O caos voltou a tomar conta do Pronto-Socorro Central de Bauru na tarde de ontem pela concentração dos atendimentos de urgência e emergência da cidade na unidade, devido à falta de médicos no Pronto-Socorro Bela Vista entre às 13h e 19h. E o pior é que a Prefeitura não consegue contratar médicos mesmo após o Plano de Cargos Carreiras e Salários (PCCS) da Saúde. No último concurso, dez dos 19 aprovados não tomaram posse .
A situação foi a mesma na última quarta-feira, quando um médico apresentou atestado por motivos de saúde em cima da hora para justificar sua ausência no PS Bela Vista. Dessa vez, segundo a assessoria de imprensa da prefeitura, os dois profissionais escalados para o atendimento na tarde de ontem estavam com problemas de saúde - o que havia se afastado anteriormente solicitou a prorrogação do atestado devido à necessidade de passar por uma intervenção cirúrgica de urgência.
O aposentado José Messias de Andrade, 63 anos, procurou o PS Bela Vista por conta de tosse intensa, mas desistiu de passar por um médico quando se deparou com a ausência de atendimento na unidade. "Vou seguir tomando um xarope caseiro, mas fico revoltado com essa situação porque ninguém deixa de cobrar nossos impostos, mas nos negam direitos básicos. Isso é uma covardia por parte dos nossos políticos. A Saúde de Bauru está doente e, desse jeito, o povo não vive", falou revoltado.
Desilusão com o atendimento público foi o sentimento de Suzane Mendes Bordim Rangel, que foi até o PS Bela Vista reclamando do que achava ser cólica renal. "Se ficar dependendo de Pronto-Socorro, a gente pode até morrer. Eu vou sair daqui e tentar fazer um convênio médico porque não tem mais condições", afirmou.
Segundo testemunhas que aguardavam consultas agendadas no Pronto-Socorro da Bela Vista, os pacientes de urgência que chegavam em busca de atendimento eram levados em uma ambulância para o PS Central, onde todos sentiam os efeitos da lotação.
Apesar da ausência de médicos a partir das 13h no PS Bela Vista, Lucimari Filadelfo Ferreira afirma ter chegado ao local às 10h30 e não ter sido atendida pelo profissional que atuava no momento. "Estava muito cheio e me disseram para procurar o Central porque não teriam mais como preencher fichas lá", relatou.
Segundo Lucimari, ela chegou às 11h no PS Central e, com conjuntivite, foi encaminhada para o atendimento oftamológico. "O problema é que me mandaram aqui de volta para eu pegar um atestado médico e preciso disso porque perdi um dia de serviço e posso me prejudicar. Agora são 18h30 e eu ainda estou esperando para passar por um médico só para conseguir meu atestado", afirmou.
Edson Costa estava indignado: seu pai Leontino Costa, 74 anos, que sofre de mal de Alzheimer e diabete, estava às 19h esperando por atendimento no PS Central. "Por volta das 16h fui ao Bela Vista e fui informado que não tinha médico, mas não tem condições do meu pai ficar aqui. O resultado de um exame que pegamos no posto de saúde indicou que ele precisa de internação e eu não sei mais o que fazer", contou.
Segundo pacientes que estavam no local, o tempo de espera para ser atendido por um médico no PS Central ontem superava 5 horas.
Pode se repetir
Com déficit de 70 médicos na Secretaria Municipal de Saúde, não está descartada a possibilidade de, outra vez, como ocorreu ontem à tarde e na última quarta-feira, o Pronto-Socorro Bela Vista ficar sem o profissional. E, com isso, a Secretaria Municipal de Saúde ter de remover os pacientes que precisam de atendimento médico para o Pronto-Socorro Central.
"Infelizmente isso pode ocorrer de novo", admite Fernando Monti, secretário de Saúde, que ressalta que os demais funcionários do PS Bela Vista continuam atendendo mesmo nos períodos em que não há médicos. Ontem, segundo ele, o PS Bela Vista ficou sem atendimento médico das 13h às 19h porque um profissional que já tinha tirado licença médica na semana passada pediu prorrogação do atestado.
"E, inclusive, há possibilidade de este médico passar por um procedimento cirúrgico. E ocorreu a ausência de outro médico escalado para este horário que ainda não sabemos o motivo, mas vamos levantar", detalha o secretário de Saúde.
Mesmo após PCCS , prefeitura não consegue contratar médico
Mesmo após aumento salarial e incorporação de abonos, gratificações e vantagens previstos no Plano de Cargos Carreiras e Salários (PCCS) dos servidores da Secretaria Municipal de Saúde, que entrou em vigor no final do ano passado, a Prefeitura de Bauru não está conseguindo contratar médicos para suprir o déficit na rede municipal, que é de cerca de 70 profissionais.
A expectativa era que, com as novas regras, o ingresso na rede municipal se tornasse mais interessante aos médicos, mas das 20 vagas abertas no último concurso, realizado em outubro, apenas 19 médicos foram aprovados. E dos aprovados, dez não se apresentaram para tomar posse, revela o secretário de Saúde, Fernando Monti.
O concurso ofereceu salário de R$ 3.360,00 mais benefícios de R$ 210,00 para jornada de 20 horas semanais. Ele explica que dos 19 aprovados no concurso, 11 deles pediram prorrogação para tomar posse do cargo, possibilidade prevista no edital do concurso. Porém, o prazo da prorrogação terminou e dez deles não se apresentaram para tomar posse do cargo. "Acho isso muito estranho", comentou o secretário.
"Acho estranho um profissional se inscrever no concurso, prestar a prova, ser aprovado, reunir documentação necessária, pedir prorrogação de prazo para assumir a vaga e não se apresentar neste prazo", analisa.
Por conta disso, Monti adiantou que solicitou a um servidor da Secretaria de Saúde que entre em contato com cada um dos médicos aprovados e que não compareceram para tomar posse para saber o motivo. "Pedi para convidá-los para vir à Secretaria de Saúde. Quero conversar pessoalmente com cada um deles para saber o que está acontecendo", disse.
O secretário de Saúde pensa, inclusive, tentar solução jurídica caso, eventualmente, alguns dos aprovados que não tomaram posse dentro do prazo limite decida trabalhar para a Prefeitura. Dizendo estar frustrado, Monti não encontra explicação para o fato de dez médicos desistirem de tomar posse.
"A única coisa que ouvi, através de terceiros, é que médicos aprovados teriam dito que o salário diminuiu após o PCCS, o que não corresponde com a verdade", frisou. "Ao contrário: o PCCS permite ao médico progredir na carreira ao longo do tempo", completou.
Monti lembra, porém, que médico é um profissional disputado no mercado de trabalho em Bauru. "Quando fizemos o PCCS da Saúde, o salário da Secretaria de Saúde era superior ao oferecido ao médico pelo Hospital Estadual (HE), para a mesma jornada. Mas no último concurso que lançaram, o salário deles (HE) já é maior", compara.
Independente da possibilidade da contratação de parte dos dez médicos que não se apresentaram no prazo, Monti afirma que serão abertos novos concursos. O Departamento de Urgência e Emergência, que abrange o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), os prontos-socorros Central e da Bela Vista, além do Pronto-Atendimento Infantil (PAI), é a área com maior carência de médicos.