

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"Situação estável"

De acordo com o capitão Terra, o volume dos rios começou a subir entre às 8h e 9h. "Das 10h até as 14h, essa água estabilizou, algumas providências foram adotadas e o rio foi levando seu percurso normalmente. A partir das 14h, ele tem baixado. Então, estamos monitorando alguns pontos, a Defesa Civil de Lençóis Monitorando outros pontos e o Corpo de Bombeiros também", explica. "Nós teremos ainda o leito fora de suas margens, pelo menos, até o início da noite".

O capitão relembrou a situação vivida por Lençóis em 2006, quando o rompimento de represas deixou a cidade embaixo da água. "Em fevereiro de 2006 nós tivemos um problema de chuvas grave e sete represas estouraram em uma sequência entre Borebi e Lençóis. Isso fez o volume de água aumentar muito no centro da cidade, atingindo várias vilas."

Ele garante que, desta vez, o transbordamento dos rios foi provocado pelas chuvas que caíram durante a madrugada. "Essas represas nem existem mais. O órgão estadual que cuida disso proibiu que fazendas tivessem essas represas para que não acontecesse isso de novo", explica. "O que aconteceu é que, nas proximidades no córrego Faxinal, numa região rural próximo de Lençóis, choveu aproximadamente 170 milímetros essa madrugada".

Perdas materiais


Em nota enviada pela assessoria de imprensa, a prefeita de Lençóis Paulista, Izabel Cristina Campanari Lorenzetti (PSDB), informou que, apesar da chuva forte, não houveram vítimas nem registro de desabamentos. "Os danos limitaram-se apenas a perdas materiais", diz.

"Todas as famílias e comerciantes instalados às margens do rio que corta o centro da cidade e alguns bairros precisaram deixar suas casas ou proteger suas lojas".

De acordo com a prefeita, numa ação conjunta, Polícia Militar, Corpo de Bombeiros, Prefeitura Municipal, Defesa Civil e voluntários se mobilizaram para socorrer as vítimas ou prevenir maiores problemas.

"Conforme os últimos monitoramentos, há represas acima do Rio Lençóis que estão no limite de suas capacidades", declara.

"Se uma delas se romper, haverá uma piora considerável da situação, visto que até agora as águas subiram apenas pelo grande volume das chuvas".

Ainda por meio de nota, o Executivo revelou que todos os desalojados estão sendo atendidos pela Diretoria de Assistência e Promoção Social e pediu que a população se mantenha em estado de alerta. A assessoria não soube informar o número de famílias que tiveram que deixar suas casas por causa das inundações. As famílias foram abrigadas