As drogas e o álcool provavelmente são a causa de mais uma morte em Bauru. Na noite de anteontem, um morador de rua de 52 anos morreu, por ironia, no pátio do Pronto-Socorro Central (PSC) após ter utilizado álcool e crack no mesmo local. Entretanto, mesmo com relatos de que ele havia consumido as substâncias, a causa da morte ainda não foi confirmada. O fato mais uma vez escancara o problema crônico do crack em Bauru .
Ivo Carlos Valle, 52 anos, era um dos "moradores" do pátio do PSC. Junto com uma quinzena de outras pessoas que não têm onde morar, ele utilizava há tempos as instalações do local como habitação. Segundo consta no Boletim de Ocorrência (BO), pouco antes de morrer, o homem havia consumido álcool e utilizado pedras de crack. Fato confirmado por testemunhas no local.
Mesmo estando no próprio pátio do PSC, Ivo Valle não conseguiu ser socorrido a tempo. O BO aponta que o socorro foi acionado, contudo, o médico, ao chegar no local por volta das 22h30, já encontrou a vítima sem vida.
Por meio da assessoria de comunicação, a Secretaria Municipal de Saúde e a Divisão de Urgência e Unidades de Pronto Atendimento confirmaram a informação. Em nota, os órgãos explicaram que a vítima não recebeu atendimento por já ter dado entrada no PSC sem vida. Com isso, o corpo foi encaminhado direto ao Instituto Médico Legal (IML) para as devidas providências.
Por não portar documentos, o homem foi considerado desconhecido. Entretanto, durante a tarde de ontem, familiares foram até o IML e fizeram o reconhecimento. No Plantão Policial, eles não permitiram que seus nomes fossem divulgados.
Mesmo com todas as circunstâncias indicando o uso de álcool e drogas, não é possível afirmar se as substâncias foram a causa da morte. Segundo o que a reportagem apurou, material para exame toxicológico foi coletado e o resultado irá apontar se havia quaisquer dessas substâncias no organismo da vítima. O laudo com a causa da morte também não foi divulgado.
Testemunhas
Porém, mesmo sem a confirmação oficial, para as outras pessoas que, sem um lar, "residem" no pátio do PSC, a causa da morte foi realmente o uso excessivo de drogas e álcool. Deitado sobre papelões estendidos no chão entre várias ambulâncias, Vladmir Vieira, 53 anos, conta que foi exatamente naquele local em que Ivo Valle morreu.
Ele afirma ter visto a vítima passando mal e aponta uma mancha de sangue em uma das ambulâncias. Segundo ele, aquele sangue "estava saindo da boca de Ivo".
Questionado sobre o que poderia ter causado a morte do amigo, Vladmir logo aponta: "foi muita bebida e as pedras que ele ainda usava". Com uma garrafa descartável de dois litros em mãos praticamente vazia, ele conta que aquela era a cachaça que Ivo bebia na noite anterior.
Em relação ao passado da vítima, Vladmir conta que ele morava há pouco tempo na rua. "Antes de vir para cá (pátio do PSC), ele morava em uma pensão. Era a família dele que pagava. Porém, pararam de pagar e ele não teve para onde ir. Por isso, ele acabou vindo parar na rua", conclui, antes de começar a chorar pela morte do amigo.
?Moradores do PSC?
O homem que morreu no pátio do PSC é apenas um dos muitos que fazem do local suas moradias. Por diversas questões, eles passaram a habitar ali para se proteger dos perigos da vida na rua.
"Umas 18 pessoas moram aqui. No Pronto-Socorro tem polícia o dia inteiro e movimentação. Não tem perigo de alguém vir nos fazer mal. E também tem o fato de ser um hospital. Se bebermos demais, é só ir ali e receber o tratamento", conta Vladmir Vieira, que afirma viver na rua há dois anos e não perde a esperança de voltar para casa.
Questionado sobre a situação e como esses "moradores" do PSC são tratados, o secretário municipal de Saúde, Fernando Monti, afirma que não há qualquer orientação especial, justamente pelo fato ser, segundo ele, "inusitado". "Alguém passar mal exatamente no pátio é uma coincidência enorme. Essas pessoas são tratadas como outros pacientes. Se chega alguém falando que tem uma pessoa passando mal no pátio, certamente o socorro vai lá e avalia o caso", conclui o secretário.
Epidemia do crack, droga que pode ter sido a causa da morte, assusta
Confirmando ou não o uso de crack como causa da morte de Ivo Carlos Valle, certamente é possível afirmar que ele é mais uma vítima dessa "epidemia" que a cada dia preocupa mais o bauruense. O JC vem acompanhando o drama de famílias devastadas pelo entorpecente e como o poder público está se mobilizando para amenizar o problema.
Em novembro do ano passado, a reportagem relatou a triste realidade de um grupo de seis meninos e meninas, com idades entre 11 e 16 anos, que constantemente pedem dinheiro em uma área movimentada da zona sul da cidade. O destino final da quantia arrecadada é certo: a compra de pedras de crack.
Com o fato, ficou constatada a dificuldade em se conseguir tratamento adequado a essas pessoas, a maioria conhecidos pela polícia e órgãos públicos. Cerca de um mês depois, o JC foi mais a fundo na realidade dos usuários do crack. Na ocasião, a linha do trem foi visitada durante as madrugadas, onde uma "cracolândia" foi encontrada no Centro da cidade. No local, mais de uma centena de "zumbis da noite" ? de diferentes faixas etárias - perambulam em busca do entorpecente.
Após escancarado a "epidemia" do crack, em dezembro do ano passado, o Departamento Regional de Saúde (DRS-6) iniciou o processo de criação dos leitos de internação de viciados em situação de emergência. A medida começou a funcionar no começo da semana passada com cinco leitos no Hospital Manoel de Abreu.
Os pacientes internados são selecionados por indicação prévia do Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps/AD), sendo que o protocolo para solicitação de vaga visa atender pacientes que realmente necessitam da internação para a desintoxicação, fase do tratamento que demanda em média aproximadamente 15 dias
Fora esses cinco leitos, o DRS-6 tem o projeto de instalar 65 leitos no Manoel de Abreu, oferecendo atenção completa contra a dependência química, com internação, desintoxicação e tratamento. Para garantir o funcionamento desse projeto, será necessário o investimento de R$ 2,9 milhões.